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O Lobo Mau e o jovem adolescente

Tenho alguma dificuldade em assistir a documentários feitos sobre o vício da internet. Alguns familiares dizem-me que isso se deve ao facto de eu mesma ter esse vício (não sei do que falam, só passo cerca de 26 horas por dia em frente ao computador), mas sei que, na verdade, o problema não é esse.

O problema está um pouco mais distante de mim e mais perto dos jornalistas que fazem estes documentários. Aqui há dias ouvi um senhor, cujo filho era dependente da internet, a dizer que, na televisão, “é tudo muito bonito”, mas que as coisas se passam de forma diferente na realidade. Ironicamente, o documentário onde esse senhor entrava era mais do mesmo.

– Mais do mesmo tipo de comentários de psicólogos: “A dependência da internet é má. Faz mal. As pessoas ficam mal. Ficam em casa. Deixam de socializar. É mau. A relva deixa de ser verde, porque as pessoas não saem de casa para regar a relva. Fica amarela, fica seca. E depois fica castanha e morre. É mau. É uma dependência que tem de ser tratada.”

– Mais do mesmo tipo de comentários de jovens: “A internet é boa. Não sou dependente. Não, não. Só uso o telemóvel para ver o Facebook cerca de 300 vezes por dia. Depois chego a casa e vejo o Facebook mais umas 500 vezes no computador. Não sou dependente. Se ficasse sem o telemóvel por um dia, matava-me. Não sou dependente, não.”

– Mais do mesmo tipo de comentários de idosos: “No meu tempo não era assim. Brincávamos na rua. Não havia cá essas modernices. Ninguém era viciado em internet, até porque isso não existia na altura. Engravidávamos aos 16 anos e aos 20 já tínhamos dez filhos. Os nossos maridos eram alcoólicos. Na minha altura não havia cá nada dessas coisas. Era tudo muito bom, muito calmo.”

Pronto. A internet é má, mas é boa e antigamente não era assim. Não sei porque não colocam isto como sinopse de todos os documentários sobre esta dependência, uma vez que é literalmente o resumo de grande parte desses mesmos documentários. Outra sugestão de sinopse: “Dependência da Internet – este documentário, feito pelo jornalista X, vem acrescentar absolutamente nada de novo ao tema de que todos nós já ouvimos falar e sobre o qual ainda sabemos muito pouco porque os jornalistas da nossa época são, em grande maioria, incompetentes e só gostam de falar daquilo que está mesmo à mão de semear.”

É muito fácil falar sobre aquilo de que todos falam; é fácil dizer que a internet é má, que os jovens estão todos viciados nela, que antigamente não era assim. Os psicólogos dizem: “Cura para a dependência – deixar de ir à internet.” Mas ninguém fala do resto. Ninguém diz que é impossível não ir ao encontro da internet hoje em dia. Ninguém diz que, por muito que eu queira não usar a internet, metade dos meus professores obrigam-me a usá-la para fazer trabalhos, metade dos bancos obriga-me a usá-la para ver o saldo da minha conta bancária, metade das lojas obriga-me a usá-la para comprar itens com desconto.

Pensam que o dinheiro não é um problema? Pensem outra vez. O Steam vende jogos para computadores, muitas vezes com descontos, a preços baixíssimos. Grande parte dos jogos tem melhor qualidade de gráficos em computador do que em todas as outras plataformas de jogos. Livros digitais custam menos de metade do preço de um livro em papel. A música é mais barata no iTunes do que em disco físico. Os filmes são mais baratos no iTunes do que em formato DVD.

E isto ainda melhora: imaginem que são um adolescente. São a única pessoa no vosso grupo de amigos que não bebe, não fuma nem toma substâncias ilícitas. Também não estão interessados em engatar metade do mundo e muito menos querem ouvir músicas cujas letras se baseiam todas na frase ‘let’s drop the fucking bass’. Sim, existem pessoas com este perfil, não são apenas produto da minha imaginação. Agora tentem imaginar o que é que fazem durante todas as horas que os vossos amigos passam a beber, a fumar e a engatar pessoas. Já imaginaram? Aposto que repararam que o mundo está completamente moldado para agradar a essas pessoas. É esse tipo de música que passa na rádio e nas lojas onde vão. Livrarias? Existem poucas. Sítios onde comprar tabaco? Existe um café em cada esquina.

Se estes documentários quisessem ser realmente bons, falavam dos problemas enraizados na sociedade que não permitem aos jovens ter uma vida saudável fora da internet. Mas estes documentários não querem ser bons; querem dizer mais do mesmo e querem deixar as pessoas com a ideia de que a internet é o Lobo Mau que apanha quem se põe a jeito.

Mas o Lobo Mau não apanhou a Avozinha porque ela se pôs a jeito; o Lobo Mau apanhou a Avozinha porque ela estava sozinha e sem forma de se defender.

A Marta Silva escreve ao abrigo do Antigo Acordo Ortográfico

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