Literatura

Saúde Mental na Literatura

No passado dia 10 de outubro celebrou-se internacionalmente o Dia da Saúde Mental. Este é um marco muito importante, porque se abriu um espaço de discussão para este tipo de assuntos, de forma a que as pessoas ganhassem consciência de que a saúde mental é tão ou mais importante do que os outros tipos de saúde – tudo isto graças ao facto de as condições como depressão, ansiedade e TOC (transtorno obsessivo-compulsivo) terem sido declaradas doenças mentais. Além disto, este dia relembra-nos também de que estes não são apenas distúrbios passageiros e, por isso, deveriam ser levados de forma mais séria.

No entanto, mesmo com o esforço por parte da OMS, o tema da saúde mental ainda não é abordado com a devida seriedade, pois a informação que nos chega é muitas vezes camuflada, ocultando-nos a realidade. Muitos evitam ler artigos ou ver documentários sobre casos reais talvez por receio de se tratar de um conteúdo pesado ou por puro desinteresse. 

Ainda que este tipo de atitude não devesse existir, estar bem informado é sempre enriquecedor – trago, para os amantes de leitura, as seguintes obras que descrevem muito bem a vivência de três personagens com as diferentes doenças mentais. Mesmo tratando-se de ficção, espelham fielmente cada tipo de transtorno apresentado, facilitando a leitura e o entendimento de cada um, sem induzir o leitor em erro ou ilusão.

Assim, eis os três livros que recomendo:

“Mil Vezes Adeus”, de John Green

“Mil Vezes Adeus” é um romance de investigação escrito por John Green, autor de “A Culpa é das Estrelas” e de “Quando a Neve Cai”. O enredo centra-se na investigação que a personagem principal, Aza Holmes, e a sua melhor amiga, Daisy, fazem para procurar o desaparecido e bilionário Russell Pickett. As duas acabam por se envolver com o filho deste, Davis, que, aparentemente, não quer que Aza se aproxime dele apenas para procurar o seu pai, pois sabe que estão cem mil dólares em jogo e não quer ser usado.

No entanto, fora o stress com a investigação e a sua relação instável com Davis, Aza debate-se com outras batalhas interiores. A protagonista sofre de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), tendo repercussões no seu desenvolvimento e na forma como lida com situações do dia a dia.

TOC é toscamente conhecido pela doença das pessoas que têm a “mania da limpeza”, que limpam obsessivamente e têm de ter tudo no sítio certo. Esta é uma ideia errada e limitativa. Citando Katharine A. Phillips, licenciada em psicologia com especialização em distúrbios mentais, “O transtorno obsessivo-compulsivo é caracterizado por obsessões, compulsões ou ambas. As obsessões são ideias, imagens ou impulsos recorrentes, persistentes, indesejados, que provocam ansiedade e são intrusivos. As compulsões (também conhecidas como rituais) são determinadas ações ou atos mentais que a pessoa se sente impelida a praticar para tentar diminuir ou evitar a ansiedade causada pelas obsessões”. Então, ainda que a obsessão da pessoa seja a limpeza, isso não determina que toda a doença seja caracterizada dessa mesma forma. 

Aza é um bom exemplo de como esta doença pode afetar as pessoas de diferentes maneiras. A sua obsessão é essencialmente o medo de contrair bactérias. Ela pesquisa por uma infeção bacteriana com o nome de C. diff, responsável por causar problemas ao nível do estômago e do cólon. Então, com medo de poder contrair essa bactéria, a jovem adota vários comportamentos a fim de se proteger da mesma, tais como: o uso compulsivo de desinfetante, tanto nas mãos como na boca; o cuidado com o que come em espaços públicos; e, o mais peculiar de todos, ao reabrir uma ferida no seu polegar, cravando-lhe uma unha, para verificar se ainda tinha o sangue a circular e para sentir alguma coisa que lhe confirmasse que é real em relação às outras pessoas.

Estes rituais ajudam a retratar as dificuldades que a personagem passa no dia a dia, mas não só. Como referido anteriormente, Aza tem medo de não ser real. Tem medo de que a doença a “engula” e a controle. Ela caracteriza este receio como uma “espiral de pensamentos”, já que, quando fica obsessiva com um alguma coisa, não consegue sair desse ciclo e assim deixa de ser ela mesma. O medo e o controlo que a doença exerce sobre Aza é retratado pelo autor através de uma escrita diferente, sendo que, quando a doença controla a jovem, os seus pensamentos ficam escritos em itálico, o que os torna mais intensos.

Por estes e por muitos outros motivos, creio que esta personagem tecida por John Green retrata bem a realidade de alguém que sofre deste distúrbio. “É bastante raro encontrar alguém que veja o mesmo mundo que tu”, defende Aza. Por isso, aconselho a darem uma vista de olhos no livro, pois, além de ser uma grande história, podem aprofundar os vossos conhecimentos sobre esta matéria. Não se vão arrepender.

