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Políticos de bancada

Quando eu era mais pequena, a minha mãe costumava falar muito sobre treinadores de bancada. (Agora já não fala tanto porque a única equipa de que gosto verdadeiramente é o Barcelona e ela não acompanha equipa nenhuma que não seja o Benfica. Conflito de interesses. Adiante.)

Não sei se alguma vez entendi verdadeiramente o conceito até começar a prestar atenção à política. Claro, agora podiam perguntar-me o que é que o futebol tem a ver com a política e eu podia responder “não tem absolutamente nada a ver mas eu precisava de um assunto para a crónica” que tudo continuaria a fazer sentido. Porque a verdade é que, hoje em dia, política não tem nada a ver com nada.

Vamos voltar aos treinadores de bancada. Toda a gente tem aquele familiar demasiado animado que se senta à mesa a ver a Liga dos Campeões e que grita para a televisão como se o Cristiano Ronaldo fosse magicamente ouvir as suas importantes instruções. Esse familiar, caso não saibam, é licenciado em desporto e já ganhou vários prémios desportivos, apesar de não ter mais do que a quarta classe e de ter trabalhado toda a sua vida como electricista (ou seja, nunca tocou sequer numa bola de futebol, à excepção daquela vez em que o melhor amigo o convidou para uma festa de anos e ele levou com uma bola no focinho. Tecnicamente, continuou sem tocar na bola – a bola é que tocou nele. Foi um acidente e não se fala mais nisso). Mais tarde, quando a família está toda reunida a falar nas bolas de Natal que compraram para a decoração do pinheiro, esse mesmo familiar levanta-se e grita “quatro bolas enfiou o Ronaldo e ninguém quis saber”.

Era disto que a minha mãe falava quando se referia aos treinadores de bancada. O que fui percebendo ao longo dos anos, conforme me fui envolvendo com a política, é que existe em Portugal uma outra espécie de humano a que vou passar a chamar políticos de bancada.

Os políticos de bancada percebem que a maioria das pessoas em Portugal não entende assuntos políticos (pelo menos, os mais complexos). Os políticos de bancada percebem que é fácil manipular a opinião dos outros porque em terra de cegos quem tem um olho é rei. É fácil chegar a um local e dizer “o meu nome é Marta e vou explicar-vos o que é o PIB porque vocês não sabem nada sobre política e eu tenho o dever de vos informar apesar de o rei não ter morrido e de ninguém me ter pedido para dar informações”. As pessoas gostam de pessoas que soem a inteligentes mesmo que elas estejam a dizer a maior barbaridade do mundo.

O meu nome é Marta, PIB é a sigla para Parvoíce Integralmente Básica e não consigo perceber porque é que toda a gente quer que eu me cale – por isso vou continuar a debitar falsidades sobre assuntos que não estão em nada relacionados com aquilo de que se está a falar só porque quero mesmo, mesmo, mostrar que sei falar de política.

Não existe diferença nenhuma entre estas pessoas e aquele vosso familiar irritante. Nenhuma delas percebe verdadeiramente do que está a falar, mas de vez em quando lê meia-dúzia de artigos sobre o assunto, até tem algum jeito para pesquisar informações no Google e, de repente, acha-se o rei da ilha.

Por isso, não consigo entender se a maior praga hoje em dia são as pessoas, que nada sabem sobre política, ou as pessoas, que em tom de insurgência criticam quem não sabe nada sobre política. Na verdade, não existe qualquer diferença entre ambos.

O problema são as pessoas. O problema são os políticos de bancada.

A Marta Silva escreve ao abrigo do Antigo Acordo Ortográfico

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