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Record of Youth: até onde devemos perseguir um sonho

Acho que “querer crescer” é algo que está constantemente na nossa cabeça até alcançarmos uma determinada idade. Queremos a liberdade, a vida e as experiências dos “crescidos”. Eventualmente, alcançamos essa idade e somos “crescidos” – e isso torna as coisas menos engraçadas.

Record of Youth é uma das estreias de novembro da Netflix Portugal. Na série Coreana, Sa Hye-jun – Park Bo-gum no seu último papel, antes de partir para os seus dois anos de serviço militar obrigatório – é um aspirante a ator que, além de fazer trabalhos enquanto modelo, tem diversos part-time. Vindo de uma família humilde, não se pode dar ao luxo de se focar apenas em trabalhar para alcançar o seu sonho, algo que agrada a sua fã Ahn Jeong-ha (Park So-dam, uma das caras de “Parasitas”). Jeong-ha deixa o seu estável trabalho de escritório, uma vida com a qual não se identificava, e torna-se maquilhadora profissional. Claro que, além do fator “fã”, as profissões das personagens principais tinham tudo para cruzar caminhos.

Fonte: Meaww

Hye-jun tem uma relação especial com dois amigos: Kim Jin-woo (Kwon Soo-hyun), fotógrafo que pertence a uma família pobre, e Won Hae-hyo (Byeon Woo-seok), aspirante a ator que se interessa também por Jeong-ha e que pertence a uma família rica – alerta: todas as condições reunidas para um bom triângulo amoroso. A necessidade de reforçar as posses reside no processo inicial de ascensão – os contactos da mãe de Hae-hyo sobrepõem-se ao talento de Hye-jun. No entanto, com mais ou menos dinheiro, como qualquer comum mortal e jovem adulto num mundo incerto, há o medo que os faz oscilar entre o lutar por aquilo que querem e o entrar na onda que os arrasta para a via fácil. Isto porque todos sabemos que, mais cedo ou mais tarde, temos de encarar a responsabilidade e não nos apegar a sonhos que não têm futuro.

Pela minha explicação, a história parece demasiado cliché, mas não há outra forma de a contar sem ser a simplificar. A cada cena da série há um novo detalhe do argumento que é desmascarado e fundamentado. A história não se foca nos chavões, ela desconstrói cada detalhe que leva as personagens a chegar até ali. Retrata abusos no local de trabalho, assédio, fraudes, relações – familiares, de trabalho e amizades –, serviço militar obrigatório e, algures lá no meio, ainda arranja tempo para construir uma das relações mais bonitas que já vi numa série: sentimos que eles entram nela como ondas, quase sem se aperceberem do que está a acontecer, até já ser tarde. Vemos Hye-Jun deixar traumas para trás e Jeong-ha a fazer a passagem de um amor platónico de fã, para um amor pela pessoa que entrou na vida dela.

Fonte: Ready Steady Cut

Relembro-me dos meus tempos de adolescência, quando fantasiava fanfics com os One Direction, mentalmente. O meu único ponto para fins de relações imaginárias era a “fama”: o tempo que a fama tiraria, a quantidade de gente que a fama traz e aquela ideia típica de quem vê “Hannah Montana” de que a vida de um famoso se divide em dois mundos. Hye-jun não é a Hannah Montana, nem se tornou noutra pessoa enquanto fica cada vez mais famoso, mas nem isso evitou a dificuldade dele em continuar com as suas duas vidas. Porque o personagem tem um fundo doce e procura, ao máximo, fazer todos felizes – às vezes esquece-se de que também tem de se fazer feliz.

Esta série tem uma mensagem bonita: todos temos o nosso tempo certo para crescer e nos tornarmos naquilo que queremos ser. O que queremos hoje pode não ser aquilo que queremos amanhã e o sucesso tem muitas formas de se manifestar. E temos de saber lidar com aquilo de que precisamos e com aquilo de que aqueles de quem nós gostamos precisam: mesmo que isto implique termos de abdicar de alguém.

As personagens estruturadas fazem-nos acreditar que “antes de o ser, já o eram” – procuram retratar excertos dos sentimentos dos atores. Tal é notório pelo facto de esta ser a última série de Parg Bo-gum antes do serviço militar e a personagem se debater sobre se deve partir ou perseguir por mais tempo o seu sonho. Quase como o ovo e a galinha, senti que não sabia qual dos dois tinha vindo primeiro. Os atores que já não são propriamente novatos apresentam uma representação exímia e a história, minuciosamente construída, faz com que os dezasseis episódios da série passem sem darmos conta. 

Artigo revisto por Andreia Custódio

Fonte da foto de capa: Korseries

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