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De Escsianos para críticos

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Num seminário organizado pela jornalista e professora Ana Leal, falou-se de críticos, esses que podem ser inimigos ou aliados. Muitas das vezes, existe uma inimizade entre quem faz o seu trabalho e quem o critica. No âmbito da gastronomia, literatura e cinema, os alunos do curso de Jornalismo tiveram a oportunidade de confrontar Rui Tendinha, crítico de cinema, Isabel Lucas, crítica de Literatura e Miguel Pires, critico de gastronomia. Como se chega a crítico? O que se lê, come e vê quando não se é pago para o fazer com o intuito de se ter uma crítica (seja ela boa ou má)? Mesmo não gostando do que se está a criticar, é possível que o trabalho esteja bem feito? Essas e outras questões foram abordadas neste seminário, que se realizou dia 17 de Novembro e teve início às 18h da tarde.

Em primeiro lugar, é necessário salientar a falta de jornalistas com uma cultura realmente alargada, como nos disse Miguel Pires: “Um bom jornalista está apto para escrever sobre uma série de coisas mas quando se trata de algo mais específico, são ditos, por vezes, muitos disparates”. Completando esta ideia, Isabel Lucas disse que um bom jornalista também “deve estar preparado para tudo e para isso é que o jornalista deve ler”. Quando se está habituado a trabalhar muito em literatura e, de repente, se pede para se fazer algo sobre cinema, por exemplo, o jornalista está fora da sua àrea de conforto e, quando é assim, “deve falar-se com os colegas que sabem, e isso está a perder-se” muito nas redações de hoje em dia. Assim, levanta-se o problema de muitas das vezes existirem lacunas no que é escrito.

Por outro lado, Miguel Pires queixou-se da falta de seriedade que às vezes se dá à gastronomia e às críticas que lhe são feitas. Existe uma ideia pré-feita de que qualquer um pode escrever sobre gastronomia e “é importante que os meios de comunicação saibam a importância que têm”, realmente. Como por exemplo: a abordagem que se dá a programas de gastronomia internacionalmente é completamente diferente e nós próprios, como povo português, preferimos o que é feito lá fora. É verdade que cada vez mais existem programas desse tipo em Portugal, mas não têm a qualidade que deveriam ter porque são imitações baratas do que é feito lá fora ou compra-se o que já está feito internacionalmente. “Somos followers porque temos tendência a ir buscar lá fora”, como nos disse Miguel Pires, verdadeiramente desiludido com essa situação.

E o cinema? Sim, o cinema português. Estamos a assistir a um fenômeno de novos filmes portugueses que até têm tido bons números nas bilheteiras e outros nem tanto, mas pelo menos já se começa a apostar nisso e com qualidade. Os portugueses têm-se interessado mais no cinema português. No que toca à imprevisibilidade das bilheteiras, essa mantém-se presente porque o público tem-se mostrado mais exigente e o que, à partida, vai ser um desastre pode ser um sucesso, e vice-versa, como são exemplos: “Os Maias” e os “Gatos Não Têm Vertigens”.

As críticas trazem sempre amores e dissabores e foi também sobre isso que nos falaram estes críticos, cada um dentro da sua área. As reacções que estes recebem “é algo a que se vai habituando a lidar com e, quanto mais soubermos sobre o assunto, mais temos meios para nos defender” – como disse Isabel Lucas, acrescentando – “A questão é saber sempre se estou a ser justa ou não. Porque é muito fácil falar mal, mas, acima de tudo, temos de ser justos”. Rui Tendinha mostrou estar de acordo com os seus colegas, mas culmina com esta afirmação: “Dá-me muito gozo escrever sobre algo por que tenha empatia.”

Outro dos assuntos com os quais os críticos por vezes se debatem é com trabalhos bem feitos mas que não lhes dizem absolutamente nada.

Outras das questões que se puseram em cima da mesa, em particular para Rui Tendinha, foram as apreciações do IMDb, que são realmente fiáveis e estão de acordo com a qualidade real dos filmes, como referiu o mesmo: “É muito interessante porque é o gosto popular em questão. Eu acho que este gosto popular não se engana muito porque quem vota são os amantes do cinema. Os que estão realmente interessados.”

Um dos projectos de Miguel Pires, “Lisboa à mesa”, teve sucesso e foi realizado apenas por ele e este tipo de projectos requer mais do que uma pessoa.

E, por fim, falou-se sobre o assunto da formação de críticos. Essa não exis. Para alguém chegar a crítico tem de ir trabalhando, ler e escrever bem. Na opinião dos críticos que estiveram à conversa connosco, esta seria uma formação que deveria realmente existir e deve haver mais gente nova nesta área.

Concluído, um crítico leva sempre trabalho para casa, seja ele por gosto ou não. Quando não se é pago para ler, comer ou ver cinema, escolhe-se aquilo que se sabe de que se vai gostar – embora por vezes se apanhe desilusões – e é possível que, mesmo que o crítico não tenho empatia pelo que está a criticar, esse trabalho esteja realmente bem feito e, consequentemente, seja feita uma crítica positiva.

 

Marta Costa e Bárbara Mota

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