Eu é a palavra mais difícil de definir.”
Fotografia de Mariana Colaço

“Tudo o que temos cá dentro”, de Daniel Sampaio

“Tudo o que temos cá dentro” é um romance que surge a partir de uma situação clínica real. É caracterizado pelo autor como uma “quase-ficção”. O enredo foca no caso clínico do jovem Nuno, que perde uma amiga, Rita, que se suicidou. Assim, a obra divide-se entre o relato do terapeuta e os pensamentos de Nuno. 

O autor diz-nos que a história poderia ser de qualquer adolescente – visto que envolve problemas pelos quais todos passamos nessa fase -, se não fosse a dureza indiferente que Nuno tinha à vida.  

Este tipo de indiferença ou reação a um acontecimento dramático pode ser caracterizado por Post-Traumatic Stress Disorder, traduzindo stress pós-traumático (PTSD) e varia de pessoa para pessoa.

No livro, são nos apresentadas as reações das duas personagens: as de Nuno perante o suicídio de Rita e perante a morte do seu avô, que já teria falecido há algum tempo; e as da própria Rita, através de uma carta revelada pelo autor, como tentativa de explicar o trauma da jovem e o seu ato. 

De uma forma leve, este volume ilustra a interpretação de um terapeuta sobre os pensamentos de um jovem que se sente preso nos acontecimentos passados e que, ao longo da leitura do livro, verificamos que ele os vai ultrapassando com a ajuda das técnicas do profissional, explicadas de forma acessível no decorrer da obra.

Ainda que a obra seja baseada numa história real e dramática, vale a pena folhear as páginas e absorver os conhecimentos psicológicos que o autor tem para partilhar. 

“A vida é um dilema singelo, ou se é bigorna ou se é martelo.”
Fotografia de Mariana Colaço

“Mr. Mercedes”, de Stephen King

“Mr. Mercedes” é uma trilogia policial/thriller escrita por Stephen King. A trama começa numa madrugada, com um crime cometido numa feira de emprego, onde um indivíduo atropela as pessoas na fila da entrada, ao volante de um Mercedes roubado. Quem fica encarregado de o desvendar é o agente Bill Hodges, que rapidamente se apega ao caso. Entretanto, este último reforma-se e o crime continua por resolver. É então num dos seus dias monótonos que recebe uma carta de alguém denominado “Mr. Mercedes”, afirmando que pretende cometer um outro crime ainda mais diabólico. Assim, Hodges suspende a reforma por uns tempos e, com a ajuda de dois aliados (um pouco improváveis), tenta travar o assassino do Mercedes. 

Esta obra apresenta algumas personagens com abordagens interessantes e algumas, inclusive, com problemas psicológicos, tal como o assassino Brady Hartsfield. 

No entanto, a personagem sobre quem quero falar neste artigo chama-se Holly Gibney. 

Holly é um dos improváveis aliados de Bill na busca pelo condutor da viatura. Improvável, especialmente, porque os feitios dos dois colidem bastante, visto que Hodges é um pouco arrogante e irreverente, não olhando a meios para caçar este homicida, e Gibney demonstra ser exatamente o contrário, pondo barreiras ao seu parceiro e ajudando-o a contornar as regras que durante tantos anos teve de seguir. No entanto, esta personagem é peculiar por outros motivos, visto que sofre de TOC, de sinestesia, de transtorno de processamento sensorial (TPS) e, a meio do segundo livro da trilogia, suspeita-se também de espetro de autismo.  

Uma vez que Gibney sofre de várias doenças psicológicas, é muito protegida pela família, que não a deixa ter um emprego ou explorar as suas capacidades, ainda que esta tenha mais de 25 anos e uma visão especial para a investigação, devido à sua forma diferenciada de ver o mundo. 

Só quando se encontra com Bill é que se rebela contra a família, juntando-se como detetive privada a uma sociedade que mais tarde terá o nome de Finders Keepers. 

A sua evolução é muito interessante e vai-se desenvolvendo em segundo plano ao longo dos livros. Um dos exemplos deste desenvolvimento é a forma como aborda o seu colega Bill, conseguindo, aos poucos, enfrentá-lo com opiniões diversas em relação ao caso, algo que antes lhe causava transtorno. 

Por ser tão única e adorada pelo autor, este incluiu-a noutros livros, como no “The Outsider”, tornando-se numa personagem secundária com papel fulcral para o desenlace da sequela à trilogia; e em “If It Bleeds” é protagonista num dos contos do livro, onde King desenvolve mais sobre os referidos distúrbios e sobre a abordagem da personagem aos mesmos.

Por tudo isto, aconselho vivamente a leitura, não só do livro, como de toda a trilogia do “Mr. Mercedes”. Holly é uma personagem complexa e interessante, envolvida em excelentes enredos. Se esta vos despertar interesse, podem sempre ler os livros referidos acima. Como decerto devem saber, Stephen King não costuma desiludir. 

Estas são três sugestões pessoais que, além de interessantes para o tema em questão, são excelentes companhias em tempos de confinamento. Boas leituras e cuidem-se. 

That’s all history is, after all: scar tissue.”
Fotografia de Mariana Colaço

Imagem de capa: fotografia de Mariana Colaço

Artigo revisto por Maria Ponce Madeira

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