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Se queres perceber porque é que fomos parar ao salazarismo, vê “Vento Norte”

A RTP continua a investir em produções portuguesas e, mais uma vez, com ingredientes históricos muito ricos. “Vento Norte” ainda mal começou e já se percebeu que a nova aposta da RTP fala de muitos temas nunca antes explorados. Na série que retrata os “loucos anos 20” portugueses, investiu-se mais de 200 mil euros por episódio.

Fonte: NiT

Sopram ventos esperançosos para aquilo que poderá vir a ser a continuidade de uma série portuguesa que promete superar produções como “Madre Paula”, “Filhos do Rock”, “O Atentado”, “Conta-me Como Foi”, entre outras. A nova produção da RTP, para além de contar com um elenco de luxo – como já é apanágio do primeiro canal –, aborda um tema pouco esmiuçado em Portugal, pelo menos na ficção: os anos vinte portugueses.

Enquanto os americanos andavam nas suas passeggiatas de carros volumosos já com motores à frente, a disfrutar de jazz e de champaigne em cabarets de todas as estirpes, nós, os portugueses, estávamos preocupados com um rol de situações potencialmente aguardentes. A viragem do século trouxe consigo uma instabilidade política absolutamente ímpar na História da república. A Primeira República e consequente volatilidade governativa tiveram impactos notórios na vida das pessoas: o argumento desta ficção não foge à fome e à miséria, à crise de valores e à rutura com a ligação da igreja com o Estado. Estes temas estão espalhados pela série e cada semente parece ter condições para se desenvolver ao longo da trama. A narrativa baseada em factos verídicos arranca em 1919, durante a Primeira República, e culmina no golpe de 1926, que instala a Ditadura Militar, que, mais tarde, se tornaria no Estado Novo de António de Oliveira Salazar. 

Fonte: Comunidade Cultura e Arte

A ideia teve o seu nascedouro nos cérebros de João Lacerda Matos, do ator e encenador Almeno Gonçalves e do realizador João Cayatte, que decidiram, com base numa estória que tem o seu embrião no seio de uma família aristocrata bracarense, estender a trama para um campo mais macro e enquadrá-la num contexto de crises política, religiosa e até geracional. A família Mello é o exemplo ideal de uma realidade na qual há conflito de valores e de visões do mundo, pois o novo século (XX) legitima um pensamento revolucionário que coloca em cheque a dominância regente do status quo monárquico-católico: até ao ponto em que estamos, numa fase embrionária da ação, já foi possível perceber que os elementos ideológicos estão lá todos, da ala mais conservadora à mais liberal (no sentido estrito do termo à luz do período histórico da obra) e revolucionária. Karl Marx é, até agora, de forma indireta, um dos protagonistas – tanto como tópico e fonte de ideias como gerador de choques e de antagonismos entre as personagens.

Segundo uma fonte da RTP, a série é uma das mais caras de sempre da ficção portuguesa, sendo que cada episódio traduz um gasto que ronda os 200 mil euros. A RTP está a apostar cada vez mais em produzir cinema de qualidade, apostando na experiência dos atores, diretores de fotografia, realizadores, argumentistas e nos temas que aborda. Neste caso em particular, é a primeira vez que este período histórico é explorado no registo ficcional, tendo como epicentro a cidade de Braga. É sabido que grande parte dos projetos audiovisuais de maior envergadura está distribuída de forma claramente assimétrica, havendo uma especial concentração na região da Grande Lisboa. “Vento Norte” é também um sinal de que a lógica se pode começar a alterar e de que se pode dar início a uma repartição mais equilibrada da criação cinematográfica – talvez daqui a alguns anos possamos ver como banal a aplicação de investimentos desta ordem do norte ao sul do país, passando incontornavelmente pelo interior alentejano e, já utopicamente delirando (perdoem-me o gerúndio, mas fiquei preso ao Alentejo), às ilhas.

Fonte: Cultura Norte

Para além de toda esta parafernália de temas altamente complexos dos pontos de vista histórico, político, cultural e sociológico, há outra área que merece a nossa atenção. Pelo menos até agora, pelo rumo que a série tem levado, são direcionados alguns holofotes para o desporto-rei. Pois é, estamos na segunda década do séc. XX, o que representa o primeiro “boom” do futebol; ou melhor, football, como era pronunciado na época: um termo estrangeiro para um desporto que ainda era um pouco das elites. Os petizes e graúdos juntavam-se de boina, vestidos à Tommy Shelby, dos Peaky Blinders, e davam uns pontapés num sucedâneo de esférico que nem de couro era. 

“Vento Norte” é uma série essencial. Ninguém que valorize a sua cultura sobre História de Portugal pode perder esta oportunidade de consumir bom drama, ação, violência, comédia e, pelo que pude ver até agora, muitas referências históricas bem recriadas e adornadas.

Artigo revisto por Andreia Custódio

Fonte da foto de capa: Espalha-Factos

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