Alice: Alucinação e Desistência

Cartaz oficial de “Alice”. Fonte: Cinecartaz/Público

Em 2005, o cinema deu-nos a conhecer filmes como Constantine, King Kong e continuidades, tanto da saga Harry Potter como de Star Wars e Batman. Já fora de Hollywood, concretamente em Portugal, dava-se o lançamento de mais uma produção da autoria de Paulo Branco, Alice – escrito e realizado por Marco Martins. 

A primeira longa-metragem do cineasta retrata a vida de um casal – composto por Mário, interpretado por Nuno Lopes e por Luísa, interpretada por Beatriz Batarda – que acaba de perder a sua filha, Alice. Numa tentativa de a reencontrar, Mário decide colocar câmaras em todos os sítios possíveis de Lisboa. Desta forma, Mário decide fazer uma pausa na sua rotina e recriar, dia após dia, aquilo que teria feito no dia do desaparecimento da sua filha. 

Estamos na presença de um pai que é visto em grande plano, não só por ser a personagem principal, mas também por, entre o casal, ser o protagonista da busca. É Mário quem todos os dias passa pelo infantário, recolhe nos postos as cassetes usadas, troca por novas e, no fim do dia, as revê vezes sem conta em busca de uma pista. Através dos olhos do cineasta, percebemos que a maneira como a tragédia é trabalhada não vai ao encontro do que estaríamos à espera ou àquilo a que Hollywood nos habituou. 

Na obra de Marco Martins não existem tendências para dramatizar as emoções das (raras) personagens aprofundadas. Mário é visto poucas vezes a chorar durante as cenas de busca. Esta personagem, aliás, é retratada como se estivesse em estado de transe ou de apatia constante. Apenas o ambiente de trabalho quebra esse estado, visto que atua no mundo do teatro com o seu colega, interpretado por Miguel Guilherme. Há cenas em que esperamos que o pai reaja desesperadamente, no entanto mantém-se calmo ou estagnado como se, dada a gravidade da situação, não fosse capaz de demonstrar as emoções que o afligem.

Esta tendência para se focar no estado de alma das personagens e não tanto nas emoções descontrola-se um pouco, naturalmente, com a aproximação do clímax. Isto acontece devido ao facto de a personagem tão pouco amiga do ecrã, mãe de Alice, no início parecer ter uma abordagem semelhante à do marido, isto é, torna-se a primeira a ser transparente perante toda a sociedade que não consegue compreender o desespero interno do casal.

As cenas demoradas – que quase se assemelham à velocidade dos acontecimentos reais – mostram-nos exatamente isso: o choro contínuo de Luísa em sítios públicos que parece deixar Mário desamparado; a súbita aflição de quem acaba de cair na realidade e a clara irritação mesquinha que tem como função camuflar o desconforto que a realidade provoca.

Este desenvolvimento de emoções é também visível na personagem encarnada por Nuno Lopes, que, num momento de grande deceção, decide arrancar todas as fotos retiradas dos vídeos em que avistara possíveis “Alices”. Um ato de possível improviso e íntimo de se ver, roçando a linha de crueza que tantas vezes caracteriza o cinema português.

Marco Martins faz uma referência explícita da obra Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll, não só através da menção do nome do filme, como no facto de haver em ambos os casos o desaparecimento de uma rapariga – sendo que uma delas se transporta para um lugar mágico povoado por criaturas peculiares e outra para as ruas do Rossio. Parecido.

Esta alusão não poderia ser feita sem a presença essencial do coelho da obra de Lewis Carroll, ilustrado nas paredes da estação do Cais do Sodré, que servem como cenário para as deambulações de Mário. No final do filme é mesmo apresentado um excerto da obra que serviu de inspiração. Para além desta referência, também é possível fazer uma relação com o primeiro filme da trilogia francesa Trois Couleurs: Bleu, através dos meios procurados em ambas as obras para ultrapassar a dor.

Em Bleu, uma mulher que acaba de perder o seu marido e filha num desastre automobilístico decide usar a natação como meio de fuga à situação real. O mesmo acaba por acontecer em Alice, quando nos deparamos com Luísa a praticar um desporto aquático terapêutico de forma a acalmar a tensão que a perfura.

