Literatura

As Velas Ardem Até ao Fim

“As Velas Ardem Até ao Fim” é uma das maiores obras do escritor Sándor Márai. Um autor que até então me era desconhecido e que em poucas páginas me agarrou e me deu vontade de explorar as suas obras.

Este livro é um hino à amizade; um livro essencial num mundo literário tão baseado em histórias de amores e desamores, de crimes, tragédias, acções e aventura. Falta amizade nas prateleiras. Faltam histórias de amizades; desse valor tão belo, tão raro e tantas vezes posto de parte e banalizado.

Sándor não banaliza a amizade. Sándor eleva a amizade ao colocar Konrad e Henrik a conversar à lareira toda uma noite, até que o sol voltasse a raiar pela manhã e até que as velas ardessem até ao fim. Este encontro ocorre 40 anos após o último encontro entre estes dois amigos de infância. Os dois conheceram-se na academia militar e viveram a juventude juntos. No entanto, com o passar dos anos, foram-se diferenciando. Henrik, filho de um grande general e de famílias ricas, aproximou-se da elite da época, começou a ascender no exército e a frequentar as festas das gentes importantes. Por outro lado, Konrad, filho de uma família humilde do norte que se sacrificou para que o filho pudesse entrar nada academia e ser alguém na vida, revelou ser diferente ao aproximar-se da cultura. A música e os livros eram a sua paixão; não era um soldado de sangue como acontecia com Henrik. À medida que os anos foram passando a diferença cresceu mas nem por isso deixaram de fazer tudo juntos, mesmo quando Henrik se casou, Konrad continuou a conviver com o casal como se fizesse mesmo parte da família. Mas um dia Konrad fugiu; desapareceu sem razão aparente e sem avisar ninguém.

Este encontro ocorre quando Konrad regressa 40 anos depois de ter abandonado Viena. Assim que Henrik sabe que o seu velho amigo regressou, manda uma carroça à cidade para o ir buscar e pediu à sua fiel criada que retractasse o grande salão para que este se assemelhasse à última vez que Konrad lá esteve. Uma encenação exacta do último jantar em que apenas estava Konrad, Henrik e Katrina, a mulher de Henrik. Desde então que aquele salão nunca mais fora utilizado.

Com uma encenação que arrepia, Sándor senta dois velhos amigos à lareira e deixa-os conversar durante páginas e páginas a fio que deixam o leitor agarrado. Agarrado a uma narrativa fantástica, agarrado a um diálogo arreatado e agarrado a um segredo que deixa qualquer leitor num estado de nervos. Recomendaram-me e agora recomendo de volta

“(…)Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer… Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal… e isso é precisamente a velhice. (…)”

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