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Entrevista a Rúben Martins

Foto Rúben 4

“A seguir a entrar na ESCS, entrar na Academia RTP era a coisa que mais queria na vida”

Rúben Martins está actualmente no terceiro ano do curso de Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social, e no ano passado foi seleccionado para integrar a equipa da Academia RTP 2014/2015. Nesta entrevista, dada na escola que considera a sua segunda casa, explica de que trata o projecto Academia RTP, como foi a experiência de participar nele e o trabalho que levou a cabo enquanto esteve no Porto.

Rúben, explica-nos em que consiste este projecto Academia RTP.
A Academia RTP é, sem dúvida, uma grande escola dentro da própria RTP; é uma academia de criativos. Esta última edição contou com 50 jovens que durante nove meses desempenharam funções no Centro de Produção do Norte, em Vila Nova de Gaia. E o que é que nós fazemos: durante esses nove meses desenvolvemos um projeto original, uma ideia nossa, que propomos à RTP produzir. A RTP depois selecciona, de entre todas as ideias que recebe, as de que mais gosta, e a partir daí nós fazemos um processo de produção: primeiro com a produção de um piloto; depois temos alguma formação, e efectivamente passamos para a fase de produção onde os episódios finais vão ser transmitidos nos canais e nas antenas da RTP.

E o que é que te levou, em primeiro lugar, a querer concorrer?
Em primeiro lugar, por ser a RTP, e por ser a empresa em que eu gostava de trabalhar quando saísse aqui da ESCS. Gostava muito de ter outra oportuni-dade profissional na RTP e começar lá a minha carreira. Acho que é uma grande escola; já formou gerações e gerações, tem 60 anos de história de televisão, tem 80 anos de história de rádio, portanto, foram muitos profissionais formados naquela casa. E acima de tudo revejo-me muito no serviço público que a RTP faz.

Como é que foi o processo de candidatura? O que é que tiveste de fazer exactamente, passo por passo, para conseguires chegar lá?
Então, o processo de candidatura começou com a necessidade de ter de escrever uma ideia inicial, uma sinopse, e descrevê-la. Essa ideia foi enviada para a secção de candidatura da Academia. Depois fui a uma reunião aqui em Lisboa, na sede da RTP, com o Diretor de Conteúdos da RTP, que me questionou acerca da ideia, para eu a definir melhor, para fazer algumas perguntas sobre o projecto e sobre como eu podia concretizá-lo. Depois, fiquei mais umas semanas à espera e entretanto soube que tinha sido seleccionado, no meio de 50, para ir para o Porto.

O que é que significou para ti seres o escolhido?
Na altura foi um misto de emoções, porque, em primeiro lugar, era muito o que eu queria, e acho que, tirando ter entrado na ESCS, provavelmente ter entrado na Academia RTP foi, nesta altura, a segunda coisa que eu mais quis na vida, mesmo. E lutei muito para isso e fiquei muito feliz por saber que tinha entrado. Mas na altura também fiquei um bocado triste por saber que tinha a minha vida aqui, na ESCS; tinha as pessoas de que gosto muito em Lisboa; tinha a minha família cá, e havia de ser complicado partir para uma aventura nova num sítio que eu não conhecia bem, como era o Porto, partir para longe… mas, acima de tudo, foi um grande desafio, e hoje não me arrependo nada de ter tomado a decisão que tomei.

Quanto ao teu projecto, do que é que se trata e como é que foi o seu desenvolvimento?
O Vida de Estrada é um conjunto de reportagens de rádio cujo objectivo é dar a conhecer as diversas regiões do país em torno de uma dada estrada nacional. Em que é que consiste? Em fazeres os quilómetros dessa mesma estrada e contares histórias: as histórias das pessoas que moram e trabalham naquele sítio, porque o país define-se nas suas diversas regiões e nós somos um país bastante plural, com muita diversidade de estilos, de tradição, de tudo isso, e as estradas nacionais são um ponto de ligação entre os portugueses. E acho que nos programas de rádio faz sempre falta um fio condutor: então a estrada é um fio condutor, defini-o logo desde o princípio. E depois: vamos lá escolher quatro estradas para fazermos daqui quatro episódios que definam o que é ser português.