Em termos técnicos, a direção de fotografia, a cargo de Carlos Lopes, é capaz de ser o elemento (mais) coerente, chegando a ser negativamente criticada por isso. Os tons frios, mais especificamente azulados, são essenciais para o ambiente, tanto interno como externo.

Como este trabalho se relaciona muito com o Guarda-Roupa, a cargo de Luísa Pinto, Decoração, nas mãos de Artur Pinheiro, e Produção, são vários os aspetos que se tornam absolutamente necessários para transmitir a essência artística que pinta esta história. É importante referir especificamente o guarda-roupa, por muito monótono que pareça, com os seus tons negros e raros brancos que fazem, na verdade, com que o casaco azul tão mencionado de Alice consiga assim ganhar um certo destaque entre a multidão que desagua pelas ruas do Rossio.

O facto de vermos, tantas vezes, Mário camuflado (em termos de vestuário) pela multidão que finta faz com que consigamos ter uma visão real de como todos nós nos parecemos num mar de pessoas: só mais um. Neste caso, não é o vestuário que faz com que esta personagem se destaque, até porque assim seria demasiado linear. O ideal é destacarmos o protagonista pela proximidade que vamos criando com o próprio, fazendo com que não se torne só mais um.

Algo bastante interessante a observar é a existência de planos picados em Mário, que se assemelham aos ângulos em que as suas câmaras se encontram, do alto de prédios lisboetas, dando um pouco a sensação de que a personagem se encontra igualmente perdida, tal como a sua filha. Há mesmo um momento em que o próprio se põe diante de várias lentes e se apercebe da situação insinuada.

Cena do filme “Alice”. Fonte: Cinema Planet

 No campo da banda sonora, há um trabalho um tanto ou quanto confuso e inquietante que procura muito os silêncios, quase nos fazendo questionar se desligámos o som do filme por acidente. Todavia, seja problema audiovisual ou propositado, resulta numa bolha isolante entre Mário e Luísa, visto que se encontram numa situação familiar que apenas pertence aos dois.

A música de Bernardo Sassetti é uma cobertura deliciosa do bolo técnico que se mantém fiel à aventura inquietante de um pai que anseia por sinais da filha. No entanto, não chega a ser a cereja do topo. Isso acontece porque, apesar de se tratar de uma peça musical maravilhosa e viciante, tal não é notório no filme.

Apesar de existirem críticas não tão positivas que apontam o dedo ao facto de haver um monótono foco na fotografia e não na construção de um grande argumento, acabando por originar assim um “sono profundo”, não me parece que o filme se possa refletir apenas nessa direção. São pontos a ter em conta, sim, mas a seu favor.

Um bom filme não é feito somente do argumento. Principalmente um primeiro filme. Não se pode esperar uma grande produção, guião sem falhas ou personagens multidimensionais no início de uma carreira. É certo que a certa altura se pode criar um fechar de olhos quase inevitável, mas creio que há algo de bom a retirar desse sentimento.

Nem tudo é Hollywood, nem tudo é ação. Nem todos apreciamos cinema português. A verdade é que quem se queixa da lentidão até ao clímax fá-lo porque simplesmente não está acostumado a detetar a intenção artística que é um dos maiores, senão mesmo o maior aspeto a ter em consideração tanto em cinema como em qualquer outra arte – estejamos ou não em sintonia com essa intenção. Algo que até demonstra oposição a estas críticas é o facto de conseguirmos ver muito do nosso quotidiano neste filme, principalmente o facto de o homem ainda ser visto como um pai menos sentimental do que uma mãe. 

 Alice não chega a ser genial, sendo um dos motivos o facto de não aprofundar, por escolha ou falha, variadas personagens que se cruzam no delinear da ação. Talvez para dar ênfase suficiente a Mário, certas personagens com potencial para serem aprofundadas foram reduzidas a meros figurantes. 

Artigo por Margarida Ramos

Artigo revisto por Bruna Gonçalves

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