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A importância de falar bem Português

Não é segredo para ninguém que a Língua Portuguesa é chacinada diariamente pelos seus utilizadores. Temos os “há-des cá vir”, os “à séria!”, os “eu não me acredito”. No entanto, estas, apesar de serem expressões erradas, não nos induzem em erro. Sabemos exactamente o que a pessoa pretende dizer. Há outros erros, porém, que não dizem exactamente aquilo que a pessoa quer – em alguns casos, dizem até o contrário.

O primeiro caso de que vou falar não é muito problemático: meio-dia e meio. Dificilmente alguém se sentirá confundido com o seu significado. No entanto, quando pensamos bem na expressão e a analisamos, concluímos que não é assim tão simples.

Em todas as outras horas, dizemos: uma e meia; três e meia; nove e meia… Porquê meio-dia e meio? Continuamos a querer dizer meio-dia e meia hora. Sempre que alguém diz meio-dia e meio perco-me a pensar sobre o que quererão dizer. Meio dia e meio dia? Ou seja, meia-noite? Ou meio-dia e meio meio-dia, ou seja, seis da tarde? E se querem mesmo dizer meia-noite ou seis da tarde, qual é a necessidade de falarem em código?

Mais grave é a confusão entre “ao encontro de” e “de encontro a”. A maioria das pessoas usa as duas expressões com o mesmo propósito, embora na verdade elas tenham significados opostos. Já vi, numa notícia, dizerem que algo ia de encontro a um projecto e ao encontro do mesmo projecto. Como é que algo pode chocar com esse projecto e ao mesmo tempo ser a seu favor? Também gosto quando alguém diz: “fiquei muito contente, isto vai mesmo de encontro ao que eu queria”. Quem é que fica contente por algo correr de maneira contrária ao que desejavam?

Estas situações tornam-se ainda mais problemáticas quando ocorrem nos livros, que é precisamente onde elas não deviam ocorrer. Já encontrei demasiadas vezes frases que significam o oposto do que deviam ou que não fazem sentido. Por exemplo, num livro que li há pouco tempo, uma personagem dizia à polícia que já se encontrara várias vezes com o amante na casa da sua filha. E acrescenta: “não, na noite em que ele morreu”. Eu percebo que queriam acentuar o “não”, mas colocar aí uma vírgula não foi a melhor ideia que já tiveram. Se a polícia visse essa vírgula, a personagem já estaria através das grades sem ser na realidade culpada.

Noutra altura do livro, uma outra personagem diz: “ia usar isso, isso e o seu ódio inato de virar a maré a seu favor”. O que raio quer isto dizer? Seria “o ódio inato que o faz virar a maré a seu favor”? Ou “o ódio inato que tem de virar a maré a seu favor”? Ou “o jeito inato que tem para virar a maré a seu favor”?

Estes são erros que nos confundem e que nos fazem ficar perdidos a pensar, distraindo-nos do resto da conversa. Por isso, pessoas, por favor, não digam estas coisas. É muito importante falar bem Português.

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A Inês Rebelo tem 19 anos e está no primeiro ano de Jornalismo. Começou a ler com 4 anos e a escrever as suas criações com 9, sendo que foi sempre esta a sua grande paixão. Fez teatro durante oito anos, gosta de ler e, embora não interesse a ninguém, tem três tartarugas. Também gosta de cantar, mas para isso não tem muito jeito. Na ESCS MAGAZINE integra as equipas de Correcção Linguística e de Literatura, e escreve com o Antigo Acordo Ortográfico.

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