Benfica e Sporting do 80 para o 8 na comunicação

A comunicação de Benfica e Sporting tem ficado marcada, nos últimos largos tempos, por um profundo silêncio em momentos críticos.

A segunda volta do Benfica no campeonato da época passada foi um descalabro. A única vez que Vieira apareceu foi para comunicar, já a poucas jornadas do fim, após a derrota na Madeira frente ao Marítimo, a saída de Bruno Lage. O Benfica perdeu ainda a final da Taça de Portugal frente ao Futebol Clube do Porto, numa exibição pobérrima, com erros defensivos gritantes e muita falta de ideias, e a verdade é que nenhuma reação a sério se fez ouvir da parte da direção.

Também é relevante que muitas vezes já se criticou os excessos que os clubes, nomeadamente os ditos grandes, cometem em termos de comunicação – as constantes trocas de acusações e a forma destemperada como se referem às equipas de arbitragem. Tudo isto parece ter acalmado nos últimos tempos. O Futebol Clube do Porto fez a dobradinha, sem espinhas. O Braga mereceu inequivocamente fechar o campeonato no terceiro lugar. O que causa estranheza é Benfica e Sporting não se terem vindo justificar pelo falhanço nos respetivos objetivos.

Claramente, passou-se do 80 para o 8 em termos de comunicação. Os dirigentes de Benfica e Sporting assemelham-se agora aos dirigentes dos clubes ingleses, dos quais raramente se dá conta. A diferença é que em Inglaterra os adeptos aceitam com naturalidade que as suas equipas não podem ganhar sempre, e em Portugal os adeptos não têm essa visão. As recentes confusões nas assembleias gerais do Sporting e o apedrejamento do autocarro do Benfica na pior fase da equipa na época passada mostram isso mesmo.

No caso do Benfica, a mudança clara de projeto desportivo, com a contratação de Jorge Jesus e de vários jogadores estrangeiros caros para a realidade nacional, obrigava claramente a explicações por parte de Vieira, que advogava que a aposta na formação era para manter e rejeitava liminarmente que Jesus alguma vez voltasse ao Benfica.

Na apresentação do novo técnico, o presidente do Benfica foi lacónico e não respondeu a estas questões. Jesus, por outro lado, foi igual a si próprio e transmitiu abertamente a sua visão. Argumentou que os projetos desportivos fazem-se e desfazem-se. Deixou claro que os plantéis do Benfica dos últimos anos não estavam à altura das exigências. Explicou que desta vez também quer ir longe na Liga dos Campeões. Vieira deu a Jesus o palco para ser ele a comunicar o projeto do Benfica para os próximos dois anos.

Fonte: Casas do Benfica – SL Benfica

Vê-se um presidente que parece colocar-se nas mãos do treinador. Parece deixar-se comandar pelas vontades dele. Com Rui Vitória e Bruno Lage, toda a gente tinha a noção de que sucedia exatamente o inverso. Estes dois técnicos tiveram pouco peso na orientação do projeto desportivo e – supõe-se – até nas contratações para a equipa. De repente, o Benfica passa a ter um treinador que dá a cara por tudo e aparenta comandar o projeto desportivo, e perante uma mudança tão drástica não há explicações da direção.

Houve mais recentemente um lampejo de explicação quanto a isto da parte de Vieira. Na apresentação da sua recandidatura à presidência, sobre isto disse apenas que não houve, em seu entender, uma mudança de projeto. Na única ideia que escolheu transmitir sobre este assunto, conseguiu entrar em contradição com as palavras do treinador.

Vieira não pode realmente acreditar que o projeto não mudou. Mesmo que ganhasse um título europeu, já não poderia vir dizer que foi com uma equipa composta essencialmente por jogadores oriundos da formação…

Jesus já mandou muito na comunicação do Benfica na sua primeira passagem pela Luz, porque sempre disse o que quis. A diferença é que agora só ele comunica verdadeiramente no clube. Exige-se mais da direção neste aspeto!

Fonte da imagem de destaque: Visão de Mercado

Artigo revisto por Ana Cardoso

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