Do rio para o tribunal. Quem meteu água?

Diz-se que os processos nos tribunais portugueses são verdadeiros pesadelos kafkianos. Se assim o é, o caso das Fadas de Cottingley não se lhes fica atrás. A história das duas primas que fotografaram fadas começou em 1917, mas cem anos depois, em 2017, o julgamento continua no teatro A Barraca.

O “Processo: Fadas/Cottingley – 1917” coloca em confronto vários documentos, testemunhos e planos narrativos acerca de “um dos grandes embustes do século XX”, como o carateriza Rita Lello, encenadora e argumentista do espetáculo.

No entanto, o foco principal desta peça infantil, que não é apenas dirigida a crianças, é a discussão que nasce a partir do episódio narrado. O público está integrado no mundo das fadas, contribuindo para definir o rumo da conversa que tem lugar no palco.

A história das primas Elsie Wright e Frances Griffiths, com 16 e dez anos respectivamente, que só queriam brincar no rio, deu a volta ao mundo. Com o objetivo de provar a existência das fadas, as duas primas tiraram uma fotografia, declarada verdadeira por diversos especialistas, onde estes seres mágicos apareciam.

Elsie e Frances chamaram a atenção de várias pessoas. Entre elas, destacam-se o membro da Sociedade Teosófica em Bradford Edward Gardner e o autor de Sherlok Holmes, sir Arthur Conan Doyle, que usou uma fotografia tirada pelas primas para ilustrar um artigo seu na revista The Strand, mostrando ao mundo a primeira fotografia de uma fada.

Incentivadas pelos adultos, que lhes pediam mais fotos, as duas primas alimentaram o episódio, fazendo mais quatro imagens.

“Estas crianças [Elsei e Frances] foram coagidas por adultos a mentir e mantiveram a mentira durante anos. Ainda por cima são instigadas a mentir sobre um mundo – o místico, o das fadas – que os adultos fazem ver às crianças que não existe”, mencionou Rita Lello no final de um ensaio para a imprensa.

As fotografias tiradas nos subúrbios de Bradford percorreram o mundo, deram origem a inúmeros debates sobre a sua veracidade e chegaram mesmo a tribunal.

Rita Lello chega, por momentos, a dar voz à comparação desta história com o milagre de Fátima; revisita também a necessidade de enfatizar algo bom e puro em plena Grande Guerra (1914-1918), mas concentra-se em “testar os limites da invenção, da verdade e da pressão”.

O “Processo: Fadas/Cottingley – 1917” está em cena no Teatro A Barraca ao sábado às 16h e ao domingo às 11h até ao dia 30 de abril.

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