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Educação? Sim, muito obrigado!

Sempre a defendi como princípio básico e estruturante da nossa sociedade, sempre proclamei ser um privilegiado. E pensava assim, mas só hoje o sinto em toda a sua extensão… Passou uma ideia deformada para esta geração de que o estudo era um meio para atingir um fim economicamente mais auspicioso: maior qualificação igual a maior remuneração. Com o aumento exponencial de licenciaturas nas mais diversas áreas é hoje possível discernir que fomos enganados. Um jornalista licenciado ganha, no início de carreira, menos do que um empregado de mesa num restaurante com boas gorjetas ou do que um barbeiro.

O que está em causa não é a contestação desta realidade. A grande maioria aceita-a, como tal apenas a contesta, justificando-se muitas vezes a pergunta: ando eu aqui a estudar três/cinco anos para quê? Esta é, na minha opinião, a questão que tem de ser rapidamente respondida. Para quê? Porque o benefício está no estudo e não naquilo que vamos receber a curto prazo no final de cada mês. Porque somos uns privilegiados ao nos ser permitido viver num mundo onde as férias se estendem por três meses do ano e não três semanas. Porque estamos a aprender, a evoluir constantemente como seres humanos e como cidadãos. Porque, efetivamente, temos ao longo da nossa vida uma probabilidade substancialmente maior de ganhar bastante mais do que os jovens obrigados a lançar as mãos à obra e a trabalhar arduamente desde tenra idade, levando com a vida de frente sem a possibilidade de se desviarem.

No fundo, mais do que a educação, a continuação dos estudos permite-nos conservar a inocência, a esperança, a possibilidade quase infinita de caminhos para percorrer e a liberdade associada a essa escolha. Oferece-nos a capacidade de adiar a racionalidade inerente à vida vivida e deixa-nos permanecer mais uns tempos na vida imaginada, aquela que não tem “se” ou “mas”, em que um dia de estudo com os colegas se transforma num convívio saudável com amigos e, consequentemente, numa noite de copo na mão e gargalhadas do coração.

Portanto, da próxima vez que estiverem com mil e um trabalhos para fazer e muitas páginas para decorar, pensem que muitas pessoas não usufruem dessa possibilidade, e que vocês próprios vão deixar de poder fazê-lo muito em breve.

Baixem os olhos do livro, retirem os óculos, sacudam a preguiça e sorriam à sorte que têm, aquela que possivelmente já não vai existir para o ano…

Sou um privilegiado e sinto-o.

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