7ª Arte

Awake: Tu não és tu quando tens sono

Arrasou nas tendências, mas não caiu nas graças da crítica. Awake, o novo filme distópico da Netflix, retrata o desespero de uma sociedade que, literalmente, não consegue adormecer.

Em pleno 2021, não é novidade para ninguém que as tendências de uma plataforma de streaming não são obrigatoriamente sinónimo de qualidade cinematográfica. No entanto, uma coisa é certa: a julgar pelo top do Netflix, seja pela caption ou pela feliz execução do trailer, Awake conseguiu despertar a curiosidade dos portugueses.

Ora, dizem as boas línguas que “a curiosidade matou o gato” e, em relação a esta novidade sci-fi, tanto a curiosidade como as altas expectativas podem ter sido determinantes para a “morte deste artista” (leia-se deste filme produzido e realizado pelos irmãos Joseph e Mark Raso).

Como se lidar com o caos instalado na vida fora do pequeno ecrã não bastasse, a Netflix tem apostado cada vez mais na produção de filmes que retratam histórias distópicas. Ao que tudo indica, e a panóplia de filmes recentes comprova, a pandemia levou os guionistas e realizadores a apostarem cada vez mais em cenários fora da caixa, com propostas de ‘versões do fim do mundo’, tão (ou mais) dramáticas do que qualquer cenário apocalíptico com zombies e híbridos à mistura.

Gina Rodrigueza, a mãe protagonista. Fonte: Observatório do Cinema

Escusado será dizer que Awake não foi, obviamente, exceção. Neste universo distópico, há uma (alegada) desregulação no sistema magnético da terra e, sem aviso prévio, os aparelhos eletrónicos deixam de funcionar e as pessoas deixam de conseguir dormir.

Como necessidade básica, a privação do sono leva à exaustão, à perda das capacidades cognitivas e limita a capacidade de raciocínio. Às tantas, toda uma sociedade é conduzida à loucura e somos confrontados com o presságio de uma civilização em vias de extinção.

Em poucos dias, o caos instala-se e toda a sociedade, tal e qual como a conhecemos, começa a desmoronar-se. De médicos desesperados por uma cura a criminosos a fugir das celas e respectivas prisões, o ambiente torna-se mais tenso, sinistro e pesado a cada minuto.

Jill e Noah. Fonte: Estação Nerd

Como esta nova aposta da Netflix também não prima pela criatividade, Awake segue o plot básico deste tipo de filmes: há um problema comum à maioria da população, neste caso a privação do sono, e, por milagre ou por obra e graça do Espírito Santo, há honrosas exceções, que conseguem pregar olho sem qualquer tipo de problema.

Desta forma, deparamo-nos com a família protagonista da história e, consequentemente, com o trio de personagens – Noah (Lucius Hoyos), Jill (Gina Rodriguez) e Matilda (Ariana Greenblatt)- que carrega todo o filme às costas.

Ao longo de toda a história, acompanhamos a mãe, Jill, veterana de guerra, a tentar salvar a vida da própria filha, Matilda, que, em primeira instância, sem qualquer tipo de justificação, não foi afetada por este estranho fenómeno.

Mãe Jill e a filha Matilda. Fonte: TecMundo

Da saga “em terra de cegos, quem tem olho é rei”; surge a sequela “em terra de uma sociedade que não consegue pregar olho, quem consegue adormecer é vítima de atenções indesejadas”como é, lá está, o caso de Matilda, que, com apenas 10 anos, se transforma no alvo ideal para virar cobaia de testes abusivos e desumanos.

É precisamente neste contexto, e pelas piores razões, que nos deparamos com a Drª. Murphy, interpretada por Jennifer Jason Leigh, uma ex-psiquiatra militar sem escrúpulos, que não olha a meios para atingir os fins. Como é óbvio, numa altura em que o cansaço se apodera do corpo e da mente, o bom senso fica fora da ordem do dia e o instinto de sobrevivência de todo e qualquer ser humano é ativado. Da igreja às clínicas, os cidadãos entram em desespero e começam a olhar para uma criança de 10 anos como se fosse um alvo a abater ou como exploração.

É precisamente a partir desse momento que nos deparamos com aquela que, para mim, foi a melhor prestação de todo o filme. A mãe Jill (Gina Rodriguez) enfrenta mundos e fundos para defender os seus filhos, Noah e Matilda, e recorre aos conhecimentos de veterana de guerra para sobreviver e defender aqueles que mais ama. Gina Rodriguez presenteia-nos com uma prestação ‘de tirar o chapéu’ com toda a qualidade e verdade que, infelizmente, Awake, enquanto filme, não nos consegue oferecer.

Jill e Matilda. Fonte: TecMundo

A (fraca) qualidade do filme não se deve, de todo, aos atores em cena, tendo em conta que o elenco inclui nomes como Finn Jones, Shamier Anderson ou Edsson Morales – com prestações exímias.

Awake conta com 1h36 de uma história dramática, mas monótona; tensa, mas pouco densa. Por isso, acabamos por, consciente ou inconscientemente, depositar todas as nossas esperanças num final que, uma vez mais, acaba por desiludir.

Por ironia do destino, é caso para dizer que Awake nos obriga a questionar até que ponto não seria preferível termos ficado a dormir.

Artigo redigido por Bruna Gonçalves

Artigo revisto por Miguel Tomás

Fonte da imagem de destaque: Adoro Cinema

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