Problemas maiores, Carlos?

Fonte: People.com

Claro que eu não discordo totalmente do ponto fulcral. Há problemas maiores. Haver pessoas a morrer é pior do que eu não ter conseguido celebrar os meus 20 anos, claro que é. O que são meia dúzia de planos meus cancelados comparados com pessoas a perder a vida? São um grandessíssimo zero. 

Mas, num mundo sem covid-19, se tivesse de cancelar planos que me eram queridos, fosse por que motivo fosse, isso afetava-me. E morriam pessoas na mesma. Aliás, morriam e morrem milhares de crianças subnutridas todos os dias, para não falar sobre o trabalho escravo, muitas vezes infantil, para fazer aquela blusa gira da Zara. Antes também eram coisas irrelevantes?

Acho que a questão reside em percebermos que todos os problemas são válidos, mesmo no meio de uma pandemia que conseguiu parar o mundo de uma forma absurda. Mesmo que sejam “problemas de primeiro mundo”. Continuar a desesperar por uma mensagem não lida, um e-mail não respondido, uma formatação mal feita ou a volta dos One Direction para o aniversário de dez anos é válido. Estas pequenas coisas fazem parte de nós. E, se decidirmos que nos vamos abstrair de tudo o que não é tão relevante quanto o facto de estarem a morrer pessoas, abdicamos da nossa individualidade. E esquecemos que há países a censurar o jornalismo.

Os pequenos grandes importam. Mais ou menos egoístas. Mais ou menos materiais. 

A não ser que, nesta quarentena, tenhas decidido ser um Monge Franciscano. Por aquilo que sei, o processo de “comunhão com o mistério de Deus” implica que o frade não seja mais “senhor de nada e de ninguém”. Demasiado, mas crenças não se discutem. Por isso, não podem dar mais importância aos pequenos grandes dramas da quarentena. 

De momento, não quero saber se pareço a Kim Kardashian quando perdeu o brinco. Perdi o semestre mais prático do curso. Não vou ter muitos dos convívios que me trazem belíssimas memórias. Não vou ver a Taylor Swift. E não vou planear viagens para o próximo ano. As ofertas de estágio vão ser mais fracas e a procura vai ser maior. Tive séries com gravações adiadas. A minha festa de 20 anos passou muito por beber gin no sofá, longe da família e dos amigos. Por isso, vou ser egoísta o bastante para ficar aborrecida com estas coisas. Deitar uma lagriminha ou duas de vez em quando. 

A minha ansiedade não se acalma por eu bater as palminhas e dizer “Vamos, princesa, levanta a cabeça, senão a coroa cai. Há pessoas a morrer por aí.” Sim, há problemas maiores. Eles estarão cá sempre, porque o mundo é injusto – para não questionar a bondade divina neste artigo. Só que isso não anula nada. Sentir tristeza faz parte. Mesmo que seja com estas coisas. Já dizia Mark Manson: os psicopatas é que não têm emoções. E, se quiserem, numa vertente mais tuga, “Quem não sente não é filho de boa gente”.

Tudo é válido. Menos ser xenófobo, Carlos. Não podes culpar a China quando as provas científicas evidenciam que não há presença de intervenção humana. Não, a China não tem de pagar nada a ninguém, a menos que queiras ver os Estados Unidos pagar também. Ah! E não andar sem máscara. A menos que façam parte do grupo que se coloca contra as vacinas. E estejam a fazer competição para perceber qual das duas leva primeiro à morte. Aí, é convosco. 

Cuidem de vocês e dos vossos.

Artigo escrito por Mariana Serrano

Artigo revisto por Rita Asseiceiro

Fonte da imagem em destaque: People.com

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