7ª Arte

LEFFEST: O ‘Meta’ Desprezo de Godard

Penúltimo dia do Lisboa & Estoril Film Festival e prosseguia a merecida homenagem a Jean-Luc Godard. O destaque da sessão deste sábado vai para O Desprezo, uma das primeiras obras do cineasta francês e também uma das mais aclamadas do seu currículo. Realizado em 1963, baseando-se na premissa do romance de Alberto Moravia, também do mesmo nome, O Desprezo engloba um conjunto de temáticas que são visadas de modo satírico e que culminam num ensaio existencial sobre a vida e o amor – algo em que Godard era (e ainda é) mestre.
A sua genialidade evidencia-se logo na primeira metade da narrativa, onde se debruça sobre o estado da sétima arte da sua época. Aproveitando o conjunto de personagens que desenvolveu, transforma um debate nos bastidores das filmagens da fictícia adaptação cinéfila da Odisseia de Homero numa crítica rica e inspiradora, adornada com um cunho pessoal – a presença do próprio Fritz Lang, um dos grandes inspiradores de Godard. Ao incluir o reconhecido realizador austríaco na sua trama, consegue anexar o seu próprio mundo ao mundo da ficção, o que, aos meus olhos, valoriza a sua obra com honestidade de pensamento crítico.
O paralelismo de Godard, aliás, está presente na totalidade do filme. Como já referi, o tema do amor e do propósito da vida são os elementos mais destacados em O Desprezo, que mereceram profunda análise. Agora, lanço a questão: qual a melhor maneira de trabalhar o tão assustador escrutínio existencialista de modo a causar impacto e dar mais brilho à obra? Através da metafísica, recheada de simbolismo.
Esta, uma das mais fascinantes técnicas das quais sou apreciador e que parece ter caído em desuso atualmente, é utilizada para transpor um pouco da vida de Godard para o grande ecrã, além de associar outros elementos secundários do filme à trama principal. A tríade composta pelas personagens de Jack Palance, Brigitte Bardot e Michel Piccoli assemelha-se muito ao papel que Ulísses, Penélope e Poseidon desempenham na epopeia de Homero, impossível de se dissociar desta narrativa. Também a química (ou falta dela) entre Camille (Bardot) e Paul (Piccoli) demonstra parecenças deliberadas com a relação de Godard com a então esposa, Anna Karina, a musa das suas inspirações. Ainda que O Desprezo tenha sido realizado dois anos antes da separação do casal, provavelmente o cineasta já estaria a transmitir a dor e mágoa que poderia estar a sentir aquando da produção do filme. Se foi este o caso, julgo que não haverá modo mais direto e genuíno de expor as debilidades amorosas como exibi-lo perante uma plateia. Godard atingiu a sua meta.
Muito ponderado e crítico, sempre com diálogos e cenas introspetivas que servem de ignição para o nosso pensamento, Godard foi génio da metafísica em O Desprezo. Aliou atores corretos à história perfeita, esmiuçou os tópicos que circulavam na sua mente e apresentou aos espectadores o seu mundo. Um mundo fictício, mas que não o é, uma realidade que não foge à realidade, emoções e situações complexas que só Jean-Luc Godard consegue gerir e transformar em arte. Fazem falta filmes como este.

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