Quais é que foram essas estradas?
Fiz a Nacional 222, que é entre a Régua e o Pinhão e que é a melhor estrada para se conduzir, e que fica na região do Alto Douro Vinhateiro, cujo centro está junto ao Rio Douro. Nessa estrada falei muito sobre o vinho do Porto, e sobre o que é que se faz efetivamente ali para se promover o Turismo e para promover o vinho do Porto. Depois fiz sobre a Nacional 6, a Avenida Marginal, aqui entre Cascais e Lisboa, onde falei sobre ciência, sobre surf, sobre a juventude, como é que todas essas coisas interagem nesta periferia de Lisboa. Depois, fiz também sobre a Nacional 248, que fica entre Torres Vedras e Vila Franca de Xira – não começa bem em Torres Vedras, começa em Runa – mas fica a 40 quilómetros de Lisboa, e o objectivo era perceber como é que as pessoas vivem às portas de Lisboa sem perder a sua ruralidade – e acho que foi um episódio muito bem conseguido, apanhei histórias no decorrer de uma feira oitocentista e gostei muito da experiência. Depois o último que gravei foi o da Nacional 110, que vai de Penacova até ao Entroncamento, e nessa estrada percebi como é que era morar no interior de Portugal. Acho que nós temos sempre aquele grande estigma de como são as pessoas que moram no interior e acho que foi muito giro perceber que há pessoas que querem muito desenvolver a sua terra e querem muito dar a conhecer a sua terra ao mundo, e por isso nos receberam tão bem.

Tiveste muitas ajudas ao longo da elaboração do projeto?
Nem por isso, sinceramente, porque a Academia RTP está mais virada para a televisão do que propriamente para a rádio. No entanto, não me posso queixar das ajudas do pessoal da rádio da RTP-Porto; aos técnicos e aos jornalistas que trabalham na RTP-Porto, também queria agradecer-lhes, e aos meus três colegas de rádio. Eu partilhei um gabinete na RTP-Porto com mais dois colegas, o Miguel Picciochi e o Carlo Patrão, que têm dois projetos – o Miguel Picciochi já emitiu o dele na Antena 3, chama-se 37,5, e o Carlo Patrão tem um, que se chama Rádio Fluxos, que vai para a Antena 2 muito, muito, brevemente.

Quais é que foram os principais obstáculos que tiveste de ultrapassar durante a elaboração do Vida de Estrada?
Em primeiro lugar, o facto de não ter carta de condução! Isto pode parecer estranho, mas nós tínhamos um carro à disposição, para podermos gravar os programas, e tinha de vir sempre mais alguém comigo porque tinha de ser alguém a conduzir. Ter um programa que se chama Vida de Estrada, que implica deslocações às estradas, e não ter carta de condução é um bocado mau, mas dá sempre jeito. Acho que foi o principal obstáculo. Depois houve outro que foi a mudança na administração da RTP a meio do processo. Por volta de Fevereiro houve a polémica com a Liga dos Campeões, e na altura o Conselho Geral Independente acabou por destituir a RTP. Veio uma nova administração e mudou completamente a mentalidade da Academia e nós tivemos muito tempo parados – não parados, porque estivemos a fazer outros conteúdos, mas muito tempo parados em relação aos nossos projectos – o que fez com que alguns colegas tivessem finalizado o projecto deles há dias, quando a Academia já acabou no final de Agosto.

E quanto aos teus colegas e às pessoas com quem estavas, houve obstáculos? Tu foste o mais novo seleccionado do grupo inteiro, houve obstáculos em relação aos outros?
Não. Eu acho que no início era um pouco estranho porque havia pessoal que vinha já em grupos e portanto fechou-se um bocado nesses grupos na primeira fase de produção. Depois houve uma altura em que fomos obrigados a trabalhar em conjunto, e acho que aí se desenvolveram grandes amizades. Claro, há sempre grupos dentro do grande grupo, e eu próprio tinha o meu grupo dentro da Academia: pessoal com quem saía há noite – não era muitas vezes porque também não tinha muito tempo para isso -, mas pessoal com quem jantava e esse tipo de coisas. Efectivamente acho que, apesar de ter sido o mais novo, não foi obstáculo nenhum; foi uma vantagem muito grande, porque poder estar a viver a experiência Academia com 18 anos foi muito bom. Acho que foi a altura ideal, no segundo ano de faculdade. Se calhar no terceiro ano seria complicado porque estava a finalizar o curso, e no primeiro também não sei se teria conhecimentos suficientes para fazer o que fiz na RTP – e por isso acho que foi mesmo na altura certa, e não houve assim nenhum entrave. O único entrave mesmo foi a mudança da administração, que, no meio do projecto, nos fez mudar um pouco a ideologia do que estava a acontecer na Academia.

