7ª Arte

A regra de um mito

Podem soltar em todo o lado: A Regra do Jogo de Jean Renoir é uma obra-prima de valor inqualificável – talvez o maior exemplo de brilhantismo do cinema francês. É um  filme do mundo e uma obra de uma humanidade caracterizada de forma magistral.

Numa célebre entrevista no The Dick Cavett Show, o grande Orson Welles, realizador de Citizen Kane – para muitos o melhor filme de sempre – mencionou A Regra do Jogo, de Jean Renoir. Quando questionado sobre quais eram os dois filmes essenciais para ele, Welles deu uma resposta que ficou na imaginação de muitos cinéfilos: “A Regra do Jogo e algo mais”. Welles ainda referiu que Something Else se tratava de um filme, mas o seu “ar irónico” reforçou ainda mais a primeira escolha do lendário realizador americano: A Regra do Jogo! Servirá este exemplo de pouco para muitos, mas aqui para nós é uma das mais bonitas homenagens de um mestre a outro mestre. 

A Regra do Jogo aborda de forma magnífica as relações entre o povo e a aristocracia em França, entre patrões e assalariados, entre ricos e pobres; é um exercício exímio e detalhado da condição humana. O filme de 1939 é um ensaio da sociedade pré- Segunda Guerra Mundial. Obra tão sagaz que o governo francês proibiu a sua exibição, acusando Renoir de desvalorizar os valores da sociedade francesa. Só em 1959 o filme conheceria uma versão restaurada de si, mesmo a tempo de ser apresentada no Festival de Cinema de Veneza.

De uma forma resumida, o filme passa-se no verão, na casa de campo de uma família da burguesia francesa. A história passa-se em torno desta família, dando especial destaque às suas relações amorosas, especialmente àquelas entre empregados e patrões burgueses. Uma das cenas centrais do filme decorre num baile de máscaras, que resulta num desfecho onde a tragédia reinará.

Renoir também participa no filme como ator, dando corpo a Octave. É à volta das relações entre as suas personagens que este realizador constrói um cenário misto de emoção, comédia e tragédia na trama; não cai na tentação de reduzir os “bons aos maus”, aborda, sim, a complexidade de cada personagem, fazendo dela a representação perfeita de uma sociedade em decadência, tudo num contexto pós “loucos anos vinte e grande depressão”. As personagens são os “peões” de Renoir carregados do grotesco, da ganância e da falta de afeto causados pela traição de que são alvo pelos seus pares. Todo este “jogo” irá dar lugar a um fim trágico, talvez uma antecipação de Renoir do perigo da guerra que morava “ali ao lado” e da sua destrutiva “força de combate”.

A Regra do Jogo é um filme obrigatório, é uma aula de cinema de Renoir graças aos seus magníficos planos sequência, conseguindo com que seja explorada a profundidade do campo de ação. A história e os diálogos são magistrais, um dos motivos para que a sua influência na evolução do cinema seja enorme: François Truffaut irá falar de Renoir como a grande inspiração para a novelle vague francesa. A Regra do Jogo é um filme essencial e um dos grandes exemplos da arte humana do século XX.

Fonte da capa: fantastictv 

Artigo revisto por Carolina Rodrigues

AUTORIA

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Olá, sou o Luís, tenho 27 anos e nasci em Cascais. Vivo desde, quase sempre, em Sintra e sinto-me um Sintrense de gema.  Adoro cinema - bem, adorar não é a palavra adequada, venerar parece-me um adjetivo mais justo -  e sou também obcecado por política e relações internacionais. Gosto também muito de desporto.