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De mão em mão

Caí ao chão. Um ressalto, dois, e fiquei deitada no meio da multidão. Pisaram-me; um guincho, um riso; rebolei mais um pouco. Esperei.

Silêncio. Passos soaram ao fundo, depois mais perto. Os passos pararam e eu fiquei na sombra. Pegaram-me.

– Olha, alguém a deixou cair. Será que está boa? – voz feminina, mãos suaves… era definitivamente uma rapariga. Fez-me deslizar para dentro do bolso quente e apertado de ganga. Senti a contração e a descontração e percebi que tinha começado a andar.

– Como estava a dizer, remarcaram-me o trabalho para a próxima semana – dizia a voz. – É uma sorte, nesta altura.

O ruído aumentou e deixei de a ouvir. Senti muita gente à minha roda, a temperatura aumentou. Ouvi uma campainha e a minha portadora começou imediatamente a andar. Rangidos, baques, coisas a serem arrastadas. Senti a ganga descer, fiquei mais exposta, quase a cair, e percebi que se tinha sentado. Silêncio.

– Então, vamos lá começar – voz feminina, clara, projetada, assertiva. – Hoje vamos falar sobre poesia.

Senti-a agarrar-me suavemente; tirou-me do bolso e girou-me lentamente nas suas mãos.

Finalmente, tirou-me a tampa e encaixou-a na minha ponta inferior.

– Apanhaste-a do chão, eu não dava muito por ela – opinou uma voz masculina, que imaginei ser da pessoa com quem ela estivera a falar antes.

Ela voltou-se e deslizou-me pelo papel. Era uma sensação de alívio enorme, de libertação. Como voar – mas não aquele voar assustador e vertiginoso de quando nos atiram ao ar e nos apanham com uma palmada sufocante, daqueles que até nos fazem soltar um pouco de tinta; ou pior, quando nos deixam aterrar no chão e o impacto é tão violento que nem sentimos os micróbios escalarem por nós acima -, voar levemente.

– Vês? Está ótima. Dizes que não sei aproveitar as oportunidades, mas claramente aproveitei esta muito bem.

– Não era a isso que me referia.

– Então não sei de que falas.

– Não te faças de desentendida, Luísa.

As mãos da Luísa estavam agora um pouco húmidas. Apertou-me algumas vezes antes de recomeçar a passear-me pela folha, desta vez de uma forma já não tão agradável, mas, sim, um pouco mais brusca.

A campainha soou novamente. Fui afastada do papel e voltei a sentir a proteção da tampa. Senti-me rebolar bruscamente de um lado para o outro.

– Podias deixar de ser teimosa – voltou o rapaz, que estivera calado a maior parte do tempo. – Íamos sair amanhã, íamos jantar.

– Que chato, pára com isso! – rebolei repentinamente e embati na madeira. Senti algo ser puxado debaixo de mim e ouvi a voz zangada da Luísa afastar-se rapidamente. Deixei também de ouvir o rapaz. O barulho que se tinha gerado começou a diminuir lentamente, até uma porta bater ao fundo e a divisão cair no silêncio.

Um estalido metálico ao fundo, quase inaudível, e senti o ruído invadir novamente o espaço. Conversas, gargalhadas, rangidos e baques. Uma mão agarrou-me com força, levantou-me no ar e com um puxão tirou-me a tampa.

– Olha, vem mesmo a calhar. – voz masculina, rouca. – Parece novinha em folha.

– Passas a vida a encontrar coisas, mano. – disse outra voz perto dele, também masculina. – Eu só encontro moedas de cinco cêntimos.

– Cada um tem aquilo que merece. É por isso que as miúdas todas me caem aos pés e tu não tens nenhuma.

– Vá, ordem, vamos começar. Onde é que tínhamos ficado? – disse um homem ao longe, acalmando o ruído na sala. Ouvi o meu novo portador suspirar e depois passou-me entre os dedos, começando a bater comigo na madeira. – Olha o barulho, António… – voltou a voz masculina que vinha de longe. O barulhento parou, poisando-me agressivamente na mesa. Já sentia falta da Luísa. Só esperava que aquele rufia me deixasse ali sossegada. Deixou, durante um pedaço, mas depois voltou a pegar em mim. Tirou-me a tampa, mas não a senti encaixar-se novamente na minha ponta inferior – ouvi-a cair perto de mim. Virou-me e começou a passar-me pela madeira, fazendo força. Consegui sentir a minha ponta amolgar ligeiramente com a pressão, a tinta ser forçada a sair, a pressão da mão dele, cerrada à minha volta. Continuava a pressionar-me contra a madeira, afundando-me nela, cavando-a com a minha ponta dorida.

– Meu, é melhor escreveres isto. – disse a voz ao lado da dele, que não parecia tão desagradável. – É o que vai sair para o teste.

– Ah, pois é. Obrigado. – afastou-me da madeira, finalmente, e encostou-me ao papel. Sentia-me frustrada, magoada, tinha o orgulho ferido. Com um grande esforço, segurei a minha tinta. Nem toda a gente merecia o meu deslizar pelo papel. – Mas o que é esta porcaria?! Agora não escreve?! – agarrou-me bruscamente, puxou-me para trás e, de repente, lá ia eu, no ar, sem nada que me agarrasse. Embati violentamente no chão.

E agora? A minha tampa? Sem ela vou secar e morrer. Preciso de alguém que me apanhe antes de o pior acontecer. Agora é esperar.

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