Opinião

Espírito Espartano

Nós não somos a Grécia”, by Passos Coelho…

Decorem esta frase. Vai acompanhar-vos, pelo menos, até Outubro. Faz hoje duas semanas, mais coisa menos coisa, que a Coligação da Esquerda Radical, mais conhecida como Syriza, venceu as legislativas gregas. Como se esperava, bateu de imediato o pé à Europa: acabou a austeridade (acabou a mama).

Alexis Tsipras fez aquilo que, a meu ver, nós tivemos medo de fazer: dizer basta(!) à Alemanha. Com o ritmo de crescimento económico actual, 0,7% do PIB em 2014, e com a dívida a atingir 180%(!) do PIB demorariam mais de 200 anos a pagar a dívida. Neste momento, a classe média é uma miragem e 35% da população está abaixo do limiar da pobreza (com mais 60% a caminho). Resumindo, a Grécia não está em condições de “deitar dinheiro fora”.

Claro que a Grécia está a pagar o que deve e o que deve é por culpa própria, apesar de ser tão ladrão quem rouba como quem fica à porta, casos do Goldman Sachs e da própria Alemanha, por exemplo. Tal como nós, usaram e abusaram da entrada na UE. No entanto, há limites para tudo. Principalmente quando se trata da vida e dignidade humana.

Tal como em Portugal, a troika fica com tudo o que apanha e o povo esforça-se para apanhar as migalhas que caem. Mas não é preciso estar a par da História para saber que ninguém vive de migalhas. No caso grego, as migalhas são, por exemplo, a privatização de grandes empresas nacionais, menos 25% do salário mínimo, 300.000 pessoas sem electricidade ou falta de cuidados médicos a quem esteja desempregado há mais de 3 meses e não tenha capacidade de os pagar. Se o leão encosta o rato ao penhasco, arrisca-se a ser mordido.

Sempre disse, com as minhas requintadas insígnias, que pagar dívida com cortes não pode trazer bons resultados, pelo menos em tão pouco tempo. Quer dizer, não é a Teoria da Relatividade, pedes um empréstimo para pagar a dívida e aguentares o país porque não tens dinheiro. Ficas com outro empréstimo. Pagas esse empréstimo com cortes na economia. Depois do empréstimo pago com tudo o que tinhas, vives do quê, se vendeste a economia ao desbarato e empobreceste a população? Ou encontras petróleo ou pedes outro empréstimo. Voltamos ao princípio.

Porque é que não se dá tempo a países endividados para pagar o que devem com riqueza em vez de cortes? Se calhar porque há países que enriquecem com as “ajudas” que dão a esses mesmos países, não é, Dona Merkel? Já agora, Angela, responde-me só a isto: não existe a possibilidade de pagar dívidas com tempo, de modo a gerar riqueza enquanto se paga a dívida e não deixar morrer o país? O quê? Isso já aconteceu? Duas vezes aos mesmos?! Mas quem?! Ah…

Para um país que destruiu a Europa, duas vezes em 30 anos, e teve todas as facilidades e mais algumas para pagar as dívidas dessa destruição, a Alemanha não tem grandes dilemas morais quando toca a enriquecer à custa das dívidas dos outros. Outros esses que, apesar de toda a má gestão e corrupção, não têm o registo de mortes a sangue frio dos alemães…

Enquanto Tsipras diz “basta” a tudo isto, Passos Coelho lambe as botas aos alemães. Dizer que Portugal não é a Grécia não é mais do que uma mensagem de estabilidade para os mercados, mas não são os mercados que por cá passam fome. Em honra do espírito Espartano, onde não havia maior honra do que morrer no campo de batalha, a Grécia decidiu que se for para ir ao fundo será a lutar e não a ver. Encostou-se ao penhasco e está a empurrar o leão. Será que seremos capazes de fazer o mesmo ou estamos destinados a cair?

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