Grande Entrevista e Reportagem

Carlos Nery de Araújo: “A lógica da guerra vai-nos entrando. Quando vemos morrer alguém do nosso lado, a gente quer é retaliar”

Então, diga lá, qual é o interrogatório a que me quer sujeitar?”. Foi assim que, em tom de brincadeira, ao atender a minha chamada, o capitão miliciano e ator Carlos Nery de Araújo se dirigiu a mim. É irónico pensar que há 47 anos provavelmente terá feito a mesma pergunta, mas num dos quartéis da PIDE, após ter sido detido numa manifestação de bancários.

Do palco da guerra ao do teatro, foi sempre um resistente, à sua maneira. A história de Carlos é a prova disso. Ainda assim, no alto dos seus 87 anos, faz questão de insistir que é uma pessoa vulgar e cuja vida não merece grande destaque.

Com a guerra colonial na Guiné como pano de fundo, nesta entrevista falamos dos traumas da guerra, da ditadura, do teatro como forma de resistência, das ameaças atuais da extrema-direita e, acima de tudo, da liberdade.

Encontrava-se a estudar Matemática em Coimbra quando foi a crise académica de 1962. Recorda-se de assistir à repressão dos estudantes pelas forças policiais?

Sim, eu assisti ao que se passou: a polícia de choque a invadir a cidade, a perseguição aos estudantes, a ocupação da associação académica pela polícia e a direção da associação a ser levada para Lisboa sob prisão. Nessa altura, a academia de Coimbra era quase cem por cento composta por resistentes.

Você fazia parte dessa resistência?

“Eu fui fundador de uma república em Coimbra. Quando a associação académica foi encerrada, as repúblicas combinaram entre si à uma hora da madrugada fazerem barulho com panelas e tachos, como uma forma de protesto. Acabámos por ser chamados à PIDE e disseram que ou acabávamos com aquilo, ou punham-nos fora das repúblicas.

Como é que um estudante rebelde em Coimbra passa, anos depois, a capitão de uma companhia militar na Guiné?

“Eu já tinha feito o meu serviço militar obrigatório em 1957, trabalhava no Banco de Portugal, estava casado, tinha um filho e acabei por ser chamado novamente. Eu tenho cerca de seis anos de serviço militar obrigatório, dois deles a comando de uma companhia militar na Guiné.

Nunca lhe passou pela cabeça desertar?

Claro que passou, mas fugir para o estrangeiro significava perder o emprego e deixar de ver a família durante anos. Nem se previa durante quantos anos isso poderia ser. Por outro lado, eu tinha a noção de uma coisa: a única entidade que podia derrubar aquele regime eram as forças armadas.

Como era, para si, ser responsável por uma companhia militar numa guerra que considerava “injusta”?

Eu fui fazer uma guerra com a qual não concordava. Mas fui com o posto de capitão para comandar uma companhia e sentia que tinha uma certa responsabilidade sobre os homens que iam comigo.

 “Há atividades em que as pessoas se enganam e podem corrigir o erro. Há outras em que o engano pode ser extremamente grave. Um cirurgião que está a fazer uma operação não se pode enganar, porque isso pode significar a morte dessa pessoa. Em guerra, somos responsáveis pelos homens que vamos comandar. Eu não admitia enganos. Estive num sítio extremamente perigoso no sul da Guiné e só tive um soldado morto pelo PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), e nem foi em combate. Ele estava a varrer o refeitório quando caiu perto dele uma granada do ataque “inimigo” e um estilhaço furou-lhe a traqueia.

Chegou a ter de matar alguém?

A gente nem sabe se matou, porque o “inimigo” ali não tem rosto, a gente nunca o vê. Num contacto de fogo há troca de tiros e chega-se a ver às vezes a trajetória das balas, mas nunca os vemos. Nós respondemos, mas não sabemos se acertámos ou não. Eram situações muito rápidas e confusas.

Mas também pôs minas.

Pus e o adversário caiu nessas minas. Em alguns casos, sim. Mas isso também representava a nossa segurança. Quando cheguei à região de Quínara (Buba), o sítio onde estive mais de um ano, o “inimigo” andava ali nas barbas do quartel. Via-se os vestígios da passagem, pegadas muito recentes. Eles atacavam com frequência a unidade e andavam ali nas barbas do quartel, sem receio nenhum, e a minha primeira intenção foi sacudir aquela pressão. Isto à custa de quê?! Contactos de fogo, intersetando os movimentos deles, e através da colocação de minas. Era de parte a parte, eles também faziam o mesmo. É um diálogo impiedoso.

A lógica da guerra vai-nos entrando. Quando vemos morrer alguém do nosso lado, a gente quer é retaliar.

Guarda algum remorso?

Nada me pesa, não cometi nenhum excesso, mas a própria guerra é ela mesma um excesso. Ficou-me na memória aquela realidade dura do que é a guerra e a insegurança. Crianças que têm de dormir num buraco com medo que lhe caia uma granada em cima. Eu vivi isso tudo e dormi muitas vezes fardado e com botas nos pés, porque nem tinha cama para dormir; dormia no mato. É uma lógica muito feia e dura, porque numa guerra o êxito conta-se em vidas humanas.

Quando esteve em Bissau, chegou a encenar a peça de teatro “A Cantora Careca”, que diz ter sido “uma forma de pôr de lado a guerra e libertar a imaginação”. Como é que surgiu esta ideia?

