Música

Auto-tune: a maquilhagem musical

Auto-Tune (do inglês, “auto-afinar”) é um criador de áudio que usa uma matriz sonora para corrigir as dinâmicas vocais e instrumentais. Este artifício é usado para disfarçar imprecisões e erros.

Qualquer pessoa, mesmo o pior cantor do mundo, pode ficar afinado com a ajuda do auto-tune. Se cantares mal, mas tiveres a tecnologia certa, podes enganar multidões. Porém, quanto mais se harmoniza a voz, mais robótica ela fica – e é possível perceber quando isto acontece.

No entanto, este equipamento também é utilizado para afinar quem sabe cantar. Para  quê? Para atingir a perfeição num curto espaço de tempo. Tudo tem de ser rápido na sociedade de consumo em que vivemos. Porém, a voz humana não consegue cumprir os prazos das empresas. A voz cansa-se e é preciso fazer intervalos, beber água e recomeçar. O auto-tune pode ser a salvação de uma banda a trabalhar sob orçamento que tenha de gravar 5 músicas em 5 dias.

Podemos tomar como exemplo de uso de auto-tune por quem não precisa dele, como acontece na música I know what you did last summer, de Camila Cabello e Shawn Mendes.

Fonte: Youtube

Em quase quatro minutos de música, o auto-tune parece ter sido apenas utilizado na palavra “been”, na frase “I won’t tell him where I’ve been”. Se estivermos atentos aos segundos entre os 0:30 e os 0:33, conseguimos ouvir a voz da cantora a ficar mais robótica por instantes e a voltar ao normal depois. Aqui, o uso deste efeito é discreto e passa completamente despercebido, que é o que acontece quando é bem aplicado e de forma ligeira.

Não consigo especular o porquê desta decisão de produção, mas, tendo em conta a qualidade vocal que os intérpretes apresentaram nas atuações ao vivo desta música, posso dizer que se afinou o que já é afinado naturalmente, o que equivale a fazer photoshop numa foto que já era linda. 

O auto-tune não é utilizado apenas para afinação. Existem alguns artistas que de forma propositada e assumida fazem a voz soar robótica. Cher foi uma das primeiras artistas a utilizar o auto-tune de propósito e de forma extrema. A faixa Believe (1998) da cantora popularizou o efeito auto-tune de tal maneira que este ficou conhecido como o “efeito Cher”. Um produtor da música explica como esta foi produzida e com que propósito foi utilizado o auto-tune:

Fonte: Youtube

Britney Spears também distorceu a própria voz nas faixas Womanizer,3, I Wanna Go e Work Bitch. Entre rappers americanos é comum usar-se esta engenharia nos concertos. 

Foi com o argumento “eu uso, mas como estética de voz” que Pedro Sampaio, um funkeiro e DJ brasileiro, se defendeu das críticas contra o uso exagerado de auto-tune, no Podcats, um podcast brasileiro.

Fonte: Youtube

No vídeo apresentado em cima, é dito mais do que uma vez que “todos usam” auto-tune, como se fosse obrigatório usar um afinador eletrónico. O auto-tune foi inventado em 1997 e antes disso os artistas gravavam sem esta tecnologia, que não é de todo necessária para que haja qualidade vocal.  

Não sou anti-auto-tune, nem acho que este seja apenas um malefício. Podemos utilizá-lo para nos divertirmos, para brincarmos com a nossa voz ou até transformarmos vídeos engraçados em “música”. Porém, devemos refletir sobre as consequências que o seu uso exagerado e cada vez mais recorrente trazem para a indústria musical.

O auto-tune tira a autenticidade à música, pois são as imperfeições que lhe conferem caráter. E muda totalmente o conceito de cantor como alguém que se esforça e domina a técnica vocal, pois uma máquina faz esse trabalho por ele.

Fonte da capa: String Fixer

Artigo revisto por Beatriz Neves

AUTORIA

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A Catarina tem uma paixão enorme pela escrita e pela criação, estando a licenciar-se em jornalismo na ESCS. Gosta muito de música, toca guitarra e tem aulas de canto e songwriting. Está sempre informada sobre o que se passa na cultura pop e na indústria musical. Pretende aplicar estes conhecimentos na ESCS Magazine.