Opinião

Igualdade. É pedir muito?

Massacre de Sharpeville. No regime do Apartheid foi criada uma lei chamada a ‘Lei do Passe’, que obrigava as pessoas da África do Sul a andarem com um caderno onde tinham escritos os locais que podiam frequentar. Esta lei deu origem a uma manifestação pacífica por parte dos manifestantes, mas que acabou em tragédia: a polícia abriu fogo, matando os manifestantes. Só depois de esta atrocidade acontecer, depois de pessoas com uma vida pela frente morrerem, é que se tornou conhecida a natureza do regime do Apartheid.

Isto aconteceu em 1960, há cerca de 61 anos. 61 anos é provavelmente a idade dos nossos avós ou pais dos que estão a ler este artigo. Com isto quero dizer que isto aconteceu ONTEM.

E Portugal não é um anjo neste processo. Não damos valor ao que se passa cá dentro. As pessoas não têm voz. E o que pensam torna-se insignificante. Provavelmente se a voz saísse do estrangeiro já teriam voz cá dentro.

E é o que acontece aqui quando se fala em discriminação, porque o pensamento é: em Portugal não existe nada disto, não se ouve nada disso. O que é MENTIRA!

Apesar de termos sido o primeiro país a abolir a escravatura, ainda enviávamos escravos africanos para outros países. Ainda tínhamos escravos em Lisboa em 1930. Ainda temos um sistema discriminatório.

Segundo o historiador Arlindo Manuel Caldeira, autor de “Escravos em Portugal – Das Origens ao Século XIX”, “o facto de termos vivido durante muito tempo sob um regime autoritário que se baseava num esforço de propaganda marginalizou estes aspetos e tornou-os muito difíceis de abordar”.

As raízes do colonialismo e do Estado Novo formataram as mentes dos portugueses.

É muito bonito termos um passado glorioso dos descobrimentos, não o desvalorizando, mas nas aulas de história fala-se mais desse “passado glorioso” do que das questões da escravidão.

Há um melhor aprofundamento desse conceito glorioso do que do conceito de escravatura e de direitos humanos.

E o facto é: Portugal não quer lidar com o seu passado racista que ainda percorre nas veias de alguns portugueses.

Carta aberta pede ação política para combater racismo em Portugal
Fonte da imagem: RTP

Se fizermos uma análise do panorama atual, percebemos que ainda há pessoas que não têm noção de que discriminar é crime. E fazem isso em público, nas escolas, na rua, até nas redes sociais.

Atualmente, vemos um jornalista a chegar ao cargo de pivô com todo o mérito e dedicação. Mas por ter a pele mais escura leva com insultos, desvalorização do trabalho, comentários sobre como está o cabelo e questões sobre o porquê de ele aparecer nas capas de algumas notícias. Posso garantir-vos que se fosse um jornalista branco, não havia comentários desses.

Atualmente vemos equipas de polícias preparadas para fechar um café no bairro da Jamaica, mas não vemos três polícias preparados para fechar o restaurante Lapo, que tem andado constantemente a desrespeitar as regras da pandemia.

Atualmente vemos pessoas a serem alvejadas no meio da rua sem uma razão aparente, em que a justificação do assassino é a cor da pele e, portanto, esta não é a terra dele.

Este dia existe e vai continuar a existir para homenagear e dar esperança até que o mundo perceba que não é a quantidade de melanina na pele que define a dignidade e a vida de uma pessoa.

O nosso objetivo com a geração que vai influenciar o futuro próximo é aprender com os erros do passado e não voltar a cometê-los; é educar e ensinar a amar o próximo; é ter empatia.

É lutar pela igualdade. I-G-U-A-L-D-A-D-E.

As pessoas que sofrem de discriminação só querem ter os mesmos direitos e oportunidades que qualquer outra pessoa. Não querem ter mais medos. Essas pessoas querem RESPEITO, DIGNIDADE, LIBERDADE e, acima de tudo, VIVER. É pedir muito?

Fonte da fotografia de destaque: Correio da Manhã

Artigo revisto por Adriana Alves

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Ana Rebelo é licenciada em Ciências da Comunicação pela UAL. Farta da escrita de notícias e reportagens, Ana quis sair dessa prisão e embarcar pela escrita criativa e pela opinião, falando dos seus próprios interesses, sem qualquer obstáculo. De momento, frequenta o mestrado em Audiovisual e Multimédia na ESCS, dá aulas de piano e teoria musical e é músico.

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