Artigo de opinião: Alargamento da Liga – sim ou não?

Remontamos a 2006. O Gil Vicente assegurou a permanência ao ter ficado em 12.º lugar no campeonato (em 18 equipas), mas, em Agosto, é decidido que seriam despromovidos administrativamente à então Liga de Honra, actualmente 2.ª liga, devido à utilização do jogador Mateus. O futebolista não poderia actuar com o estatuto de amador que tinha adquirido na época anterior por a ter jogado pelo Lixa.

Após muitos anos de decisões e de recursos dessas mesmas decisões, eis que em Dezembro de 2017 ocorreu um princípio de acordo, entre Gil Vicente e Belenenses, que permitia a subida administrativa dos gilistas para a época 2018/19. Porém, tal não veio a acontecer, uma vez que em Maio de 2018 os presidentes dos clubes da primeira liga decidiram que o Gil Vicente só iria ser integrado na primeira liga na época seguinte (2019/20), o que se veio a confirmar. Para já, há a certeza de terem de reformular o plantel, tornando-o mais competitivo, sabendo que serão treinados por Vítor Oliveira que subiu o Paços de Ferreira à primeira liga nesta época que findou.

Pelo meio, foi inevitável equacionar-se a possibilidade de se alargar a liga. Mas seria realmente benéfico? Se, por um lado, rapidamente chegamos à conclusão de que alargando a liga a mais 2 clubes existiriam mais quatro jogos, o que também permitiria a essas mesmas equipas terem outro plantel que na segunda liga não conseguem ter, por outro, de pouco ou nada valeria esse alargamento.

Portugal tem uma liga cada vez mais desnivelada, principalmente entre os 3 grandes mais o Braga e os restantes. Se entre os pequenos há a chamada competitividade, bastando olhar para os lugares no fundo da classificação, em que o Chaves desceu com 32 pontos, com o Tondela a safar-se apenas por 3 pontos (e valeu a vitória na última jornada diante do mesmo Chaves), no resto não é assim, como se pôde ver nesta época em que o Benfica foi campeão com 87 pontos (perderam apenas 15 pontos) com 103 golos marcados, o Porto fez 85 pontos (apenas perderam mais 2 pontos do que o Benfica), em que a distância do 1.º classificado para o 4.º (Braga) é de 20 pontos e para o 5.º é de 35 pontos.

Classificação da liga. Fonte: zerozero

O objectivo não deveria ser alargar a liga para mais 2 equipas, mas sim reduzi-la (passar de 18 para 16, por exemplo) e aumentar a competitividade entre os clubes (por exemplo, distribuindo com equidade as verbas televisivas e, de certa forma, controlando o uso dessas verbas, de forma a evitar os chamados “camiões de jogadores”). Esta redução também poderia permitir uma maior quantidade de tempo disponível para a Taça da Liga, que erradamente favorece as equipas mais fortes e que é uma competição que deveria ser repensada.

Outro motivo para o não alargamento da liga, para além do futebol praticado deixar a desejar, tirando meia dúzia de equipas, é precisamente o número de espectadores. Apenas Benfica (53.824), FC Porto (41.626), Sporting (33.691), Vitória de Guimarães (18.249) e Sporting de Braga (12.035) ultrapassam a média de 10 mil espectadores por jogo. Porém, em termos de média de ocupação, mérito para Marítimo (62.68%), Portimonense (56.43%), Feirense (55.96%), GD Chaves (54.17%) e Tondela (54.04%), que conseguiram taxas médias de ocupação superiores a 50%, mesmo com um número inferior a 10 mil espectadores por jogo (em média), algo que nem o próprio Sporting de Braga (39.74%) conseguiu.

Pela negativa, claramente o caso do Belenenses, mais uma vez envolvido noutro imbróglio, pesa com consequências diferentes, uma vez que apenas ocupou, em média, 9.60% do seu estádio, chegando mesmo a figurar no top 5 de jogos com pior assistência com não 1, nem 2, mas 3 jogos, inclusive obtendo a pior assistência – 298 espectadores no Belenenses-Moreirense, disputado às 20h15 de uma segunda-feira em Fevereiro (outro factor que a liga deveria repensar primeiro do que eventualmente alargar a liga).

Ranking das assistências. Fonte: liga Portugal

Posto isto, é inevitável perguntar: valerá realmente a pena alargar a mais equipas a primeira liga ou será preferível primeiro pensar seriamente em reformular a já existente?

Fonte “thumbnail”: site Liga Portugal

Artigo revisto por: Ângela Cardoso

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