Opinião

O poder do humor na desconstrução moral da sociedade

Em Portugal, a stand-up comedy tem crescido fortemente, bem como os canais de YouTube que servem de palco aos humoristas. A verdade é que o humor tem tido um papel fundamental na desconstrução dos valores morais da sociedade. As pessoas riem-se das piadas que lhes são dirigidas, porque o humor incorpora fenómenos de identificação.

Contudo, os humoristas portugueses continuam a ser alvo de críticas pelas suas piadas. A censura continua a existir e, por vezes, a liberdade de expressão que a democracia conquistou parece estar a perder-se por motivos mesquinhos. Se há limites para o humor, também há limites para a liberdade de pensamento. Se as pessoas se ofendem e isso é o suficiente para proibir o humor, então deixa de existir sátira. A raiva é o único sentimento que permanece. Guilherme Duarte, humorista português, consegue, através do seu humor, trazer reflexões importantes acerca dos comportamentos da sociedade. A maior parte das suas piadas estão camufladas por uma crítica social relacionada com os estereótipos, os preconceitos e as atitudes. Muitas vezes, o humorista também só quer ter piada e ver as suas expetativas a serem superadas, quando esgota uma sala de espetáculos. As pessoas identificam-se, refletem, divertem-se ou sentem-se ofendidas.

Entrevista. Guilherme Duarte: “O humor é para fazer rir, não é para fazer activismo”
Fonte da imagem: Comunidade Cultura e Arte

São estes os efeitos do humor, do também engenheiro informático e defensor da causa animal. Guilherme Duarte condena o abandono e os maus-tratos a animais, bem como os estereótipos associados a cães de raça perigosa. Mais recentemente, adotou uma pitbull chamada Zaya, escreveu um livro acerca dela, “Por ladrar noutra coisa – Diário de uma Bitch“, e tem-nos mostrado que, afinal, as pessoas é que são estúpidas.

Através do humor, Guilherme Duarte tem conseguido desconstruir os preconceitos associados a estes cães, muitas vezes deixados de parte sem terem qualquer oportunidade de serem felizes ou de encontrar alguém disposto a amá-los. Esta é uma forma de pegar em causas, torná-las públicas e dar-lhes o valor merecido. O humor tem o seu papel na sociedade. Esse papel não é só fazer rir. Também pode ser o de consciencializar, alertar e questionar, através da sátira.

Fonte: YouTube

Escrever humor na Internet continua a ser um dos focos de Guilherme Duarte. Fá-lo regularmente nas redes sociais e, à conta disso, já publicou quatro livros. Quando faz humor, não coloca restrições às suas palavras. Temas mais sensíveis também são alvo de piadas nos seus espetáculos. Muitas vezes, também o seu humor é associado ao humor negro.

Talvez o humor negro seja uma expressão utilizada para tentar alertar as pessoas para o que vão ouvir a seguir. É quase como aquele aviso que aparece nos noticiários, quando as imagens que vão passar de seguida podem ferir suscetibilidades. Neste caso, as pessoas escolhem continuar a ver ou mudar de canal.

Parece que as pessoas não conseguem sentir empatia por algo que desconhecem. Ouvir um humorista desconhecido a fazer uma piada acerca de um tema sensível é visto com leviandade. Se fosse um amigo a fazer a mesma piada, talvez já não se tratasse de uma ofensa, mas apenas de uma piada. Porque não preferimos pensar assim acerca do humor no geral?

Quando se trata de humoristas, surge toda uma hipersensibilização da sociedade, intensificada pelas redes sociais. As pessoas não podem esperar que o humor seja suavizado. Se fosse esse o objetivo, não se chamaria humor, mas manipulação. Valorizo muito mais a verdade do humor do que as coisas que toda a gente defende como corretas e que são mascaradas pelo chamado senso comum.

Guilherme Duarte gosta de explorar todos os espetros do humor e de apresentar diversidade. Mais do mesmo não é o que se pode esperar do humorista. Todas as piadas são válidas.

Em tempos de grandes moralistas, a rebeldia ainda prevalece e manifesta-se no humor. Talvez o debate público ainda possa ser originado pela sátira. A verdade é que muitas piadas são ditas apenas pela piada em si. Não expressam necessariamente opiniões pessoais.

O humor tornou-se suficientemente importante para ser censurado, o que significa que este pode levar à revolução. O humor tem poder, mas os humoristas não conseguem controlar os efeitos do humor.