Em Bissau, havia uma messe de oficiais onde se podia jantar, jogar às cartas e, duas ou três vezes por semana, via-se filmes. Eu, um grupo de oficiais e respetivas famílias vínhamos para a zona da piscina à noite, onde não havia ninguém, e ficávamos ali a conversar. Um dia, alguém sugeriu fazermos uma peça de teatro. Na altura, não sabiam que eu já tinha alguma experiência de teatro, porque já tinha pertencido ao Teatro Experimental do Porto e ao CITAC – Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra.

Por estranho que pareça, até fiquei mais tempo na Guiné para apresentar esse espetáculo. Improvisámos tudo, desde o palco e a iluminação até ao som. O espetáculo foi representado durante quatro noites e foi visto por todos os oficiais, sargentos e família. Quisemos levar aquilo até aos soldados, mas era complicado por razões de segurança e para a população ainda mais complicado era.

Representação da peça “A Cantora Careca”, de Ionesco, encenada em Bissau pelo Cap. Mil. Fotografia cedida por Carlos Nery.
Representação da peça “A Cantora Careca”, de Ionesco, encenada em Bissau pelo Cap. Mil. Fotografia cedida por Carlos Nery.

Quando regressou da guerra, continuou a fazer teatro?

Sim, quando cheguei cá, estava com vontade de fazer mais coisas. Havia um clube de teatro em Algés que era o Primeiro Ato e lá havia um ambiente de resistência. Apesar da censura e da polícia política, as pessoas faziam coisas. Acabei depois por pertencer à direção daquele clube de teatro e, enquanto eu estive na direção, apresentaram-se ali quase todos os que faziam a chamada “Canção do Protesto”, como, por exemplo, o Carlos Paredes.

Enquanto membro da direção do clube de teatro, dar espaço a artistas que eram contra o regime era também a sua forma de protesto?

Nós não tínhamos dinheiro para pagar a nenhum artista que lá foi, mas isso nunca foi impeditivo. Todos sabíamos que aquilo era um gesto importante de cultura e que a cultura fazia parte de uma resistência ao poder de então. Nessa altura, uns arriscavam mais, outros menos, mas havia muita gente ligada à cultura e nós estávamos de braço dado a fazer a nossa resistência.

Além do teatro, também trabalhava no Banco de Portugal. Como é que acabou na prisão de Caxias por causa de uma manifestação de bancários?

Além da vida cultural, eu também estava metido na atividade sindical dos bancários. Organizaram-se várias manifestações, porque o chefe da direção do sindicato dos bancários tinha sido preso pela PIDE. Numa dessas manifestações, a polícia de choque avançou para a rua do Ouro e malharam forte e feio na malta que estava ali. Eu ainda entrei para o banco, mas a polícia caiu sobre mim e outros. A minha camisa que era branca passou a estar vermelha de sangue. Chegámos ao posto médico do banco e um administrador que era pró-fascista mandou o enfermeiro levar-nos para o hospital. Ir para o hospital já se sabia que era o mesmo que ser entregue à PIDE. Essa noite já dormimos em Caxias.

O que é que aconteceu quando chegou à PIDE para ser identificado?

Eu tinha vindo há poucos meses da Guiné, até já tinha recebido uma condecoração pela minha experiência de guerra, e, entretanto, estava ali sem camisa (tinha ficado no Banco toda ensanguentada) e vejo um dos militares que tinha conhecido na Guiné e que pertencia à PIDE. Ele ficou a olhar para mim incrédulo como que a questionar: ‘Será o capitão?!’ [risos]. Eu pisquei-lhe o olho e ele fugiu. Deve ter ido dizer: ‘Está ali o capitão que eu conheci na Guiné!’.

Depois, no interrogatório ainda me disseram: ‘Então o senhor andava lá na guerra a combater os comunistas e agora anda aqui de braço dado com eles?!’. Era areia a mais para aquela camioneta…

Como alguém que já viveu uma ditadura e que já viu a sua liberdade em risco, tem receio de que o passado se repita com a atual ascensão de forças de extrema-direita?

Uma coisa que eu aprendi é que é muito difícil prever o futuro. Quando eu estive na Guiné, não passava pela cabeça de ninguém que a hegemonia dos europeus e dos brancos em Angola, Moçambique e na África do Sul pudesse vir a cair e de repente desfez-se tudo, como um castelo de cartas. Eu quero crer que o facto de termos tido uma ditadura prolongada nos cria anticorpos para um regime idêntico.

Por outro lado, há um fenómeno a que eu assisto com preocupação que é o de tentar branquear esses tempos como se o que aconteceu não fosse tão mau quanto isso. Eu gosto de chamar os bois pelos nomes. De facto, neste país, viveu-se um tempo de ditadura.

O que é a liberdade?

Para mim, a liberdade passa muito pela liberdade de pensamento, a liberdade de expressão, a liberdade intelectual, embora mesmo assim possamos estar condicionados. Acreditar que se pode ser totalmente livre é um bocado utópico. 

Por exemplo, no tempo em que a televisão era a preto e branco havia muitos mais programas culturais. Hoje, a guerra das audiências faz com que liguemos a televisão e a maior parte daqueles programas não interessem para nada. Tudo o que seja pôr as pessoas a pensar parece que foi posto de lado. Receio que se estejam a criar condições para um país bastante mais pobre culturalmente. A liberdade também passa por aí: por criar condições para que as pessoas conheçam o passado e a história.

Artigo revisto por Ana Janeiro

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