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Camões, o tempo não passa por ti

Fotos de Márcia Lessa

Durante o período em que Portugal esteve sob o domínio espanhol, Camões relembrava o sentimento nacional. Os republicanos carregaram de preto a estátua erguida ao poeta em Lisboa para evidenciar o luto do país perante a resposta da monarquia portuguesa ao ultimato Inglês. Na ditadura, a sua figura era usada para exacerbar o nacionalismo. Em democracia, recorda o passado histórico de um país.

Independentemente das interpretações ideológicas de que tem sido alvo, Camões sempre foi, é e tudo indica que continuará a ser um símbolo nacional, emblema da glória portuguesa, e por isso uma figura incontornável da história da literatura. O autor d` ’Os Lusíadas’ foi editado sem interrupções temporais, traduzido para muitas línguas, alvo de inumeráveis dedicatórias e matéria de estudo na escola geração após geração.

D. Manuel II e os livros de Camões

Uma parceria entre a Fundação Calouste Gulbenkian e a Fundação da Casa de Bragança permite ver, de 13 de novembro de 2015 a 15 de fevereiro de 2016, parte do espólio camoniano do último rei português. A exposição, intitulada “D. Manuel II e os livros de Camões”, traz até Lisboa obras que não saíam do Paço Ducal de Vila Viçosa há décadas.

“A Exposição que agora tem lugar pretende reconstituir a fortuna editorial daquele que é ainda, sem dúvida, não apenas o autor de Língua Portuguesa mais lido e estudado como também aquele que mais impacto tem tido na criação literária e artística de todas as épocas e na sensibilidade das diferentes comunidades políticas que se exprimem em Português” afirma, a propósito, José Augusto Cardoso Bernardes, co-comissário da exposição.

Os corredores da galeria de exposições da Gulbenkian foram preenchidos com um conjunto de fotografias e objetos relativos a D. Manuel II (1889-1932), com vários retratos de Luís de Camões e com uma amostra de cinco séculos de edições camonianas.

Nas palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, presidente da Fundação da Casa de Bragança, esta é “Uma Exposição singular (…) pela raridade de uma coleção tão completa das obras de Luís Vaz de Camões”, onde estão incluídas as primeiras edições d` ‘Os Lusíadas’, das ‘Rimas’ e do ‘Teatro’.

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No âmbito desta iniciativa, está a decorrer um ciclo de debates temáticos que abordam vários aspetos da vida e obra do poeta português, com títulos como “Camões, herói romântico” (3 de dezembro de 2015), “Camões, tema maior do ensaísmo português” (21 de janeiro de 2016), “Camões na Escola de Portugal: uma presença sem faltas” (28 de janeiro de 2016) ou “Os rostos de Camões” (11 de fevereiro de 2016).

Camões na Escola de Portugal: uma presença sem faltas

Uns podem ter estudado 42 estâncias do canto V, outros 23 do canto IV e outros ainda 36 do canto III d` ‘Os Lusíadas’. No entanto, todos tivemos Camões como colega de mesa. Sobrevivente a tentativas de substituição, a obra dedicada a D. Sebastião é presença constante nos programas da disciplina de português. “Camões na Escola de Portugal: uma presença sem faltas” foi o tema do debate temático no dia 28 de janeiro de 2016 na Fundação Gulbenkian.

A análise evolucionista sobre a presença de Camões nos programas de português feita por Rui Afonso Mateus, investigador da Língua e Literatura Por-tuguesa na Universidade de Coimbra, evidenciou uma redução do número de es-trofes estudadas, uma diminuição do protagonismo de heróis individuais, assim como uma tentativa de aproximação da obra aos estudantes.

No programa de português de 1936 não estavam fixas as estâncias para estudo, dando assim mais autonomia aos docentes desta disciplina. No entanto, eram aconselhados episódios que acentuassem a perspetiva imperialista portuguesa. Algo que não se verificou nos programas seguintes. Tornando-se obrigatório o estudo de certos episódios desta epopeia. Episódios esses que foram sendo redu-zidos ao longo do tempo. Em 1954 estudavam-se 223 estâncias, enquanto no programa em vigor prevê-se a leitura de apenas 133, sendo que há inclusive can-tos que não tem representação neste último número.

Personalidades como Nuno Álvares Pereira foram ficando para trás nas leituras escolares, bem como episódios bélicos como o da batalha de Aljubarrota, que saiu do programa no ano de 2009, dando-se primazia a excertos mais sentimentais, transmissores de uma versão mais pacifista da história.

Rui Mateus confessou a sua inclinação para a ideia de que os autores dos pro-gramas de português mais recentes têm feito uma tentativa de aproximação da obra-prima de Camões aos alunos de 15 anos, cativando-os com a versão mais “romântica” d` ‘Os Lusíadas’. A visão crítica do velho do Restelo foi substituída pelas saudades e lágrimas das despedidas de Belém.

Ana Ramos, professora na Universidade da Zurique e sobrinha de Emanuel Paulo Ramos, editor mor de Camões em manuais escolares, acrescentou que no estran-geiro, o estudo d` ‘Os Lusíadas’ não é feito de forma independente, ou seja, os episódio lecionados estão sempre ancorados a outras temáticas, como a história trágico marítima portuguesa.

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