Book Review: Such a Fun Age

Fonte: https://sheerluxe.com/2020/01/21/book-review-such-fun-age-kiley-reid

Such a Fun Age é o primeiro livro da escritora americana Kiley Reid, lançado no último dia de 2019. O livro foca-se na relação entre Emira Tucker – uma baby-sitter afro americana com 25 anos, licenciada, que ainda não sabe muito bem o que quer fazer da vida -, e Alix Chamberlain, uma mãe de duas meninas, americana, branca, perto dos 40 anos, que acabou de se mudar de Manhattan para Filadélfia, e que é muito envolvida no empoderamento feminino.

Encontrei este livro repetidamente em listas de “Livros a não perder em 2020” do Goodreads e senti-me fortemente coagida a lê-lo. Mas o que me levou efetivamente a ler o livro foi o facto de uma das personagens, além de ser POC, viver nos Estados Unidos da América e com uma vida aparente normal (e por “normal” quero dizer muito semelhante àquilo que muitos outros jovens de cores, tamanhos, países diferentes vivem). Nada na personagem aparentava ser crítico: não havia um segredo criminal; não havia nada além do facto de ela não saber o que queria fazer com a sua vida e com a licenciatura que tanto lhe tinha custado tirar.

Eu sabia que, em algum ponto, haveria uma mudança nessa trajetória de “aparentemente tudo normal” – e isso realmente acontece quando é abordada por um segurança de supermercado, que a acusa de rapto, a ela, uma baby-sitter. Além de toda a situação ser uma chamada de atenção para o quão absurda muitas vezes é a ação da autoridade (que chega mais rapidamente às conclusões do que propriamente ao socorro), é também o gatilho para toda a situação que se passava durante o livro. Esta é apenas efetivamente mencionada muito mais à frente, mas a partir daquele momento a relação entre Emira e Alix já não é mesma.

Alix agora quer fazer de tudo para ser amiga de Emira, para assim se afastar totalmente do segurança de supermercado que agiu em função do estereótipo de que cor é demonstração de perigo. Mesmo que isso signifique violar a privacidade de Emira, mentir ou outros comportamentos psicologicamente não recomendados. O desenrolar desta obsessão  que Alix desenvolve por Emira é provavelmente das coisas mais assustadoras que li – o que parece mentira, porque em momento nenhum há violência ou agressão. E honestamente isso é o que me assusta mais: uma obsessão doentia não aparente, silenciosa e constante, da qual Emira só tem noção muito mais tarde, após esta ter sido iniciada.

“Ela sabia que Emira tinha ido para a universidade. Ela sabia que Emira tinha se licenciado em Inglês. Mas às vezes, depois de ver as músicas em pausa no seu telemóvel como “Dope B*tch” e “Y’all Already Know”, e de a ouvir dizer palavras como connoisseur, Alix encontrava-se com sentimentos que iam de confusão e muito impressionada a culpa em resposta a primeira reação”

Such a Fun Age, Emily Tucker p. 79

“Ela queria perguntar a Emira quando é que a sua mãe se tinha casado e dizer-lhe que a dela se tinha casado aos 25 anos. Ela queria saber se a Emira já tinha tido um relacionamento sério e o que este novo rapaz fazia da vida”

Such a Fun Age, Emily Tucker p. 80

“Alix encontrou-se a reorganizar a sua vida em função de Emira (…) Alix sonhava com Emira a descobrir coisas sobre ela que  moldassem a sua verdadeira versão. Como o facto de uma das amigas mais chegadas de Alix também era preta”

Such a Fun Age, Emily Tucker pp. 136-137

“Por uns momentos, quando Jodi disse, “Alix, querida, segura a tua menina”, Alix pensou que ela se estava a referir a Emira.”

Such a Fun Age, Emily Tucker p. 178

Pensamentos semelhantes a estes são constantes enquanto lemos os capítulos na perspetiva de Alix, uma white saviour na sua plenitude. Apesar de a relação com Alix ser a mais evidente, visto ser o foco do livro em si, há outra relação que merece a nossa atenção, se pudermos sequer chamar de relação.

Tamra é uma amiga de Alix, afro americana, bem sucedida e sem dúvidas o que seria, em termos americanos, considerado um Uncle Tom. Assim que conhece Emira, Tamra faz aquilo que cada vez mais pessoas sabem que não se deve fazer quando se conhece uma mulher preta: que é mexer no seu cabelo. A “regra” aplica-se a todos, independentemente da cor, algo que ela simplesmente ignorou. E não para por aí: durante todo o tempo que estas se encontram juntas, Tamra força opções para Emira “decidir o que quer fazer”, ignorando totalmente as objeções de Emira e procurando forçar as suas ideias.

“Será que alguém tinha dito a Tamra que a Emira queria ir para pós-graduação? Porque ninguém tinha dito a Emira.”

Such a Fun Age, Emily Tucker p. 176

Pessoalmente, ler a interação entre ambas só não foi mais desconfortável e assustador do que a interação entre Emira e Alix porque não foi tão longa. Tamra é a representação de imensas pessoas que confundem “indecisão” com “preguiça”, forçando então o seu padrão em outras pessoas e considerando que é a melhor maneira de ajudar.  Há muito mais de que podia falar, pois este livro é ótimo para olhar para a sociedade de hoje através de outras perspetivas – em especial numa altura em que há tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo, e acabamos por nem sequer ouvir o que está a ser dito ou aquilo que realmente está a ser pedido ou que é preciso. Prefiro então sugerir que leiam o livro assim que tiverem oportunidade!

Fonte: https://payhip.com/b/0s5w

Artigo revisto por Michelle Coelho

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