Opinião

Gracinha e as leis da estupidez humana

Hoje venho contar-vos uma história que, embora pareça fictícia, dado o seu carácter estupidamente imprevisível, é a mais pura das verdades. Todos nós já conhecemos a Gracinha, certo? Moçoila pequena, desajeitadamente desastrada, que se aleija das formas mais idiotas de sempre e que, mesmo assim, continua a ser o protótipo de rebeldia ao não andar com protecções corporais. Tudo lhe acontece; é um facto. No entanto, há coisas que, supostamente, só acontecem nos filmes. Pois… supostamente. A Gracinha, que é incapaz de rejeitar um bom duelo com tudo o que a rodeia e ameaça (ou não), decidiu desafiar as leis da estupidez humana (e da gravidade) enquanto jantava calmamente com duas amigas em sua casa.

Ora bem, imaginemos o seguinte cenário: uma cozinha relativamente grande coberta com azulejos que não são bem verdes, mas que também não são azuis nem azuis-turquesa; uma cadeira com detalhes cor-de-rosa que pertencia ao antigo quarto da Gracinha; uma mesa branca, um tanto rabiscada por baixo, com tudo o que as três moças precisariam para poder desfrutar de um bom jantar. Ah, e quatro bancos verdes do IKEA, que, para além de serem frágeis e trapaceiros, são ainda mais dissimulados do que as ditas meias “antiderrapantes” da Gracinha. Todos os ingredientes necessários para proporcionar um serão tranquilo e pacífico às três moças.

Contudo, como “tranquilo” e “pacífico” não são duas palavras que constam no dicionário da nossa pequena Gracinha, esta decidiu, involuntariamente ou não, apimentar a noite em questão. E não, não estou a falar de um cenário escaldante, que deveria levar uma bolinha vermelha no canto superior direito. Estou a falar de um cenário pateticamente hilariante que foi, obviamente, criado às “custas” do desastre ambulante que é a Gracinha. O problema é que esta nova obra graciana, meticulosamente não calculada pela pequena moçoila, envolvia a destruição (e quando falo em destruição não estou a falar de uma forma metafórica) de um dos bancos verdes do IKEA que a Gracinha tinha à sua disposição.

E agora vocês perguntam: “Como assim?”. Fácil. A Gracinha, que ainda se está a questionar sobre se deveria perder algum peso ou não, partiu um dos ditos bancos verdes. Exactamente como se vê nos filmes. Foi em câmara lenta e tudo! Na verdade, a mãe da Gracinha já sabia que aquele banco, no qual a pequena moçoila se decidiu sentar, estava à beira de um colapso, mas decidiu ocultar esse “pequeno” facto. Não sei se a mãe da pequena moçoila estava à espera de que ele se consertasse sozinho. No entanto, se estava à espera de um milagre que curasse o dito cujo, a Gracinha arruinou todas as hipóteses ao limitar-se a repousar calmamente o seu rabiosque lá.

A Gracinha, no momento em que o mundo todo à sua volta ruiu (ok, se calhar estou a exagerar; foi só o banco no qual ela estava sentada que se desfez em pedacinhos), só pensou numa coisa: “Por que é que alguém não gravou isto?”. Com duas amigas sentadas à mesa, como é que nenhuma delas se lembrou de pegar no telemóvel e gravar o momento mais humilhante, engraçado, patético, estúpido e hilariante da vida desta pequena moçoila? Ah, já sei; porque também foi o momento mais imprevisível da história das aventuras da Gracinha; porque nunca ninguém iria adivinhar que o banco seria assim tão frágil para se partir ao mais simples toque; e porque, apesar de o desenrolar da acção ter sido em slow motion, tudo aconteceu demasiado depressa.

E é assim, meu amigos, que se proporciona um jantar de partir o côco a rir. Agora a sério, quando fizerem jantares com os vossos amigos optem pelo estilo de vida estratégico dos japoneses e sentem-se logo no chão. Além de ser muito mais prático, não terão que explicar aos vossos pais o porquê de estar a faltar um banco na cozinha.

CRÓNICA - Gracinha e as leis da estupidez humana - Joana Ochôa (corpo do artigo - Ilustração por Ana Gonçalves)

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