Opinião

Lavandarias verdes – o lado B da sustentabilidade

Ainda Greta Thunberg estava longe de ser concebida, presumivelmente numa cama presumivelmente sueca (e presumivelmente da IKEA), quando o ativista norte-americano Al Gore começava a alertar os seus concidadãos para a necessidade de se levar a cabo uma viragem no sistema de produção de mercadorias a nível global, de forma a travar as consequências ecológicas que poderiam, a prazo, danificar irreversivelmente o planeta.

Duas décadas se passaram desde a derrota de Gore nas presidenciais de 2000 frente a George Bush filho. Nunca saberemos que mundo teríamos caso o candidato democrata, um visionário nas questões da ecologia, tivesse vencido aquele disputadíssimo sufrágio. O que sabemos hoje é que, muito por obra e graça das Skolstrejk för Klimatet de Greta, toda uma geração parece finalmente acordar para a necessidade de, para ontem, contribuir com práticas sustentáveis que visem travar e reverter o desequilíbrio ecológico em curso.

Sabe-se hoje que um dos segmentos da economia que mais contribui para a acumulação de lixo e delapidação do património da Terra é a indústria da moda e vestuário. Nos últimos tempos, a palavra “sustentabilidade” entrou de rompante na estratégia de comunicação das lojas da chamada fast fashion. Estas servem, essencial e primordialmente, os jovens, jovens esses que cada vez menos parecem interessados em contribuir para um regime de produção em massa e linear que consiste em comprar novo, usar e deitar fora os produtos quando o ciclo de vida útil finda – lixo esse que, por norma, vai parar a aterros ou é incinerado a céu aberto, longe dos olhares dos ocidentais.

Assim, multiplicaram-se (e multiplicam-se), como coelhos na Austrália, as lojas de roupa em segunda mão e roupa vintage, quer físicas, quer online, que pregam a sustentabilidade e se afirmam como alternativas mais éticas em relação às lojas de fast fashion. Sinto que, talvez, enquanto sociedade, ainda estamos num estágio muito inicial a respeito destes novos modelos de negócio, pelo que o deslumbramento ainda reina. Como nem tudo o que parece é, há sempre partes e pessoas que se portam mal e tiram proveito de contextos de negócio favoráveis, assim como das boas intenções dos consumidores. 

Começando pelas lojas físicas, existe uma que se destaca claramente em Portugal: o franchising Humana, que conta com 15 lojas no país, a maioria situada nas duas cidades mais populosas. Esta empresa que apregoa sustentabilidade só recentemente começou a ficar conhecida do grande público em Portugal.

No entanto, como comprova esta notícia da TVI de 2007, a Humana, entre outras empresas semelhantes (o modelo consiste em, supostamente, recolher doações de roupa e fazê-la chegar a países em desenvolvimento, assim como desenvolver projetos de assistência humanitária), já há largos anos se encontra a ser vigiada nos Estados Unidos, pelos jornalistas e pelo FBI, devido a suspeitas de corrupção, fraude, desvio de dinheiro, branqueamento de capitais e evasão fiscal.

Segundo a notícia, já em 2007 a roupa doada era afinal vendida às pessoas desses países subdesenvolvidos, destruindo a economia local. Tudo feito por voluntários aos quais são dados poucos ou nenhuns apoios nas missões que efetuam em países do continente africano ou asiático. Para fechar uma tripleta de ética luxuosa, os lucros obtidos não são tributados e acabam em paraísos fiscais em cerca de 85% dos casos, de acordo com a reportagem do canal espanhol La Sexta.

Fonte: humana-portugal.org

Dois anos depois da reportagem do canal espanhol laSexta, em 2016, o programa de jornalismo de investigação da RTP, “Sexta às 9”, também se debruçou sobre as suspeitas que incidem sobre a Humana. De acordo com a investigação, são conhecidas as ligações da Humana ao grupo dinamarquês Tvind, também conhecido como Teachers Group – uma instituição que diz promover programas de educação em países em desenvolvimento, fundada em 1970. 

Desde os anos 90 que decorrem investigações ao grupo por se achar que são uma seita política disfarçada de organização de solidariedade. Em 2006 e 2009, dois membros da Tvind foram inclusivamente presos. Cinco membros, entre os quais um dos fundadores, Mogens Amdi Petersen, continuam a ser procurados pela Interpol. As últimas informações conhecidas sobre o paradeiro de Petersen remontam ao ano passado, em que foi visto numa loja no México. Anteriormente, em 2017, o primeiro-ministro dinamarquês à data tentou alcançar um acordo de extradição com o México para deter Petersen, à luz de uma sentença de detenção de 2013, na Dinamarca, mas não foi bem-sucedido. 

Existe uma página de Facebook intitulada “Tvind Alert”, à qual está associado o site https://www.tvindalert.com, onde continuam a ser revelados desenvolvimentos ou testemunhos acerca das atividades do grupo Tvind e as suas ligações suspeitas a ONGs como a Humana, Planet Aid, Gaia e DAPP. No entanto, o fundador do site, Mike Durham, antigo jornalista do Independent e do Sunday Times, retirou-se do projeto em 2017, fazendo com que o fluxo de informações baixasse. 

