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Ler: um hábito em vias de extinção?

Em que medida o advento dos social media alterou os nossos hábitos de leitura? A interrogação é o pontapé de saída para esta proposta de reflexão. Há dias, li um artigo no jornal PÚBLICO, no qual o antropólogo Tok Thompson anunciava uma ideia controversa: a de que ler é um comportamento em vias de extinção. Na minha opinião, trata-se de uma visão desmesuradamente apocalíptica. Na verdade, os hábitos de leitura sofreram alterações drásticas ao longo dos últimos anos, não podemos negá-lo. Mas daí a profetizar o seu fim parece-me um exagero. Quando, no século passado, a televisão se democratizou, houve quem anunciasse a morte da rádio. Ora, como sabemos, a rádio sobreviveu a tais profecias e até conseguiu reinventar-se. No fundo, não está em causa o fim da leitura, mas antes o(s) modo(s) como lemos.

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Ilustração de Rute Cotrim

Para escrever este artigo, conversei com alguns amigos, os quais foram unânimes ao referir que, de facto, a Internet, em especial os social media, alterou os seus hábitos de leitura, verificando-se uma redução do acto de ler, nomeadamente no que diz respeito a suportes físicos (leia-se livros). É incontestável que, hoje em dia, despendemos cada vez mais tempo em frente a suportes digitais (computadores, smartphones e tablets), o que acaba por se reflectir nos nossos hábitos de leitura. Num exercício de auto-análise, admito que, nos últimos tempos, leio menos livros e demoro mais tempo a ler um livro. Mas não deixei de ler. Aliás, até acho que leio mais. Mas, em vez de um livro de 300 páginas, acabo por ler uma imensidão de artigos, notícias, reportagens, e afins, com os quais me cruzo diariamente nas plataformas de social media. O Facebook é o meu novo quiosque/livraria.

Se é verdade que alterámos os tradicionais hábitos de leitura, em contrapartida, adquirimos outros. “Acrescentou novos hábitos mas os antigos cá andam”, disse-me uma amiga que é uma leitora religiosa. O facto de lermos cada vez mais em suportes digitais impõe um desafio aos produtores de conteúdos: criar narrativas digitais adaptadas às necessidades do novo leitor. Bem-vindos à era da nova literacia! Mas todas as novidades acarretam perigos e, como sabemos, a Internet está infestada de lixo. A World Wide Web é um repositório global de informação. Mas há que saber seleccionar o que se lê. E quem escreve tem que saber fazê-lo. É uma responsabilidade que cabe a cada um de nós, principalmente numa era em que a produção individual abre portas a uma produção colectiva. Todos somos produtores de conteúdos, mas nem todos temos as competências para fazê-lo correctamente.

Ainda assim, foi com surpresa que, num outro artigo que li, verifiquei que, no âmbito académico, os estudantes ainda dão primazia aos materiais impressos, alegando que estas fontes são mais confiáveis. Quem diria… Afinal, os Velhos do Restelo que demonizam a Internet, em particular os social media, responsabilizando-a pela morte de todos os bons costumes, deviam estar mais atentos àquilo que se passa à sua volta, analisando os novos comportamentos dos indivíduos.

Concluindo, os livros estão vivos e recomendam-se. E nós continuaremos a lê-los. Assim como continuaremos a ler uma infinidade de outras coisas. As narrativas continuarão a fazer parte das nossas vidas. Porque um clássico continuará sempre a ser um clássico (seja em papel ou num dispositivo digital).

(Este artigo foi escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico.)

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Diz que é o cota da ESCS MAGAZINE. Testemunhou o nascimento do projeto, foi redator na Opinião e, hoje, imagine-se, é editor dessa mesma secção. Recuando no tempo... Diz que chegou à ESCS em 2002, para se licenciar, quatro anos mais tarde, em Audiovisual e Multimédia. Diz que trabalha há nove no Gabinete de Comunicação da ESCS – também é o cota lá do sítio. Diz que também por lá deu uma perninha como professor. Pelo caminho, colecionou duas pós-graduações: uma em Comunicação Audiovisual e Multimédia (2008) e outra em Relações Públicas Estratégicas (2012). Basicamente, vive (n)a ESCS. Por isso, assume-se orgulhosamente escsiano (até ser cota).

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