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As pequenas coisas inexplicáveis

Estou a escrever-vos algures entre Coimbra e Celorico da Beira. Não posso precisar o lugar porque o comboio continua a andar e eu a escrever. Passou mais um mês e, por isso, estou de regresso a casa. (Quando lerem isto estou a regressar a Lisboa, mas isso não importa).

Há uns dias, Paris foi alvo de vários atentados terroristas. Sempre que há um atentado há também uma parte de mim que treme. Em 2001, vi as notícias do atentado às Torres Gémeas sentada no chão da sala, rodeada de bonecas, com a minha bisavó em choque. Como é que se explica aquilo a uma miúda que ainda não tem sete anos? Bem, eu nem aos 21 consigo compreender.

Quando cheguei a casa na sexta-feira à noite, vinha feliz, vinha de um concerto. Assim que me deparei com aquilo que tinha acontecido em Paris, fiquei completamente parada a olhar para o computador. Tenho um tio que vive em Paris. Pensei logo nele. Ao longo de todo o fim-de-semana dei por mim a pensar na porcaria que acontece neste mundo, sem me conseguir concentrar em mais nada. A França decidiu responder com um forte ataque à Síria. Bombas por todo o lado. Eu não sei se seria bem essa a melhor resposta. Mas que sei eu de Relações Internacionais?

Este ataque muda tudo e, ao mesmo tempo, muda nada. Vamos falar disto durante uns tempos e, depois, passamos a outra crise, até haver outro ataque. Se tenho medo? Claro que tenho! Nem consigo acreditar em quem diz não ter que temer. O que é que impede alguém de atacar Lisboa? Pois.

Mas dizia-vos eu que estava a ir para casa. Penso novamente em todas as pessoas que morreram no dia 13. Sou de um sítio que, para muitos efeitos, é insignificante. Uma aldeia que nem 200 habitantes tem, no interior mais do que abandonado do país. Mas passo mais tempo em Lisboa. Faço esta viagem várias vezes por ano, às vezes por mês. Não quero que me tirem esta viagem. Nem nenhuma outra. Não quero sentir que não estou segura numa cidade grande (ou em qualquer outro lugar). Não quero acreditar que podemos estar prestes a ver uma guerra. Não consigo aceitar que haja pessoas no mundo que se sentem no direito de matar pessoas: seja que tipo de pessoa for. Mas há. E eu tenho medo de pensar no que está para vir.

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Sofia Costa Lima nasceu em Trancoso, em 1994. Estuda Jornalismo e é apaixonada por escrita. Tem um blog pessoal desde 2009 e publicou dois livros — em 2013 e 2014. Colabora com a Associação Juvenil de Trancoso desde 2013, fazendo parte da equipa responsável pelo Jornal Escrever Trancoso.

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