E como é que era o ambiente no dia-a-dia da Academia, para quem não pôde lá estar?
O ambiente era muito fixe, em primeiro lugar porque não tínhamos horários! Trabalhar sem horários é muito bom porque, no fundo, eu trabalhava por objectivos, que eram “hoje tenho de editar mais um minuto de programa, hoje tenho de escrever mais seis páginas de guião”, e só saía de lá quando tivesse escrito. Se demorasse uma hora a fazer, estava despachado, podia lá ficar mas estava despachado; se demorasse cinco horas a fazer ou se chegasse a meio do tempo e não tivesse feito, podia continuar até achar que o trabalho estava a ser produtivo, portanto, eu acho que foi um grande ambiente – a partilha de experiências, nós trabalhávamos num open-space onde estávamos todos juntos a partilhar informações e conhecimentos, e houve alguns jantares de Academia que foram muito engraçados também. Acima de tudo é bom ver que, apesar de termos todos origens muito diferentes, porque alguns vieram da ESCS – o Guilherme veio aqui da ESCS e foi meu colega na Academia -, outros vieram do Porto, outros vieram de Faro, uns vieram da Animação, outros vieram do Jornalismo, outros vieram da Comunicação Social no geral, foi muito engraçada esta troca de experiências e vivências entre todos.

Como se costuma dizer, estas experiências valem mais que muita teoria junta…
Sim, é verdade. Acho que, acima de tudo, deixarem-nos pôr as mãos à obra vale muito mais do que a teoria, e acho que também é uma vantagem da ESCS e da Academia RTP deixarem-nos fazer as coisas. Ontem referi uma frase que ouvi na altura da Academia, que era da secção regional dos Açores, que dizia que “não é preciso muitos recursos, o que é preciso é darmos tempo de antena a quem tem talento”. E muitas das vezes as pessoas têm um talento enorme e não têm sítio onde expor os seus trabalhos, não têm antena onde passar as suas curtas-metragens ou os seus programas de rádio. Há coisas que são feitas aqui na ESCS que têm imenso talento e que se calhar não saem das paredes da faculdade, tal como há coisas que são feitas na RTP e se calhar passam às três da manhã, ou passam na RTP2, e ninguém as vê. É um bocado triste isso acontecer, mas efectivamente acho que ali deram-nos a possibilidade de as coisas passarem. O meu programa passou num bom horário, um horário médio da rádio, sem dúvida, e estou muito feliz também por ter passado onde passou.

Como é que conseguiste, ao mesmo tempo em que estavas na Academia, manter o curso?
É estranho, porque fiz um semestre em seis dias e fiz outro noutros seis, não passei a tudo, mas passei a quase tudo, portanto, estou inscrito como aluno do terceiro ano sem cadeiras nenhumas em atraso – portanto, se tudo correr bem, este ano fica tudo despachado e espero bem que corra tudo bem, porque eu gosto muito da ESCS mas quero dar um passo em frente… e também não sei o que o futuro me reserva, mas nesta altura estou com os olhos no presente e a viver um dia de cada vez. Às vezes eu vinha cá à ESCS às sextas-feiras matar saudades, também cheguei a ir a algumas aulas de rádio. Tudo é possível. Acho que, acima de tudo, devem tentar fazer o máximo de coisas possíveis ao mesmo tempo que estão no curso, por muito que vos tire horas de sono, por muito que vos tire algumas horas com os amigos – não se esqueçam dos amigos também, porque são muito importantes. Mas também não vivam só para chegar a casa e ver televisão porque isso não vos vai trazer nada de novo.

O teu tempo na Academia já terminou e o teu projecto até já foi aproveitado – uma ideia semelhante levada a cabo pela TSF, que era o Tenda de Campanha. Achas que esta oportunidade e a visibilidade que até já teve noutra rádio vai abrir-te portas no futuro, quando acabares o curso?
Eu espero que sim, gostei muito de que a TSF tivesse pegado na minha ideia, tenho pena de que eles não tenham falado comigo; gostava muito de ter tido uma conversa com o Fernando Alves, pois foi também ele que pegou na minha ideia – talvez um dia consiga ter essa conversa com o Fernando Alves – e gostei muito de a ouvir. Fui um ouvinte muito atento do Tenda de Campanha, e espero que não só a RTP mas tudo o que tenho andando a fazer para além da faculdade me possam abrir as portas para trabalhar no mundo da rádio, que é efectivamente onde eu gostava de trabalhar e que é para isso que eu trabalho todos os dias. Por isso não sei se estou num bom caminho ou não, o futuro o dirá, mas estou a trabalhar para isso.

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Jéssica Rocha nasceu a 27 de Março de 1995, em Lisboa. Fazendo jus às características do seu signo, Carneiro, é de uma teimosia extrema, muito competitiva, criativa e com vontade de melhorar e fazer sempre mais e melhor. Durante a infância quis ser médica, veterinária, professora, bailarina e até bombeira, até chegar ao 9º ano e perceber que era pelas Línguas que o seu futuro passaria. Concluiu o 12º ano na Escola Secundária de Gago Coutinho, em Alverca. Está actualmente no curso de Jornalismo na ESCS e divide o seu tempo entre as aulas, os vários núcleos da faculdade, os amigos, a família e a sua maior paixão - escrever as suas histórias.

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