A purga de Mário Belém

Em pleno Príncipe Real, uma porta com a identificação «Art Room» dá-nos acesso a mais que uma galeria. À medida que nos distanciamos do nosso quotidiano, e subimos umas escadas íngremes e estreitas, aproximamo-nos cada vez mais do “sótão” do artista. Aqueles que seguiram o apelo de Mário Belém tinham encontro marcado com o que este tinha guardado já há algum tempo…Hás de cá vir… tenho tanta coisa para te dizer foi a sua mais recente exposição.

O artista urbano deixou aberto ao público, durante duas semanas (de 24 de novembro a 10 de dezembro), o resultado de um processo de libertação. Após vários anos a executar trabalhos para outrem e a engolir muitos sapos surge, tal como o próprio disse, “a purga”, expressando-se sem qualquer condicionante, pudor ou medo de ferir susceptibilidades. Assim, para conhecidos e estranhos as obras surgiam como que um confronto, quer pela carapuça que serviu, quer pela diversidade e abundância dos estímulos ali apresentados.

Dentro da “confusão” da mente de Belém, podemos seguir diferentes técnicas e temáticas. Numa técnica mista de tinta da china e corte de papel a laser, fazem se destacar obras imponentes, tanto pelo trabalho minucioso que absorve a nossa atenção, como pelo sentido por detrás das mesmas – de modo que em obras como “ Um alfabeto inteiro das coisas que te chamava a cara se agora aqui estivesses” – com um insulto para cada letra do alfabeto –, “Cansas-me a alma”, “Tenho tanta coisa para dizer” e “Motivos pelos quais o meu coração está escangalhado de vez” sente-se uma forte influência das culturas asiática e portuguesa, e, espelhado, mais do que em todas as outras obras da exposição, o espírito crítico e de introspeção. Estes aspectos aliados ao o humor e ironia fizeram da exposição uma lufada de ar fresco, enriquecida ainda por serigrafias e ilustrações.

Em principal destaque para a colectânea, “Tenho tanta coisa para te dizer”, que dá também nome à exposição, vê-se que, de facto, havia muita coisa para dizer e esta é uma alegoria a tudo o que a exposição representa. Os fósforos, simbolizando o contar dos dias numa prisão, que, apesar de figurada, manteve cativa a criatividade, nua e crua, do artista que agora veste o papel. Manifestando a complexidade humana, e que “deita cá para fora”, pode ser visto como mais do que apenas um processo artístico mas como filosofia de vida.

O que vem a seguir? Não sei, mas para mais de Belém:

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