7ª Arte

“Rapariga com Brinco de Pérola”: a pintura cinematográfica de Vermeer

Johannes Vermeer foi um dos maiores pintores do século XVII dentro do contexto da Arte dos Países Baixos, um movimento artístico que estava no seu auge, na época. Ainda que existam, atualmente, apenas 39 pinturas do artista em boas condições, o seu legado, principalmente no que diz respeito às pinturas de género (pinturas que envolvem a representação do quotidiano e das pessoas comuns), é imensurável.

À esquerda, está o quadro “O Concerto” (1664) e, à direita, a pintura “A Leiteira” (1660) – ambas de Vermeer. Fonte: WikiArt

O seu quadro mais famoso e enigmático é, entretanto, um retrato (não uma pintura de género) de uma servente sobre a qual nunca se soube muito – “Rapariga com Brinco de Pérola” (1665). Por anos, os amantes das artes plásticas buscaram entender o que teria feito o grande pintor desviar-se do seu percurso artístico habitual e realizar esta obra que, contudo, ainda mantém vários elementos estéticos característicos de Vermeer – como a coloração azulada da faixa em contraste com tons mais neutros e terrosos, ou o talentoso jogo de luzes presente na rela. Foi esta mesma indagação que levou a escritora Tracy Chevalier a escrever, em 1999, o romance histórico Girl with a Pearl Earring, que explora a personalidade e a estória da misteriosa jovem e musa do pintor e as conexões que eles tinham.

À esquerda, está a pintura original por Vermeer (Fonte: WikiArt) e, à direita, a capa da primeira edição do romance de Chevalier (Fonte: Fruugo).

A adaptação cinematográfica do livro, que leva também o mesmo nome da pintura, chegou em 2003 ao público, pelas mãos do diretor Peter Weber e da roteirista Olivia Hetreed. O filme conta a história de Griet, encarnada pela jovem Scarlett Johansson, que, por dificuldades financeiras, tem de deixar a casa dos pais aos 17 anos, para trabalhar como servente na casa de Johannes Vermeer, interpretado por Colin Firth. A aproximação gradual entre a rapariga e o artista acontece à medida que ele vai descobrindo a sua admiração pela pintura, pelas cores, pelos diferentes enquadramentos e pelos planos possíveis nesta arte.

Paralelamente, a esposa do pintor, Catharina (Essie Davis), e sua mãe, Maria Thins (Judy Parfitt), começam a estranhar a relação dos dois, principalmente porque nunca alguém fora convidado a entrar no estúdio de Vermeer, antes de Griet. Isto começa a gerar sérias desavenças na casa, assim como levanta o interesse de Van Ruijven (Tom Wilkinson), pois, nos seus cargos de agente e comprador de obras, vê que a jovem passa a ser uma fonte de inspiração para Vermeer, o que lhes poderia gerar imenso lucro. Assim, por um lado, há interessados em que o talento de Griet e sua incrível beleza sejam explorados e, por outro, há a iminência da sua demissão e de uma vida na miséria.

O artista, entretanto, não se encontra em nenhum dos dois lados. Ao mesmo tempo que ele não deseja explorar a tensão sexual evidente entre ele e Griet – fomentada, principalmente, pela conexão artística que ambos partilham –, reconhece o potencial que uma tela como Griet, sendo sua modelo, teria e reconhece que seria desperdiçado se não o fizesse. Desta forma, a narrativa desenrola-se em torno das atividades diárias daquela família e de quem os rodeia, com o dilema sempre presente até ao clímax do filme – que é a execução da pintura que já conhecemos.

Griet (Scarlett Johansson) avalia uma pintura em andamento, no estúdio de Vermeer. Fonte: Letterboxd

Como é possível ver, este filme está centralizado na criação artística e nas suas nuances e ainda, mais especificamente, em como isso existia no trabalho do pintor holandês. Todo o filme, desde os aspectos técnicos aos narrativos, é uma ode às obras de Vermeer. Webber contratou uma série de profissionais da região para o ajudar na execução do filme e todos eles, enquanto equipa, estudaram durante meses os elementos principais de Vermeer, antes de partir para as gravações.

O trabalho de Dien van Straalen com o figurino e o de Ben van Os na direção de arte foram nomeados para os óscares nas categorias de “Melhor Figurino” e de “Melhor Design de Produção”. Isto não se deveu apenas por conta da fiel representação de meados do século XVII, que podemos ver na obra, mas deveu-se também aos vários detalhes técnicos, minuciosamente articulados, para que o público se sentisse numa galeria de arte e não num cinema.

À esquerda, uma cena do filme, na qual Catharina, Van Ruijven e uma convidada são servidos por Griet e, à direita, está o quadro “The Procuress”, de Vermeer (1656). Fonte: WikiArt

Primeiramente, a forma como se joga com a luz e com as cores no filme é impressionante. Isto porque a paleta de cores utilizada é a mesma que vemos nos quadros do artista, com uma primazia pelos tons quentes e terrosos, e com uma alta saturação, na grande parte das cenas. A luz é, maioritariamente, natural. As cenas durante a noite são mais quentes, por conta da iluminação de velas; ao longo das estações, a intensidade do sol muda, assim como as cores; e pode ver-se que quase não se recorre a artifícios luminosos na produção.

