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Era uma vez…uma máquina de voar

Entrevista a Carla Jorge e Irina Melo
Fotos de Pedro Miranda

Era uma vez duas meninas que sabiam para onde os pais iam quando deixavam os meninos em casa dos avós ou na escola. Essas meninas queriam contar tudo o que os pais faziam aos outros meninos. Então, escreveram um livro, outro, outro e ainda outro sobre os “nossos pais”.

Irina Melo e Carla Jorge são jornalistas na editoria de economia da agência Lusa e a parceria na escrita nasceu com uma brincadeira na redacção. Um dia decidiram compilar as aventuras domésticas de uma colega, que partilhava histórias sobre a relação da sogra com a filha, oferecendo-lhe o exemplar único de a “A minha avó é uma bruxa”. Assim, nasceu o entusiasmo para criar a coleção “Máquina de Voar”, sobre o que os pais fazem, que já conta com 4 títulos.

“Há imensos livros sobre profissões”, reconhecem as jornalistas, mas consideram que “todos têm uma abordagem diferente”.

Irina salientou que por ano se lançam milhares de livros infantis e que “a esperança média de vida de um livro numa livraria é muito curta”.

“Quando nós lançamos um livro, ele está logo no escaparate da Bertrand ou da Fnac. Uma semana depois, já lá está outro”, reforçou Carla.

Por isto privilegiam o contacto pessoal com o público e tornaram frequentes as idas a escolas, bibliotecas ou livrarias. Gostam de promover os livros desta forma, porque assim têm a oportunidade de ouvir as diversas interpretações que as crianças retiram dos seus livros.

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Tanto Irina como Carla não têm filhos, os pais não são polícias, nem as mães professoras. A escolha das temáticas tem a ver com a presença destas figuras nas vidas das crianças. É uma forma “de explicar às crianças o mundo dos adultos”, porque “há sempre aquele dia em que as crianças falam das profissões dos pais nas escolas”, disse Carla.

Os primeiros 2 livros (“A minha mãe é professora” e “O meu pai é policia”) foram publicados em 2013. Ainda no mesmo ano, altura em que o desemprego subiu 17% no nosso país, lançaram “O meu pai está desempregado”.

“Contatando diariamente com a realidade do desemprego e com os números do desemprego, não poderíamos ignorar essa realidade e propusemos essa ideia à editora”, mencionou Carla.

“Nós somos jornalistas de economia e a economia é antes de mais uma ciência social. Embora as pessoas às vezes achem que é só matemática”, completou Irina.

Já em abril de 2015, a figura homenageada foi a mãe (“A minha mãe é… super mãe”), porque “ser mãe implica muito trabalho”.

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O público-alvo é claro, mas aqui os mais velhos não são excluídos, até porque todo o adulto tem uma criança dentro de si. No livro dedicado ao desemprego, que aborda as inúmeras manifestações que decorriam em 2013, há um gato cuidadosamente apelidado de Gaspar, então ministro das finanças, que arranha o pai.

Para Carla Jorge e Irina Melo escrever em conjunto não é uma dificuldade, mesmo quando as separam cerca de 3 horas de voo (os dois primeiros livros foram escritos com Carla em Bruxelas e o terceiro com Irina na capital Belga). Sobre o método de trabalho Irina disse: “Temos uma ideia e alguém começa a escrever, por exemplo, cinco linhas. Se fui eu, depois mando à Carla. Ela corrige as minhas [linhas] e acrescenta mais três ou quatro linhas“.

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Carla Jorge e Irina Melo

Vitória, vitória e não terminou a história. Irina e Carla vão juntar mais volumes a esta colecção. “Vamos continuar a falar de coisas que os adultos fazem. Será ligado à actualidade”, disseram e levantaram a ponta do véu mostrando-se especialmente interessadas em profissões ligadas ao mundo artístico.

Quanto ao livro sobre a sua própria profissão, admitem que está nos planos e que têm recebido vários pedidos para que isto aconteça. Embora mencionem que, dado o panorama profissional, “alguns jornalistas podem comprar o do desempregado”.

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