Recorde-se que a Humana afirma ter como finalidade “a ajuda humanitária internacional em países e comunidades mais carenciadas mediante a implementação de projetos de ajuda e cooperação para o desenvolvimento no âmbito da educação, cultura e assistência”. Portanto, em resumo, trata-se de uma empresa que tem custos irrisórios – pois a maioria dos funcionários são voluntários e a roupa provém de doações –, não paga impostos (por ter o estatuto jurídico de ONG), viu o financiamento da UNICEF cortado por falta de transparência e apenas uma pequena parte dos seus rendimentos é efetivamente canalizada para aquilo que deveria ser o propósito primeiro da associação: a ajuda humanitária (em Portugal, à data de 2016, apenas 13% dos rendimentos foram usados em projetos de solidariedade).

É, assim, ao que parece, uma empresa que comercializa roupa e que, por acaso, faz alguns projetos humanitários, quando a lógica de prioridades deveria ser a oposta. Uma fast fashion das lojas em segunda mão. 

A Humana pode não ganhar prémios de ética, mas leva, sem discussão, o prémio de greenwashing mais bem-sucedido da história, muito antes de esse termo sequer existir. É claro que a Humana e a Humana Portugal repetidamente desmentem as ligações ao grupo Tvind, apesar de ambas as organizações terem sido fundadas pelas mesmas pessoas e a Humana ter sido pensada para atuar de forma complementar à da Tvind, uma vez que os objetivos eram semelhantes.

Efetivamente, a Humana, enquanto organização, nunca foi, ao que se sabe, punida juridicamente. No entanto, o clima de suspeição e o acumular de processos sobre pessoas que, direta ou indiretamente, têm ou tiveram poder de decisão dentro da Humana é motivo mais do que suficiente para evitar doações ou compras nas suas lojas.

Mais recentemente, têm proliferado lojas em segunda mão online que utilizam como canal de comunicação preferencial a rede social Instagram. Embora, no caso português, se possa argumentar que é um segmento ainda com pouca oferta de vestuário masculino, o que restringe o mercado de compradores, a verdade é que se tem criado uma autêntica comunidade.

O crescimento é acelerado e o mote é sempre o mesmo: a promoção da sustentabilidade e da economia circular. Como há sempre um “mas” e pessoas mal intencionadas, e como é uma modalidade de negócio relativamente recente, é preciso cuidados redobrados para capturar greenwashers em potência.

Segundo Margarida, confessa compradora neste tipo de lojas, que recentemente se lançou com a sua própria, a @looking_green_store, há essencialmente quatro tipos de pessoas a atuar nestas lojas. Primeiro, as que se propõem a vender roupa que têm em excesso e, terminado o propósito, encerram a loja. Segundo, as que adquirem, a grosso, roupa que teria como destino o lixo e daí retiram uma margem de lucro. Terceiro, as que andam pela Internet, em plataformas como Facebook Marketplace, OLX, entre outras, à caça por peças únicas que possam interessar à sua comunidade de compradores, sendo remuneradas pela manutenção que fazem às peças (muitas vezes estas vêm com algum defeito que é corrigido, lavando, cosendo ou colando).

Até aqui tudo parece dentro de parâmetros razoáveis de ética. O problema surge com o quarto tipo de lojas: pessoas que não têm realmente os produtos na sua posse e que os publicitam através de fotografias que retiram da Internet, de plataformas como o AliExpress: uma prática também conhecida como drop shipping. Caso o cliente esteja interessado em comprar a peça, o vendedor adquire-a no AliExpress ou noutro site de e-commerce semelhante, vendendo assim uma peça que diz ser vintage ou em segunda mão, quando na verdade não o é. 

De que forma pode, então, o comprador, num mercado cuja regulação é reduzida e os riscos de burla elevados para incautos, esquivar-se dos greenwashers e apoiar as lojas que efetivamente promovem a reutilização e a sustentabilidade? Sara, fundadora da @clepsydra.pt, aconselha alguém que nunca tenha comprado roupa numa loja em segunda mão online a começar por comprar numa página com um grande número de seguidores.

Dessa forma está a entrar na comunidade através de uma plataforma à qual já é reconhecida fiabilidade e confiança. Outro conselho útil é optar por páginas que revelem a fonte das suas peças, pois isso é um indicador de transparência da atividade. E deixa um truque para apanhar praticantes de drop shipping: pedir fotografias com a peça vestida ou pedir fotografias de várias peças à mesma loja, de modo a conferir se o local e o tipo de fotos batem certo. 

Em resumo, afirma que o que é fundamental é mesmo estar envolvido e informado sobre os procedimentos, fazer todas as perguntas necessárias e desconfiar de estratégias de marketing que promovam de forma agressiva o conceito de sustentabilidade. No caso das lojas em segunda mão do Instagram, uma vez que já existe uma comunidade com alguma dimensão, a falta de regulação legal é colmatada com denúncias que as próprias páginas vão fazendo quando detetam situações de fraude ou de greenwashing, acabando por existir um mecanismo de auto-regulação que deixa os consumidores um pouco menos desamparados.

A sustentabilidade virou moda. Enquanto tal, atrairá sempre oportunistas que aproveitam para surfar a onda e lucrar à custa da desinformação e das boas intenções das pessoas. Facilmente, podemos compactuar inconscientemente com modelos de negócio pouco éticos ou mesmo criminosos, caso não estejamos devidamente informados sobre eles. As grandes marcas de fast fashion já se encontram em processo de greenwashing para evitar prejuízos de faturação presentes e futuros. Está e estará no consumo informado a resposta para a revolução necessária na indústria. De nada vale uma consciência tranquila à mercê do marketing dos greenwashers. Faz mais pela sustentabilidade uma consciência informada do que uma consciência tranquila.

Corrigido por Adriana Alves

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