7ª Arte

Logan Lucky

Dois irmãos em busca de dinheiro, um perito em explosões, um complexo sistema de tubagem e Charlotte Motor Speedway. Estes são os ingredientes de Logan Lucky, o novo filme de Steven Soderbergh, realizador de Erin Brokovich e Magic Mike, entre outros.

Logan Lucky torna-se especial por se assemelhar à premissa da Trilogia Ocean’s, talvez o mais reconhecido trabalho do cineasta americano. São apresentados de modo pormenorizado os preparativos de um plano de assalto meticuloso e a consequente golpada final. Ainda assim, ambos acabam por se diferenciar em vários aspetos.

A narrativa decorre na Carolina do Norte, mais especificamente na pista de velocidade Charlotte Motor Speedway, que recebe a prova Coca-Cola 600 do campeonato de NASCAR. Um crime a alta velocidade protagonizado por personagens contundentes e distintas da elite de Danny Ocean. Jimmy Logan (Channing Tatum) e o seu irmão Clyde (Adam Driver), por mais cuidadosos que sejam, apresentam imensas dificuldades em fazer com que o seu plano corra como esperado. Esta situação acentua-se quando pedem ajuda a um tresloucado recluso perito em explosivos, Joe Bang (Daniel Craig), para entrarem no sistema de tubagem montado por baixo da pista. Contrastando com a simplicidade da oval de Charlotte, o percurso deste assalto tem tantas curvas e contra-cruvas como o Circuito do Mónaco.

Protagonistas com um absurdo sentido de humor tornam a comédia de Logan Lucky um caso singular em filmes deste género. Estas idiossincrasias favorecem a narrativa no seu todo, até porque esta acaba por se perder numa maré de monotonia em certos momentos. Não fosse o elemento distintivo das personagens, muito possivelmente o olhar dos espetadores seria desviado do objetivo principal da história.

Mas vamos por partes. Já se sabia de antemão que não se tratava de um filme de ação. E, conhecendo as obras de Soderbergh, a atenção que dá ao detalhe para que a audiência compreenda a execução criminal, inibe, de certa forma, o ímpeto da adrenalina.

Consegue-se entender o ritmo mais pausado durante a preparação para o clímax da história: cenas não muito apressadas, mas que conseguem captar a atenção e curiosidade do público, servindo como meio de desenvolvimento das personagens e explicação das suas motivações. Um excelente toque de qualidade que Soderbergh aufere ao guião em benefício da narrativa, mas cuja continuidade não é assegurada no segundo ato – a realização do assalto, o ponto chave de todo o filme.

Cenas mal articuladas e demasiado extensas com pouco conteúdo durante a execução do roubo deixa Logan Lucky algo a desejar na fase de maior importância para o desenlace. A história podia ter sido reduzida em vários minutos e só ficava a ganhar. Dá a sensação de ter sido prolongada apenas com o objetivo de chegar à duração de duas horas. Pouco ou nada de mais valor para a narrativa aprendemos: não exploram outras características dos protagonistas e acaba por apressar o final do filme. Pedia-se maior destaque na parte conclusiva da narrativa.

No entanto, não me baseio nessa situação pontual para atribuir uma avaliação negativa a Logan Lucky. Steven Soderbergh volta a mostrar a sua mestria enquanto realizador, provando ainda ter muito para dar à Sétima Arte, conseguindo entreter o público de forma cativante e criativa com o seu cunho pessoal. Para além disso, a forma como o elenco (do qual fazem ainda parte Katie Holmes, Hillary Swank, Seth MacFarlane e Sebastian Stan) vive inteiramente as personagens ajuda a torná-las mais verosímeis e naturais, engrandecendo o filme.

Por fim, ainda que apresentada a correr, a parte final acaba por responder a todas as questões e volta novamente a explorar o lado humano e moral dos protagonistas. Bons diálogos, humor inteligente, conclusão intrigante- consegue-se sair satisfeito da sala de cinema não obstante as pequenas falhas na narrativa.

Logan Lucky não é perfeito nem é que mais se destaca dentro do género criminal. Apesar de muito inclinado para a cultura americana e com pequenas lacunas na sua construção, recomendo a sua visualização. Soderbergh mantém os pés bem assentes no chão e consegue elaborar duas horas de bom entretenimento para toda a família, provando a sua especialidade no cruzamento entre crime e cinema.

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