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E quando o amor tem preço?

Olá para ti que estás desse lado do vidro. Desculpa-me a indelicadeza de não me levantar, mas estou sem vontade. Sei que devia estar a fazer gracinhas. Tu ias rir-te e simpatizarias logo comigo. Depois, como todos os outros antes de ti, passarias por aquela porta e virias ver-me através deste outro vidro. Eu sempre deste lado, tu sempre do outro. Feito tonto, eu tentaria agradar-te ainda mais. Tu ias sorrir-me e chamar-me “fofinho”, “coisa fofa”, ou algo do género. Então, dirigir-te-ias à rapariga que está agora atrás do balcão, e que tem sido a minha única amiga desde há muito tempo, e perguntar-lhe-ias meia dúzia de coisas que eu não entendo. Ela responder-te-ia e voltarias a olhar para mim, desta vez com um olhar diferente. Esboçar-me-ias um sorriso meio torto e despedir-te-ias com um “adeus, amiguinho”. Por fim, sairias pela porta por onde há dez minutos entraras para me ver, e eu seguir-te-ia atentamente com o olhar, sempre com a esperança de que voltasses para trás. Mas tu já não voltarias sequer a olhar para mim, e, finalmente, a minha cauda perderia a fé e pararia de abanar.

Estou cansado disto, sabes!? Todos os dias, pessoas como tu aproximam-se desta vidraça para poderem ver-me melhor. Todos os dias, várias vezes ao dia, eu tento mostrar-lhes que sou um bom menino. Todos os dias, várias vezes ao dia, várias vezes numa hora, a minha esperança vem e vai, no espaço de dez minutos. E eu fico aqui. Sozinho. Nesta caixa fria.

Por estas alturas lembro-me da mamã. Ela costumava mimar-me e manter-me quentinho. Tenho saudades dela. E dos meus irmãozinhos, com quem costumava brincar. Desde que vim para este lugar que não os vejo, que não sei nada deles. Devo ter sido um menino mau para me prenderem aqui. Não sei o que fiz, só sei que devo estar a ser castigado por isso.

Agora só tenho a rapariga do balcão para brincar comigo. Mas ela está quase sempre ocupada. Não tem muito tempo para mim. Às vezes, ela diz-me que estou quase a arranjar uma nova família para cuidar de mim, para me dar amor. Diz o mesmo a outros cachorrinhos que vêm ocupar as caixas ao lado da minha. Alguns têm sorte. Vem gente vê-los, fazer as perguntas de sempre, e depois a rapariga do balcão desenterra uma chave do bolso do avental e vem abrir-lhes a caixa. As pessoas que os vieram ver abraçam-nos e carregam-nos ao colo até ao balcão. Por fim, entregam à rapariga um pequeno cartão de plástico, que ela enfia numa pequena maquineta; ela entrega-lhes um molho de papéis e despede-se do cachorrinho. Os que têm menos sorte, como eu, ficam a ver o antigo companheiro passar pela porta com os seus novos donos, a cobiçar-lhe a felicidade.

Hoje voltou a acontecer. Hoje voltei a não ser eu o escolhido. E isso magoa.

Então, se não me queres levar contigo, por favor não insistas! Para de bater no meu vidro e vai-te embora. Não fiques aí a olhar para mim e a sorrir para mim. Porque isso vai dar-me esperança. E eu já não preciso só de esperança. Preciso de um amigo de verdade. Preciso de sair desta caixa.

A Joana Costa escreve ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico.
As imagens são da autoria da Marta Silva.

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