Ainda sobre as Europeias

Sim, ainda estamos a falar das eleições europeias. Bem sei que já passou coisa de um mês, mas se pararmos de falar da abstenção e do desinteresse político mais vale fazermos “copy paste” das cartas abertas de maio e agendar já o post para 2024…

Entre cartas e cartas abertas, a culpa vai saltando de lugar como se se tratasse do jogo das cadeiras: ora a culpa é dos jovens, ora é dos políticos, por vezes é do próprio Parlamento Europeu e até chega a ser dos “paizinhos que não educam cidadãos de jeito”. Será, porém, culpa de qualquer um destes que várias pessoas deixaram de ir votar porque estava um excelente dia de praia? – e estava mesmo, não nego, mas… a sério? Bem, a Europa que fique na mão de idiotas durante cinco anos à vontade, porque a carreira para a Caparica não espera.

E eu sei que as campanhas e os candidatos não eram propriamente estelares ou a prova de um ponto alto na democracia; eu também vi os vídeos e os debates… Por entre cavalos no plano de fundo, confissões de desejos bombistas e ausências em debates políticos em prol do Benfica, a fé dos eleitores não era exatamente a que se procurava. Mas exatamente pela elevada probabilidade de um partido não merecedor ser eleito é que nós nos devíamos ter posto a mexer e tentado enviar para o Parlamento Europeu o melhor que Portugal tivesse para oferecer – mesmo que esse melhor não correspondesse a tudo aquilo que esperávamos.

A verdade é que a imagem dos portugueses sobre a política não é a melhor, nem a de Portugal, já que estamos no tópico. Todos sabemos que vivemos num país em que achamos que somos pequeninos; em que achamos que aquilo que melhor temos a oferecer são as minis e que em tudo o resto somos um zero à esquerda. Criticamos tudo e todos, enquanto somos eleitos o melhor destino europeu pelo terceiro ano consecutivo… E por isso mesmo seguimos a lógica do “não vale a pena”: tudo é mau, tudo é corrupto, ninguém se importa. Entramos, então, num ciclo depressivo em que o exato resultado de descrença se torna a sua origem. A situação política não é a mais brilhante, mas digam-me, se se estivessem a afundar, paravam de nadar? Sim, acham que há muita coisa mal feita, mas é exatamente a consequência da democracia: nem sempre vamos concordar com aquilo que é feito, porque nem sempre aquilo que queremos é aquilo que os outros querem. Sem querer desvalorizar a frustração e problemas que isso traz, é normal – e a única maneira de tentar que as coisas melhorem é ao votar, não é ao ir para a Costa.

Numa altura em que informação não falta, ainda muitos disseram que não votaram porque não sabiam nada sobre as eleições e os candidatos. Bem, enquanto pessoa que por vezes nem a andar sabe a direita da esquerda – quanto mais no parlamento -, a desculpa da falta de informação não serve porque não é verdade. Bastam exatamente 0,43 segundos para encontrar cerca de 8 090 000 resultados… E todos nós sabemos que passamos muito mais do que nem sequer um segundo na internet… Se tiveste tempo para o Instagram e os vlogs, para as apps e as investigações ao ex, tinhas tempo para pesquisar “partidos europeias 2019”. A quantidade de informação era mais do que suficiente para conseguir fazer uma escolha. Normalmente não defendo que se vote em branco ou que se vote nulo propositadamente, mas penso que, se mesmo depois depois de uma pesquisa uma pessoa não se consegue identificar o suficiente com nenhum partido nem quer votar em nenhum, então essas opções são válidas. Mas claro está, deve haver pesquisa antes, caso contrário é só desperdiçar um voto por preguiça.

Faz-me impressão a quantidade de abstenção e que digam que isto aconteceu porque as pessoas não viam motivo para ir votar. E nem é uma questão de achar que não foram porque não era divertido, é por achar que as pessoas não veem votar como um dever ou uma questão apelativa e urgente… Caso se tratasse do seu emprego, todas as pessoas teriam ido. Então porque é que, neste caso em que a responsabilidade civil é tanto ou mais importante, muitos não quiseram ir? Porque é que os portugueses não acham que vale a pena tirar cerca de cinco minutos do seu tempo para definir os próximos cinco anos europeus? 

A razão mais frequentemente dada é a de que a perceção que causa o desinteresse político e a de que o seu voto não tem um efeito real na vida quotidiana. Isso não é verdade. O nosso voto vai eleger partidos e deputados para nos representarem. São essas pessoas que vão ter acesso direto às leis que se fazem, e as leis têm, de verdade, um impacto muito prático na nossa vida: por exemplo, foi graças aos deputados que foram eleitos pelos portugueses que a Lei que permite o aborto foi passada, e essa lei não só afeta de maneira efetiva a vida das mulheres todos os dias, como alterou a maneira de estas verem a sua sexualidade. Por mais que não tenha sido cada português a votar na Lei, foram as pessoas que eles escolheram que o fizeram – o que quer dizer que, se as eleições tivessem sido diferentes, talvez o cenário se tivesse desenrolado de outra maneira. Assim, o nosso voto tem o grande peso de eleger quem queremos que tome decisões; e penso que isso seja mais importante do que seja o que for que as pessoas que não votaram estavam a fazer naquele sábado.

Escrevo com a noção de que o meu dever era votar, mas posso fazer mais do que aquilo que é a minha obrigação e, portanto, posso tentar fazer com que se fale mais sobre o assunto.

Espero não estar aqui nas legislativas de outubro com o mesmo discurso.

Artigo revisto por Daniela Costa

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