Quando a porca torce o rabo – o micro relato de uma geração

Este artigo é escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico

Está na hora de mais uma divagação semi-pessoal derivada da minha falta de imaginação temática. Já cheiro o tédio a escorrer pelos poros do leitor. Enfim… eu culpo o pós-modernismo.

Disse há uns tempos que Portugal precisava de um psiquiatra. Provavelmente, se escrevesse esse texto hoje, diria que o mundo precisa de um. “Está-se tudo a passar”, como gritava o outro. A nossa geração, se formos ao detalhe, é a mais afetada por esta patologia.

Os antigos, no seu inabalável pedestal moral, dizem que este novo ciclo geracional é preguiçoso. “Um bando de inúteis sem sentido de responsabilidade e sem educação”, ouvimos o Zé Fernando, dono da tasca “O Bacalhau Quer Alho”, dizer, enquanto escarra para o chão. “É das tecnologias! Passam a vida colados aos ecrãs!”, diz a avó Ermelinda enquanto vê o 13º episódio consecutivo do “Preço Certo”. “A decadência moral arruinou as novas gerações”, prega o padre Alfredo enquanto olha gulosamente para os jovens da primeira fila da paróquia.

A verdade é que, pelo menos em democracia, nós somos a primeira geração a viver pior do que a anterior. Mas o que justifica esta angústia existencial?

No âmago deste niilismo que nos permeia está a decrescente qualidade de vida e a nossa desmotivação crónica quase idiopática. Qualidade de vida, devo dizer, não no sentido tradicional.

Não querendo parecer um monte de esterco, digo o seguinte – os pobres em África são mais felizes do que nós, graças à simplicidade do seu único propósito a prazo imediato: não morrer. A complexidade dos nossos sonhos é paralisante.

Disseram-nos, quando éramos putos, que podíamos ser o que quiséssemos. Foi o primeiro pecado da geração anterior. Ao querer ser carinhoso para as suas crias, o mundo incutiu em nós esperanças vãs e, francamente, patéticas.

Nós meramente deambulamos desmotivados e deprimidos ainda a viver em casa dos pais, sem qualquer hipótese de pagar as rendas draconianas que se praticam por aí. A economia está no esgoto e o terrorismo é o dia-a-dia. Não temos interesse em ser pais, e muito menos em casar. Somos inevitavelmente sós e presos a trabalhos que odiamos.

Pela primeira vez, temos assegurada a nossa subsistência e isso tira o nosso propósito reptiliano de sobrevivência. Temos, mais do que nunca, noção da finitude da nossa existência.

Com quase todos os direitos sociais conquistados, pouco resta pelo qual valha a pena lutar.

Mas que remédio temos a não ser viver assim, sem alarmes e sem surpresas. Espero que esta também seja a minha última dor de barriga.


Fonte: Geraint Rowland

Artigo corrigido por Mariana Coelho


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