Flores e mais flores

Dia 8 de março. Dia que simboliza a emancipação da mulher. As redes sociais repletas de mensagens bonitas com purpurinas digitais. 

Durante este dia magnífico todas as mulheres recebem a benção de ter direito ao dobro da consideração. De repente todos os seres têm alguém para homenagear: a avó, a mãe, a mulher, a filha, a enteada. Todas têm direito a gerbera. Esta é a flor que eu associo a este dia, apesar de normalmente receber uma rosa. Distrações à parte, falemos da mensagem por detrás das gerberas: felicidade, energia positiva, beleza, amor, nobreza.

Significados que, na verdade, são milhares e variam consoante a cultura – sim, porque na verdade temos o ponto de vista egípcio, celta, vitoriano -, será que alguém pensa neles? “Vou levar a gerbera laranja para mostrar à Beatriz que ela é o sol da minha vida” ou “Acho que a Rita vai perceber o amor inconsciente que eu oculto nos outros 360 dias com esta gérbera vermelha”. Quer dizer, Carlos, a Rita só tem demonstrações de amor no aniversário, no dia dos namorados, no dia da mulher, no Natal e, com sorte, no aniversário de namoro e/ou de casamento. Se calhar está demasiado oculto, até.

Andei às voltinhas para chegar ao seguinte ponto: Quem foi o parvalhão que deu a ideia de distribuir flores e presentes neste dia? Pesquisem na internet. Eu não encontrei nada. E aposto que isto começou como uma jogada de marketing de uma marca qualquer – que provavelmente nem vingou. 

Dados históricos para contextualizar: a origem desta data reside numa greve feita em Nova Iorque, em 1857, que pretendia alcançar igualdade salarial, a diminuição de horário de trabalho e direitos iguais; a 8 de março de 1908 outro grupo de trabalhadoras na cidade escolheu a data para uma greve, homenageando as antecessoras; a agosto de 1910, foi proposto, por Clara Zetkin, na Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, a criação de uma jornada anual de manifestações pela igualdade de direitos, durante o mês de maio;  em 1917, um grupo de operárias saiu às ruas na Rússia para se manifestar contra a fome e a Primeira Guerra Mundial. Este dia foi marcado após a revolução bolchevique como a celebração da “mulher heróica e trabalhadora”. Mais tarde, em 1975, a ONU oficializou o dia mundialmente.

A ironia: achei parte desta informação num site de flores. Depois fui ao site da BBC e da TSF, que têm belíssimos artigos que explicam tudo ao detalhe, e verifiquei os factos todos. Na linha de baixo, onde propunha a compra de flores, apelava através da seguinte frase: “Ofereça flores no Dia da Mulher e valorize a sua luta”. Acho que a revolução dos cravos inseriu na cabeça das pessoas que tudo se resolve com flores. 

Soldados das Forças Armadas Alemãs (Bundeswehr) a distribuir flores durante as celebrações do dia da mulher em Berlim. Fotografia de Hannibal Hanschke/Reuters

Nestes momentos, vendia a minha alma para trazer a Simone Beauvoir de volta. Como não posso, eu explico, usando o seu pensamento brilhante. E o meu, que é um pouco menos brilhante. O machismo está intrínseco na cultura. E não, não só na nossa cultura. Mas a nossa cultura não é propriamente um exemplo de evolução. Nem em ações, nem em mentalidades. E não. O machismo não se fica pelo masculino. Desde a bióloga, história e mitos à criação (e acabei de citar os capítulos só porque sim). 

Não querer ter filhos não é ser edgy. Se não temos todos o objetivo de ter profissões alegadamente rentáveis, não temos todos de querer procriar. Gostar de estar sozinha também não é ser amargurada. Ninguém veste algo porque quer atenção. Eu pelo menos não me meto a olhar para o armário e a pensar “será esta a roupa?”. Claro que a roupa é uma forma fácil de explicar todos os problemas existentes. Ou o lugar em que aconteceu. Ou as circunstâncias. Porque culpar a vítima é sempre mais fácil. Mas estas frases quase parecem feitas depois de as ter de ouvir tantas vezes. Chegamos ao cúmulo do ridículo quando um jornal espanhol precisou de fazer referência ao coronavírus para chamar a atenção dos leitores para mais uma morte pela violência doméstica. Porque o tema não capta o leitor o suficiente. Triste, não?

Podemos não cancelar as flores, até porque eu gosto bastante de flores. Cultivo tulipas na minha varanda. Convém é que a admiração por todas as mulheres que fazem parte da vida (e não só) não desapareça no dia 9 e que não nos esqueçamos de que as coisas ainda não estão bem. Os salários desiguais. Números altíssimos de violência doméstica. Inúmeros casos de assédio e violência sexual. As meninas continuam a ter a sua imagem sexualizada quando deviam brincar às bonecas. Vítimas que continuam a ser culpabilizadas por atos que poderiam ser evitados se a cabeça de cima pensasse mais alta, até porque ainda no outro dia ouvi a mais alto. Até porque ainda no outro dia ouvi o meu decote falar comigo e ele disse que não queria nada com ninguém.

Porque as estatísticas que apresentam os problemas acima resolvidos vão ao encontro dos dados apresentados sobre as touradas à ProToiro. Mas se calhar deixo este tipo de práticas equestres para outro artigo.

Valha-nos a Simone para aguentar os restantes dias do ano. 

E Carlos? Não te esqueças da flor.

Artigo revisto por Mariana Coelho.

Autoria da foto em destaque: Michelle Coelho

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