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Call me Joanne

Se fizemos de conta que nunca tinha havido uma Lady Gaga antes de 21 de outubro de 2016, provavelmente este álbum iria ser falado pelos melhores motivos – por ser um grande debut; por ter uma teamwork de sonho (que conta com Mark Ronsom, Kevin Parker, Beck, Father John Misty, Florence Welch, entre outros); ou por conjugar na perfeição vários estilos musicais, compondo um oceano cheio de correntes pop, rock e country. O problema deste álbum, lendo na diagonal as críticas feitas ao mesmo, é esse mesmo: não ser o debut de uma nova-iorquina de trinta anos que sempre foi dona de si mesma, mas sim o quinto de Stefani Germanotta.

Quando damos uma vista de olhos nas reviews de Joanne (que tem uma média de 68/100 no Metacritic) reparamos em algo interessante em muitas delas: o facto de a review não ser sobre o álbum, mas sim um julgamento à carreira da artista. Os mesmos que criticaram o ARTPOP, por ter sido um álbum demasiado explosivo e caótico, são os mesmos que pedem à Gaga do Joanne que seja menos caseira e volte para a confusão do pop. Não admira, visto que a sua passagem para o Born This Way, algo mais adulto e sólido do que o seu The Fame Monster, também foi criticada – para depois os media quererem uma Lady Gaga mais Born This Way no seu ARTPOP.

Será que Gaga, no seu quinto álbum – e que se reinventa em cada disco – , já não consegue fazer mais nenhum LP bom? As mesmas publicações que foram o trampolim de Gaga para o estrelato e para o trono são as mesmas que, agora, tratam de o destruir? Se calhar a americana já o previa no vídeo de “Paparazzi”. Uma artista já consolidada, que já não consegue ser uma boa artista – mesmo quando lança o melhor álbum da sua carreira.

Antes de uma viagem pelo mundo de Joanne, percebamos primeiro quem é o nome por detrás do caminho deste álbum. Joanne é a tia de Stefani (que tem Joanne como segundo nome), e, ao contrário dos restantes álbuns da sua discografia, não é um disco conceitual, mas antes biográfico (a acompanhar o título semi-autointitulado). Cada música conta uma história da vida desta nova persona de Gaga – ela mesma.

Logo na primeira faixa, “Diamond Heart”, conseguimos perceber a orientação deste trabalho: os beats de eletrónica não entram aqui. Joanne é todo ele instrumental e que tem como ponto central a poderosa capacidade vocal da cantora. A própria faixa descreve esta fase de Stefani, pré-Fame, onde fazia pocket shows em bares e era uma go-go dancer para ganhar algum dinheiro. Uma “Young wild American / Looking to be something”.

Depois passamos para uma música que parece ter sido escrita por uma Taylor Swift que bebe e fuma (se ela já não o faz). “A-yo” é aquela música que quando toca consegue tirar um pezinho de dança a toda a gente, incluindo aos haters (que recebem um grande F.U. nesta faixa). É importante ter a energia de “A-yo” para prender as lágrimas quando a música seguinte começar a tocar: a faixa-título, “Joanne”, fala sobre a partida de um ente querido para o Paraíso, e como é inevitável. Ouvimos a doce voz de Stefani, que faz deste adeus, uma lullaby song.

Mas “John Wayne” e “Dancin’ In Circles” aparecem para destruir as nossas vidas. Ironicamente, são duas músicas de amor: porém a primeira fala sobre a necessidade de um homem aventureiro; a segunda é um hino à masturbação, que conta com os toques de Beck (e também uma das favoritas dos fãs, por ser a música mais “Gaga”).

“Perfect Illusion” não podia ter pedido uns padrinhos melhores: Gaga, Mark Ronsom (que é o produtor executivo do álbum), Kevin Parker (Tame Impala), BloodPop e Josh Homme (Queens of The Stone Age). Também explora o amor, mas mais virado para as ilusões a que somos expostos nas redes sociais. É impossível ficar indiferente à ira na voz de Gaga quando grita “It wasn’t love / It was a Perfect Illusion”. Foi o lead single de Joanne.

“Million Reasons” acaba com essa ira, tornando-se uma das favoritas do público, talvez por ser a que melhor conjuga a voz da americana com o estado de espírito de quem a ouve. Primeiramente lançada como single promocional, a Interscope Records já confirmou esta faixa como segundo single, estando a ser já filmado o teledisco.

Estamos já na segunda metade do álbum, e a velocidade do mesmo diminuiu. Entra “Sinner’s Prayer”, uma faixa excelentemente produzida por Father John Misty, e depois “Come To Mama”, um apelo à união e à compaixão mundial (não houvesse algo mais Gaga do que a esperança por um estado de paz). Não é a única música que põe toda a gente a dar as mãos. Logo a seguir, “Hey Girl”, que conta com vocais intercalados de Florence Welch, diz feminismo em toda a sua letra.

Se as lágrimas que deitámos em “Joanne” não chegaram, está aqui “Angel Down”, que é uma clara referência aos problemas raciais nos EUA, que originaram o movimento #BlackLivesMatter, e às vidas perdidas no tiroteio de Orlando, considerado um ataque à comunidade homossexual: “Shots were fired on the street / By the church where we used to meet / Angel down, angel down / But the people just stood around”. A edição deluxe ainda conta com mais duas músicas bem animadas (“Grigio Girls” e “Just Another Day”) e a work tape de “Angel Down”, produzida pelo amigo de longa data, RedOne.

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