7ª Arte

Luís Ismael é uma lufada de ar fresco no cinema português: afinal, quem não gosta de pipocas e Coca-Cola?

Luís Ismael, mais conhecido como o “Tone” de Balas & Bolinhos, é hoje um realizador de sucesso internacional. Será que é desta que vamos poder diversificar um pouco o consumo de filmes portugueses? Há luz ao fundo do túnel para além do cinema de autor e dos filmes noveleiros e teatrais? Eu acho que a esperança pode ser depositada no realizador, ator e empresário portuense.

Fonte: Instagram oficial de Luís Ismael

O cinema nacional tem sido criticado, quer interna, quer externamente por vários motivos, tais como: a falta de artifícios, de enredos e a ausência de investimento na componente estética e realística. Não é fácil conseguir subsídios e apoios no cinema português – a lógica está um pouco trocada e quando realmente há possibilidade de se fazer uma longa-metragem raramente temos acesso a um trabalho que não seja cinema de autor ou projetos experimentais. São géneros importantes e uma forma de fazer cinema extremamente valiosa, porém não é comum vermos o reflexo da americanização nos nossos filmes. Se olharmos para os nossos vizinhos espanhóis, encontramos uma diversidade muito maior, uma variedade de registos que inclui, logicamente, grandes produções de ação, suspense, thrillers, ficção científica, filmes históricos, etc. Será que em Portugal isso não acontece apenas por falta de capacidade financeira? Na minha opinião, o fator decisivo não é esse. Paira um sentimento preconceituoso nas fidalguias d’Aquém e Além-mar, que tem raiz logo nas escolas de formação. É bom que se diga que tudo o que é demais enjoa, bem como que todo o fundamentalismo é prejudicial para o crescimento das indústrias. Há espaço para tudo, mas já desesperava por um cinema português que combina o enriquecimento com o entretenimento – que tanto dá primazia ao rigor histórico e narrativo, como destaca e focaliza as questões técnicas que permitem experiências sinestésicas bem desafiantes.

O lendário “Tone”, personagem da saga Balas & Bolinhos, tem vindo a mudar o seu registo e a desafiar-se ao explorar um cinema com muito pouco espaço em Portugal, não pela falta de público, mas porque os realizadores portugueses têm uma visão muito própria do seu estilo de cinema. O que é facto é que há poucos a ter a oportunidade de fazer um filme – se o mercado não for grande e se o jogo estiver viciado, não há forma de propiciar uma inversão no trajeto do cinema português. Iremos continuar nas ruas da amargura, a proferir lamentações, a acusar o público português de querer “novelas, pipocas e Coca-Cola”, como diz um senhor conhecido – no fundo a perpetuar a inércia no setor.

Fonte: Instagram oficial de Luís Ismael

Uma lufada de ar fresco é aquilo que Luís Ismael tem trazido ao cinema português. Um estudante de cinema que nunca pensou que passar alguns minutos com uns trolhas fizesse expandir uma luz ‘eurekiana’ que levou à realização de uma brincadeira chamada Balas & Bolinhos – a espontaneidade e a máxima de não se levar demasiado a sério permitiu a Luís Ismael atingir um público muito singular e em pouco tempo o filme independente já chegava a todos, marcando para sempre o cinema de comédia em Portugal. Em 2004 (Balas & Bolinhos – O Regresso) e 2012 (Balas & Bolinhos – O Último Capítulo) fecham esta famosa trilogia que é marcada por participações de nomes como Fernando Rocha, Francisco Menezes, Pedro Alves, Otávio Matos, entre outros.

Os holofotes voltam a estar apontados à performance do realizador portuense de 49 anos quando este decide lançar Bad Investigate, tendo um papel ativo como realizador, argumentista e ator – contracenando com Enrique Arce, estrela no sucesso planetário La Casa de Papel – num filme que flutua entre o policial, a ação e a comédia – esta última já seria de esperar. Quase nem houve tempo para apreender o sucesso de Bad Investigate, e Luís, juntamente com a produtora Maria Pacheco, volta a produzir um filme internacional: Sefarad. Desta vez, a comédia fica de lado e o enfoque está em contar a história da comunidade judaica do Porto (1496). O filme estreou na Amazon Prime e teve a atenção de muitos cinéfilos no festival de cinema de Miami, em 2019, no qual arrecadou vários prémios.

Fonte: Instagram oficial de Luís Ismael

Luís prometeu fazer estrear a longa-metragem 1618. Contudo, a pandemia veio atrasar a estreia da obra que já ganhou prémios. O filme que deverá estrear em 2021 fala de novo sobre a comunidade judaica, mas de um ponto de vista não muito conhecido. Reza a história que a Santa Inquisição, no século XVII, tentou meter o bedelho na cidade Invicta e que foi expulsa de lá. Para além do rigor histórico e da vasta pesquisa que foi necessária, Luís Ismael confessou, numa entrevista ao podcast Maluco Beleza, de Rui Unas, que tiveram cerca de 16 meses de pós-produção para poderem recriar 1618 na cidade do Porto, com tudo o que isso implica. Recomendo vivamente que vejam o trailer, já disponível, do mais recente trabalho do eterno “Tone”, que se foi tornando, pouco a pouco, num realizador prático, pragmático, descomplicado e com uma visão muito técnica, estética e perfecionista dos seus filmes que até agora tem trazido sempre ao grande ecrã narrativas que prendem efetivamente o espetador.

Espero que mais trabalhos deste género surjam, porque sinto que nós, portugueses, temos capacidade para agigantar o nosso trabalho. Com a mentalidade e estratégia certas, nesta era global, há obrigação de mostrar que também sabemos fazer este tipo de cinema. Enquanto o mercado interno for dominado sempre pelos mesmos e pela retórica elitista, será invariavelmente uma missão madrasta. Sou suspeito, gosto de História e de ser entretido. Qual é o mal de se gostar de pipocas e Coca-Cola? Acho que tanto eu como o Luís gostamos.

Artigo redigido por Gonçalo Borbinha

Artigo revisto por Constança Lopes

Fonte da imagem de destaque: IMDb

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O meu sonho, para além de conseguir aprender a jogar xadrez, é tornar-me num homem dos sete ofícios da área da comunicação. Para além do jornalismo, tenho um fascínio enorme pelo entretenimento, representação, guionismo, realização e literatura. O cinema é a forma de expressão artística que mais me agita, juntar-lhe a escrita é aliar ao entusiasmo tresloucado um cubo de gelo refrescante e ponderado: o meu ying yang.

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