Opinião

Humanidade

Esta semana decidi variar um bocado o meu registo habitual. Em vez de criticar pequenos momentos da nossa sociedade, optei por criticar toda a nossa humanidade, ou falta dela. Para tal, vou usar como metáfora os cenários apocalípticos que me puseram esta ideia na cabeça. Não quero que se prendam muito com a impossibilidade do cenário, mas sim com a infeliz inevitabilidade das supostas acções.

Esta semana voltei a ver os episódios da série “The Walking Dead” que tinha em atraso. Para quem não sabe, a série tem como pano de fundo um planeta, o nosso, onde um vírus transformou quase toda a população mundial em zombies. Mas é nos poucos que sobrevivem que assenta a minha indignação. A falta de humanidade demonstrada por quase todos não me deixa, de todo, indiferente.

E sim, claro que podem dizer: “mas é só uma série de ficção”. Sim, de facto, é só ficção, mas temo que as atitudes tomadas sejam bem “reais”. Pensem na falta de humanidade que temos hoje em dia, muitas (para não dizer sempre) vezes sem termos qualquer risco de vida. Não é difícil prever que, infelizmente, a humanidade mostrada na série, onde o risco de vida é constante, é aquela que mostraríamos em tal ocasião.

Em qualquer filme ou série do género, em que a acção decorra num cenário apocalíptico, acontece sempre tudo da mesma maneira: nós, humanos, acabamos sempre a lutar mais uns contra os outros do que contra aquilo que nos ameaça. É isso que fazemos hoje em dia, todos os dias.

Costumo dizer: “só estamos cá nós neste mundo, se não nos ajudarmos uns aos outros ninguém o fará”. Isto aplica-se tanto a ajudar uma senhora idosa a descer do autocarro como a dividir meia lata de atum, com alguém que acabaste de conhecer, num mundo dominado por zombies. Afinal de contas, é isso que nos distingue dos animais. O nosso instinto não se pode ficar pela sobrevivência. Mais, tem que ir além da convivência.

Voltando à “ficção”: deixa-me frustrado ver meia dúzia de gatos pingados a lutarem uns contra os outros, ninguém perceber que todos juntos seriam mais fortes e pensar para mim mesmo: “se isto fosse real aconteceria assim”. O ser humano, quando se junta, é indestrutível. Porque raio é que estamos constantemente a destruirmo-nos uns aos outros?

Esquecemo-nos demasiadas vezes que nós, com “n” pequeno, está para a vida como aquelas batatas fritas desfeitas e minúsculas estão para o pacote de batatas: não é por elas que compramos o pacote…

Não sei se o que aqui escrevi é perceptível, ou se a mensagem passou de alguma maneira. Nem eu mesmo sei se percebo aquilo que quero dizer. Mas espero que aqueles que leram e perceberam parem cinco segundos para pensar: “o que é ter humanidade?”. Quem sabe, com um pouco de sorte, se esses leitores não partilharão comigo meia lata de atum um dia.

CRÓNICA - Humanidade - Pedro Mateus (slideshow)

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