O diretor de fotografia, Eduardo Serra, era, de acordo com o próprio Webber, “obcecado por reproduzir a espantosa utilização da luz pelos artistas do período”, principalmente nas telas de Vermeer, que é considerado por muitos, até hoje, o mestre da iluminação naturalista. Para além disso, Webber e Serra estiveram sempre muito atentos às construções de planos e aos enquadramentos, para que as cenas ficassem o mais semelhantes possível com as pinturas. Tudo isto rendeu-lhes, também, uma nomeação nos Óscares para “Melhor Fotografia”.

À esquerda, está a tela “A Carta de Amor” (1670) e, à direita, uma cena do filme. Fonte: WikiArt

Algo que também é interessante pontuar é o facto de cada um destes aspectos técnicos ter sido construído de maneira a colaborar com o desenvolvimento da narrativa. Um destes exemplos é a forma como as cenas intensas, protagonizadas por Griet e por Vermeer, são as únicas em que os planos mais aproximados são utilizados, permitindo -nos reparar mais nas suas emoções. Semelhantemente, essas cenas estão muito mais próximas daquilo que seriam as pinturas – em termos de cor, iluminação e cenários – do que aquilo que vemos nas cenas que Johansson partilha com outros atores. Abaixo, vê-se uma cena em que Griet e Pieter (Cillian Murphy) caminham, numa tarde de verão, que em nada se parece com as pinturas de Vermeer.

Fonte: Adoro Cinema

Pieter é vendedor no mercado local e nutre sentimentos pela personagem principal. Griet, mesmo não tendo sentimentos por ele, estimula a ilusão de que teriam um relacionamento – tanto por ele lhe ser mais acessível do que Vermeer, como por se encontrar constantemente frustrada com o próprio pintor e o seu relacionamento (ou melhor, a ausência dele). Todas as cenas com Pieter são uma representação do que um filme romântico comum seria. Os cenários estão mais próximos do tradicional, no cinema, assim como as falas, o ritmo dos diálogos e o posicionamento dos atores. As cenas com Vermeer são, por outro lado, repletas de uma tensão reprimida, gerada, principalmente, pela ausência de falas, mas também pela longa duração dos takes.

Webber uma vez explicou que optou por ter cenas mais longas e menos falas ao longo de toda a trama para que o ambiente se destacasse. A forma de comunicação deste filme é, de facto, muito próxima daquilo que acontece quando vislumbramos uma tela. Temos de supor muitos sentimentos e pensamentos das personagens apenas pela sua interação física e pelos aspectos técnicos presentes. Assim, o roteiro trouxe aos atores muito peso no que diz respeito à representação emocional, mas também muitas chances para brilhar. Se eles não conseguissem atuar tão bem, de maneira a que o público sentisse o que Griet e Vermeer sentiam quando interagiam, o filme seria um fracasso –  o que não foi o caso. De facto, esta é a primeira grande atuação de Scarlett Johansson, que lhe concedeu uma nomeação ao BAFTA.

Vermeer (Colin Firth) fura a orelha de Griet (Scarlett Johansson) para colocar o famoso brinco de pérola. Fonte: That Moment In

A influência da Arte dos Países Baixos é encontrada neste filme na própria construção narrativa. Além das cenas com execução de pinturas e com fabricação de tintas, o filme remete para este estilo artístico ao ter uma história que gira em torno do quotidiano e que não vai para muito além disto. A estética da época em que a história se passa pode enganar os desavisados, acostumados ao estilo mais dramático e romântico dos filmes de época, com grandes emoções, discursos grandiosos e grandes lições de vida. Este filme distancia-se muito daquilo que existe no estilo de A Paixão de Shakespeare ou Elizabeth. A falta de emoções ou de um ritmo mais dinâmico é, contudo, inconveniente, porque se encaixa muito na proposta inicial do filme: a de representar um estilo que se resumia às pessoas comuns.

Em muitos momentos, é possível sentir que nada aconteceu ao longo da trama, mas, ao mesmo tempo, repara-se que a atração pelo visual do filme e pela história são mais fortes do que o tédio. Este aspecto poderia ser limitante para o filme, em termos de audiência, o que, na verdade, não acontece; e o filme possui até mesmo boas pontuações em sites destinados aos cinéfilos.

Vermeer (Colin Firth) ensina Griet (Scarlett Johansson) a fabricar tintas. Fonte: Alchetron

Por fim, deve-se concluir que A Rapariga com Brinco de Pérola é um filme básico no que diz respeito à narrativa, mas que se revela muito mais complexo quando se vai descobrindo as suas camadas – e isso torna-o saboroso de analisar. A obra não é construída com picos de interesse que te guiam para um final explosivo, como seria o habitual no cinema, mas é uma viagem pelas experiências sensoriais da hipótese de ser a musa de um dos maiores pintores da história da terceira arte, dentro da sétima arte.

Artigo redigido por Amanda Silva

Artigo revisto por Andreia Custódio

Fonte da imagem de destaque: Studium 29

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