Opinião

Ano Novo, Vida Nova

Permitam-me que inicie esta crónica cumprindo o protocolo e mostrando desconforto. Cumpro o protocolo dizendo-vos que tinha muitas saudades vossas, dado que já não vos escrevia desde o ano passado. Gostava, também, de mostrar desconforto por não saber se ainda é suposto estar tudo a correr bem com a minha vida. Houve pessoas que me desejaram umas boas entradas e eu não sei quando é que se considera o fim das entradas – logo após a meia-noite? No dia 2? No início de Fevereiro?

Quero aproveitar também para dar força a todas aquelas pessoas que nos últimos quatro dias aproveitaram para se candidatar a um lugar cativo no céu: não fumam, não comem doces, vão ao ginásio todos os dias, vão poupar para conseguir viajar, vão ler montes de livros e largar mais a internet, vão dar mais atenção à família, vão ser mais independentes – são as conhecidas resoluções de Ano Novo. Na enumeração anterior, o verbo mais usado foi o verbo “ir” e isto não é uma coincidência: as pessoas pensam, de facto, que a mudança reside em deslocar-se do ponto A para o ponto B. Na minha opinião, a verdadeira mudança reside em ser A e passar a ser B. E esta é a razão pela qual muitas das resoluções de Ano Novo não perduram. Se me custa, por que é que eu hei-de ir ao ginásio, e, se me dá prazer, por que é que eu hei-de deixar de comer doces? Isso só muda se eu começar a ser (três letrinhas que juntas significam tanto) uma pessoa que vê a saúde como uma prioridade. A mudança acontece quando estamos parados no nosso sítio. E é ela que nos deve fazer mover em busca daquilo que queremos e não o contrário: ir à espera de encontrar a mudança. É por isso que acredito mais em mudanças que não têm nada que ver com o dia do ano ou com o mês em que estamos. O “hoje” parece-me sempre mais credível.

Para terminar, gostava apenas de libertar da angústia todos aqueles a quem, à semelhança do que fizeram comigo, desejaram boas entradas. Tenham um bom ano e esqueçam isso. A menos que estejam a começar a perder cabelo, sejam pedreiros ou cozinheiros ou se chamem Bruno Alves.

CRÓNICA - Ano Novo, Vida Nova - Francisco Mendes (Opinião)

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