O recente surto de Legionella tem dado muito que falar e, por isso mesmo, é a melhor notícia dos últimos tempos para o Governo. Enquanto as pessoas falam disto e tomam banho de porta aberta para não fazerem vapor de água, não falam do Governo. Eu lamento, devo dizer. Queria ver as pessoas a falar sobre o Pires de Lima ter parecido um ventríloquo na Assembleia da República, mas, por outro lado, podia levantar-se sempre a questão de quem era a mão que o manipulava (e todos sabemos por onde são manipulados os ventríloquos) e era desagradável. Ser o Donaltim não é fácil.

O Governo tem razões para celebrar a Legionella, mas não é só por ninguém falar da acção do Executivo. Isto da Legionella também vem ajudar num dos capítulos mais dramáticos da economia portuguesa: o desemprego. Por um lado, podem ser infectadas pessoas empregadas, o que faz com que haja gente que sai do desemprego. Por outro lado, podem ser infectadas pessoas desempregadas, o que, no caso de o desenlace ser o mais negro, acaba por contribuir para reduzir a taxa de desemprego. Só vantagens.

Eu não sou partidário das teorias da conspiração, mas não deixa de ser engraçado que o surto tenha aparecido uma semana depois de a Troika ter mandado um recado na caderneta do (até aqui) bom aluno, por ter falhado um trabalho de casa. Algo como: “eras tão certinho e agora isto? Deve ser das companhias”. Não é por nada, mas cheira a castigo. Nem que seja castigo Divino.

Um dos pontos que mais deram que falar foi o do Director-Geral de Saúde, Francisco George, ter dito que não se devia tomar duche e mais umas coisas que envolviam lixívia. Passou-me um pouco ao lado, porque quem anda de transportes públicos sabe perfeitamente que não haveriam de ser os banhos a espalhar a maleita. Aquilo que me fascinou, para além de Francisco George ser a pessoa mais parecida com o Homem do Buçaco, foi o nome do senhor. Acho que deviam ser todos assim. Tínhamos um Governo liderado por Pedro Steps Rabbit e Paulo Doors, e uma oposição com um senhor chamado António Coast. Já não nos ríamos só com o Pires de Lima.

Quem deve estar em alvoroço deve ser todo e qualquer feminista. Por que é que uma coisa tão má como esta doença se chama Legionella e não “Legionelle”? “É assim que se vê que Portugal ainda é um país retrógrado e que não respeita a igualdade de géneros”, parece que os ouço dizer.

Em suma, isto do Legionellagate é uma coisa que já se sabia que mais cedo ou mais tarde ia acabar por acontecer. Em Portugal, tantos anos a varrer para debaixo do tapete só podia resultar em doenças respiratórias.

 

 

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