Música

Já se anda na Rua da Emenda

Novo álbum de António Zambujo saiu no dia 14 de novembro

    Para evitar que Ricardo Cruz carregasse constantemente o contrabaixo, os ensaios de António Zambujo com os músicos sempre aconteceram na casa do contrabaixista, na Rua da Emenda, em Lisboa. Foi também lá que se fizeram todos os arranjos e se pensaram as canções que tão bem conhecemos do cantor. Rua da Emenda, editado a 14 de novembro deste ano,é o mais recente álbum de António Zambujo, e o primeiro single, O Pica do 7 – de Os da Cidade, já é bem conhecido do público português.

O disco abre com Fatalidade, um tema bem ao estilo animado dos êxitos de Quinto. O ritmo acelerado desce logo na segunda faixa, Valsa do vai não vás, em que a viola dedilhada nos faz ouvir o poema de amor ao pormenor. Em terceiro, chega o Pica do 7, a história da eterna apaixonada por um revisor de eléctrico. É a versão de estúdio do tema d’Os da Cidade – projecto que junta Zambujo a Miguel Araújo, Ricardo Cruz e João Salcedo. Com a participação da Banda de Música dos Empregados da CARRIS (e o vídeo acabadinho de sair, filmado num eléctrico lisboeta), a música, escrita por Miguel Araújo, é a estrela do álbum.

Flinstones, com guitarra portuguesa e viola, é um tema que nos lembra de novo que estamos a ouvir um álbum de fado – um fado bem especial que é o de Zambujo. Vamos continuando a ouvir e a sonoridade mais ou menos constante de Barata Tonta, Valsa de um Pavão Ciumento, Canção de Brazzaville e Despassarado (com guitarras de Pedro da Silva Martins e Luís José Martins, dos Deolinda) não nos surpreendem. É uma sequência de canções descansada e que sabe bem ouvir. A surpresa é quando chega Zamba del Olvido, um original do uruguaio Jorge Drexler. Não estamos habituados a ouvir António Zambujo a cantar em estrangeiro, mas este disco traz duas novidades a esse respeito: esta, em castelhano, e La Chanson de Prévert, a penúltima faixa, em francês.

Até ao fim, a sonoridade vai-se mantendo. O Último Desejo, Pantomineiro, O Tiro pela Culatra e Valsa Lisérgica são bonitas canções e mantêm a qualidade que o nome de Zambujo promete. Cada um com uma história particular para contar, os poemas são construções bem feitas e ouvem-se com facilidade.

Depois do tema em francês, chega a última música. Viver de Ouvido é diferente. Gravada com um telemóvel, é a única música do disco que se volta para o futuro do cantor alentejano. Ao longo do disco vamos, essencialmente, reconhecendo um estilo conhecido – nada nos parece fora do lugar. É o objetivo do álbum: fecha-se um ciclo, de acordo com aquilo que afirma António Zambujo. Após seis álbuns a construir uma sonoridade característica, adicionando instrumentos e convidando autores, Viver de Ouvido retorna à simplicidade da voz e da guitarra, em jeito de um novo recomeço.

É de ficar então à espera do que nos reserva para um futuro próximo António Zambujo. Até lá, vamos passeando pela Rua da Emenda, um álbum delicioso que nos ajuda a recordar o percurso do fadista até aqui e que ainda nos deixa perceber que, entretanto, havemos de ir a outras ruas.

Já se anda na Rua da Emenda - João Francisco Gomes - Música

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