Quem sai aos seus: o neto do eterno segundo

O final da última Amstel Gold Race foi, provavelmente, o melhor que alguma vez vi numa corrida de ciclismo desde a etapa 17 da Vuelta, quando o experiente, mas nem muito brilhante, Juan José Cobo e o inexperiente, até significativamente obscuro, Christopher Froome, um inglês nascido no Quénia, e que nem um top 10 tinha conseguido numa grande corrida ou grande volta, estavam a lutar, inesperadamente, pela etapa e pela classificação geral da última grande volta do calendário. Nesta edição da Amstel, Jakob Fuglsang e Julian Alaphilippe, à partida um dos grandes favoritos a vencer a prova e que venceu três dias depois a Flèche Wallonne (também grande favorito a vencer a Liège), estiveram em fuga durante o último quarto da corrida. Tendo em conta que tinham cerca de um minuto de vantagem a dez quilómetros do final, parecia que ambos iam discutir a vitória a dois. Obviamente que outros favoritos, como Michal Kwiatkowski e Mathieu Van der Poel, não se acanharam e quiseram chegar-se à frente: o polaco esteve fugido com Matteo Trentin e acabou por livrar-se do italiano; o holandês aumentou o ritmo no grupo atrás e acabou por levar uma comitiva-locomotiva até aos dois da frente, de forma inesperada, já dentro do último quilómetro. Teve alguma ajuda, mas foi ele quem tomou a iniciativa e quem rolou de forma mais assertiva. O mais impressionante veio na altura mais decisiva: para além de Van der Poel ter levado o grupo à frente, foi ele que iniciou o sprint. Ninguém teve pernas senão Simon Clarke, que veio no grupo de Van der Poel. O holandês da Corendon-Circus, uma equipa Pro Continental graças às performances do jovem de 24 anos no ano passado, quando a equipa ainda pertencia exclusivamente ao circuito europeu, rumou à vitória, para gáudio do público e para total surpresa dos comentadores e de quem acompanhava a corrida de forma mais expansiva, a partir da televisão, porque não só os dois da frente desperdiçaram uma vantagem de quase um minuto nos 15 quilómetros finais como aquele que parecia ter trabalhado mais na frente teve mais força do que toda a gente para ganhar. Dias antes, tinha ganho a Brabantse Pijl e na semana antes tinha ganho a Dwars door Vlandeeren. Terminou na quarta posição na Ronde, a Volta à Flandres.

Ninguém nasce pronto para fazer qualquer coisa, mas para Mathieu as estrelas alinharam-se e a vida deu-lhe praticamente tudo aquilo de que ele precisava para triunfar no ciclismo: o seu pai, Adri, que ganhou a Amstel precisamente 30 anos antes da sua. Em 1988, ganhou a Volta à Flandres, um ano antes foi campeão holandês e um ano antes disso venceu a Liège. Para além disso, foi campeão nacional de ciclocross seis vezes e foi campeão do mundo em 1997. Como se não bastasse, Raymond Poulidor é o avô materno de Mathieu: a lenda do ciclismo francês terminou oito vezes no pódio do Tour, incluindo três segundos lugares. O seu irmão, David, também é ciclista, mas com menos sucesso. Desde cedo que o mais jovem Poulidor-Van der Poel anda metido naquela que é (e posso dizer por experiência própria) uma das mais duras vidas no desporto. Começou no ciclocross, que até é onde se sente mais confortável. Foi campeão do mundo júnior, em 2012, ao bater o seu eterno rival, o flamengo Wout Van Aert, que também vai começando a despontar no ciclismo de estrada. Van Aert bateu Van der Poel dois anos depois nos mundiais em sub23: o holandês teve de se contentar com o bronze. Foi apenas uma pedrazinha no seu sapato de encaixe, porque no último ano Mathieu venceu todas as 31 corridas de ciclocross nas quais participou, incluindo os nacionais, os europeus, e os mundiais da disciplina. No entanto, também já mostra o seu valor na estrada desde cedo. Foi campeão nacional e do mundo júnior de fundo em 2013. Apesar de não ter tido nos últimos anos um calendário tão atarefado quanto o de um ciclista de estrada normal, tem conseguido resultados consistentes. Foi especialmente a partir do ano passado que começou a despontar: sagrou-se campeão nacional e vice-campeão europeu de fundo e venceu três das sete corridas em que participou, de Maio a Agosto, incluindo três vitórias em etapas (uma na Boucles de Mayenne, onde venceu a geral, e duas na Corrida do Ártico) e três segundos lugares, incluindo os Europeus. Naturalmente, todas as equipas de World Tour estão a babar-se por ele, especialmente a Quickstep, como seria de esperar, sendo Van der Poel um campeão do ciclocross e um monstro nas clássicas. No entanto, o jovem tem contrato com a Corendon até 2023 e não faz intenções de sair.

Também, naturalmente, o meu interesse no ciclismo tem caído no último ano, ao mesmo tempo que começo a acompanhar mais a NBA e ao mesmo tempo que tento rejuvenescer o meu interesse no futebol, para além do Sporting e das grandes competições e grandes jogos. Mathieu Van der Poel tem tudo para ser dos melhores ciclistas de sempre, se conseguir replicar até certo ponto aquilo que tem feito no ciclocross, dentro daqueles que são os seus pontos fortes. Será uma honra acompanhar a sua carreira e como esta se irá desenrolar, sobretudo tendo em conta a sua relação com Wout Van Aert, que mostra também um potencial extraordinário, apesar de ter tido algum azar esta época, com quedas e problemas mecânicos na Flandres e no Paris-Roubaix. Da mesma maneira, o ciclocross tem de começar a fazer parte da minha cobertura: estes poderão ser os primeiros casos de campeões de ciclocross que replicam o domínio no ciclismo, mas já houve outros, como Zdenek Stybar, que conseguiu uma carreira de relativo sucesso (salvo também o azar de quedas, sobretudo no Paris-Roubaix). No entanto, estes não são os únicos talentos natos a despontar na estrada e até podemos dizer que estamos perante uma pequena horde/ fornada dourada de potenciais grandes campeões. O jovem Van der Poel está à cabeça.

Fonte: Tim de Waele

Mathieu e Wout Van Aert. Já lá vão muitos braços de ferro, e virão muitos mais: pena que Wout já se tenha casado…

Artigo revisto por Catarina Gramaço

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