Isto Não É Ficção

Se é isto um homem é o relato de um sobrevivente, Primo Levi, a uma das páginas mais negras da história recente: o Holocausto. O acontecimento em si mantém-se muito presente na sociedade atual, mesmo após terem passado mais de 70 anos. Não apenas resultante das constantes adaptações (fictícias ou não) a filmes, a livros ou a outros meios de informação, mas também devido ao sofrimento que o ser humano é capaz de provocar noutro ser humano, tendo por base, apenas, um argumento evidentemente fraco. É um acontecimento que nunca deve ser esquecido, reduzido ou comparado a outro qualquer, pois, tendo por base uma conceção irracional do conceito de “raça pura”, são criados meios para aniquilar toda uma raça.
E esta é uma das mensagens passadas por Primo Levi no seu livro.

O narrador autodiegético demonstra uma completa impaciência para com pessoas que veem o mal e adotam uma posição de inação perante este, ignorando-o apenas porque não os afeta diretamente, “Vós que viveis tranquilos /(…) Meditai que isto aconteceu /(…) Ou então que desmorone a vossa casa” (Levi,2002:5). Entendo e, de certa maneira, concordo com a posição do escritor. Depois de passar pelo inferno que este passou, ainda ter de ouvir ignorantes duvidar da realidade da situação é, sem dúvida, frustrante! Portanto, a linguagem crua e dura usada na obra é, talvez, a melhor opção. Porque não só exprime a vontade do escritor, como também passa a mensagem necessária para a tomada de consciência.

Logo no início, o autor deixa bem claro que este não é necessariamente um livro escrito para apelar ao sentimento do leitor, mas sim, através do relato na primeira pessoa acerca daquilo que acontecia num dos campos de trabalho nazi, apresenta as suas reflexões sobre a condição humana e, assim, proporciona um outra visão do ser humano,

(..) não foi escrito com o objetivo de formular novas acusações; servirá talvez mais para fornecer documentos para um estudo sereno de alguns aspetos da alma humana. (Levi,2002:7)

Este livro deixou-me com os sentimentos expostos e preocupada com a humanidade.

Pessoas como eu, como o primeiro ministro ou como a senhora que limpa o chão do supermercado, perdiam o direito de serem consideradas pessoas, apenas porque a sua religião era diferente. Eram marcadas como gado e utilizadas como meros instrumentos laborais, desprovidas de quaisquer direitos e incumbidas apenas de trabalhar, trabalhar e trabalhar, até não poderem mais. Fizesse frio, calor, chuva ou sol. Estas pessoas continuavam o trabalho duro e desgastante, alimentando-se com poucos litros de sopa e poucas fatias de pão, levando pancadas sempre que cometiam algum erro no seu trabalho e, rapidamente, transformando-se todos num só.

“Não há espelhos para nos vermos, mas o nosso aspeto está diante de nós, refletido em cem rostos lívidos, em cem fantoches miseráveis e sórdidos.” (Levi,2002:23)

É até difícil imaginarmo-nos no lugar do escritor, mas é também inevitável. A imagem transmitida é tão forte, tão completa, tão expressiva, que facilmente acabamos envolvidos na obra. Sentimos raiva pelos acontecimentos passados, pela crueldade humana, pela incapacidade de empatia e por tudo o que rodeia aquele ambiente mergulhado num nevoeiro, no qual há poucas aberturas. Uma dessas aberturas, metaforicamente, pode ser vista com a descrição da relação que se estabelece entre Lorenzo, um trabalhador do exterior italiano (o mesmo é dizer que é assalariado),  e Levi.  Lorenzo é como o bote salva-vidas de Levi, a única pessoa no meio de tantos monstros.

Lorenzo era um homem; a sua humanidade era pura e incontaminada, estava fora deste mundo de negação. Graças a Lorenzo, aconteceu-me não esquecer que eu também era um homem.  (Levi,2002:135)

A relação que se estabelece entre estes dois italianos é emocionante. No meio de tanta coisa má, encontrar alguém que não permite que Primo se perca a si mesmo, encontrar bondade num meio de tanto mal, dá-nos alguma esperança na humanidade.

O autor podia facilmente ter-se focado apenas nas atrocidades a que sobreviveu, mesmo tendo as estatísticas contra ele, mas não.

sou fraco e desajeitado (Levi,2002:44)

 (…) os judeus italianos (…) eram mais de cem e já são apenas quarenta; os que não sabem trabalhar e deixam roubar o pão e  apanham bofetadas desde manhã até a noite; os alemães chamam-nos “zwei linke Hände” (duas mãos esquerdas), e até os judeus polacos os desprezam porque não sabemos falar ídixe (Levi,2002:54)

Sucumbir-se é o mais simples (…) A experiência demonstrou que só em casos excecionais, desta forma se pode durar além de três meses (Levi,2002:100)

Levi não se esquece de mencionar as coisas boas: dedica-lhes capítulos e explora-as de modo grandioso. As adversidades afetam-no e condicionam-no; ele não é imune a estas e leva tempo até consiguir adaptar-se às regras do campo, mas há uma espécie de instinto de sobrevivência nele, uma capacidade de resiliência acima da média.

Levi não constrói apenas uma obra completa, forte e construtiva, mas deixa um manual de sobrevivência, uma interpretação do ser humano única! Em 190 páginas, Primo Levi entrega-nos a parede entre a morte e a vida, não só em situações de opressões, mas em muitas outras. Torna, assim, Se É Isto Um Homem num dos melhores livros que alguma vez li.

Um livro completo, onde vemos uma das facetas mais obscuras do ser humano, onde nos é ensinado conhecimento abstrato e concreto e nos é dado um conhecimento amplo e construtivo acerca daquilo que se sucedeu durante aquela época. O livro em si não é fácil, a linguagem usada é agressiva, direta, mas, ao mesmo tempo, é simples. Isto permite uma maior aproximação aos acontecimentos, mas também limita um pouco o grupo de pessoas capazes de ler este livro. No final da leitura, passei algum tempo a refletir acerca da condição humana e da crueldade existente no mundo, mas guardei ensinamentos para o resto da vida, pequenas chaves de ouro.

Em abril de 1987, Primo Levi morreu na cidade que o viu nascer.

Fonte: https://revistagalileu.globo.com/Cultura/noticia/2019/07/quem-foi-primo-levi-e-por-que-sua-obra-ainda-e-atual.html

Artigo revisto por Carolina Marques

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