Sermos capazes de rir acerca de uma piada significa que também somos capazes de identificar o alvo da mesma. Assim, somos capazes de refletir e de pôr em causa aquilo que acontece à nossa volta. Quando se fazem piadas acerca de política, o foco não é a política, mas a piada. Se as piadas atingem dimensões interessantes, a culpa não é dos humoristas.

Fonte da imagem: SIC

Ricardo Araújo Pereira, por exemplo, não nega que as piadas que faz apresentam também os seus pontos de vista. Contudo, o objetivo daquilo que diz não é persuadir alguém a dizer algo ou a fazer algo, mas fazer rir as pessoas. O humorista afirma que toda a gente sabe que ele é de esquerda e que é adepto do Benfica, no entanto, nenhuma das suas piadas procura ter um efeito político.

O humor é livre e não procura controlar o pensamento. Se o humor provoca mudanças na forma como olhamos para o mundo e para nós próprios, é porque nós decidimos questionar a existência tal como ela é. E o humor que faz pensar é um humor de grande qualidade.

Para Ricardo Araújo Pereira, o politicamente correto é uma estratégia de controlo da linguagem e do pensamento, em que as pessoas passam a considerar-se demasiado frágeis para serem confrontadas.

O humor confronta as pessoas e confronta a realidade. Mas, como tem piada, o impacto é mais suave. Ou não. Há quem se ofenda com tudo. Quem não se ofende talvez pense melhor nas coisas.

Ricardo Araújo Pereira também considera que as pessoas não devem ser protegidas do humor. O humorista defende que é possível fazer piadas sobre mulheres e esse humor não ser machista. Também considera que proibir piadas sobre a homossexualidade, por exemplo, é uma infantilizacão.

Partilho da mesma opinião que o humorista. Eu considero que não pode existir o politicamente correto no humor. As piadas têm alvos e não fazer uma piada, porque não é correta significa limitar o alcance do humor e a sua liberdade. Aliás, eu considero que, se tivermos de colocar limites ao humor, proibindo certas piadas, deixamos de proteger as pessoas e passamos a alimentar estereótipos.

Fonte da imagem: YouTube

Também Diogo Batáguas, outro grande humorista português, evita colocar limites ao humor. Depois de sete anos de espetáculos de stand-up comedy a solo e de algumas iniciativas, criou o seu famoso projeto no YouTube Relatório DB”, que se mantém até hoje. Este projeto começou em 2019 e todos os meses o humorista dá a conhecer aos seus subscritores o panorama político, desportivo e cultural, a nível nacional e internacional, num formato diferente e com humor. O relatório tornou-se viral, quer pela qualidade dos conteúdos, quer pela ridicularização das situações da atualidade.

Para Diogo Batáguas, a stand-up comedy é já um dos poucos lugares onde se pode dizer aquilo que se pensa sem qualquer tipo de constrangimento. Para o humorista, este é um espaço de libertação.

Também acredito que a stand-up comedy representa um palco sem censura, sem falsos moralismos e sem opiniões criadas para facilitar a integração na sociedade. Aqui, não existe uma busca pelo “like” ou pela aprovação. Quem vai ver os espetáculos é porque se identifica. Quem paga bilhete para ir a estes espetáculos não é para se sentir ofendido.

A polémica e atenção procuradas pelas pessoas faz com que criem opiniões fundamentadas apenas naquilo que os outros pensam. Desta forma, deixa de existir uma opinião individual e passa a existir uma forma de ver o mundo fortemente condicionada.

Defensor dos pensamentos mais verdadeiros e livres de limitações, Diogo Batáguas defende que na plateia de espetáculos de stand-up comedy estão pessoas que querem dar e receber 100% de verdade, mesmo que essa verdade possa ser considerada bizarra ou ofensiva.

Para Diogo Batáguas, alguém ofender-se num espetáculo de stand-up comedy é o mesmo que ir a uma tourada e reclamar porque estão a fazer mal ao “bicho” ou ir a um restaurante de sushi e ficar ofendido porque o peixe está cru.

A verdade é que o humor tem a capacidade de ridicularizar as situações, e, ao mesmo tempo, de fazer pensar acerca da realidade. O humor tem efeito quando nos faz rir, mas também quando, através das piadas, conseguimos confrontar os nossos comportamentos. O humor não controla os nossos pensamentos. Somos nós que permitimos que este nos mude ou não.

Fonte da imagem de destaque: iStock

Artigo revisto por Ana Janeiro

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