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Se eu te matar, tu não me matas a mim

Ne tuez pas la personne humaine,
car Allah l’a declarée sacrée.

(Coran, VI, 151.)

Acordas. Abres devagar os olhos – um de cada vez porque estás cansado. Olhas para o teto do teu quarto, que se ilumina com o sol que vai rompendo pela janela. Estás confortável. A cama quente, os lençóis fofos. Pegas no telefone e confirmas as horas. Ainda tens tempo. Sem querer, abres a câmara frontal e encontras-te. Foi dura a noite. A vida, porém, vai sorrindo no teu próprio sorriso que desenhas, no escuro matinal que te cega as vistas (porque a mais suave das luzes sempre se assemelha ao holofote de um helicóptero policial quando as horas a que te levantas são menores que as que dormiste).

Levantas-te finalmente. Pões a água a correr. O vapor vai envolvendo o quarto de banho. O teu corpo nu, envolto na névoa, deixa de se ver no espelho agora coberto de uma fina película difusa. Num golpe, saltas lá para dentro. A água lava-te o corpo, mas nunca é suficiente para te lavar a mente e, por isso, passas três quartos do tempo a pensar e o restante quarto a imaginar como seria se não te tivesses vindo embora mais cedo.

Vestes as tuas roupas preferidas. As marcas de cada peça deixam-te feliz. Olhas para o espelho, apartas o cabelo da maneira de que mais gostas. Sorris para o teu reflexo. Ensaias expressões. Pegas no telefone e vês as horas. Estás atrasado.

Apressas-te então, engolindo com pressa o pequeno almoço que a tua mãe te preparou. Tratas dos dentes rapidamente, desrespeitando os dois minutos recomendados pelos especialistas. Vestes o teu casaco preferido, dás uma última espreitadela no espelho, enterras a tua cabeça num gorro fofo e vermelho, agarras nas chaves, apalpas as calças para ver se lá tens a carteira, pegas no telefone e vais.

Sais do prédio e, de repente, a rua inunda-te. Adaptas o teu comportamento ao da urbe. De cada lado de ti, centenas de pessoas te acompanham. Vão no mesmo sentido. À mesma velocidade, passos semelhantes. Vestem casacos da mesma cor que o teu. Os ténis são iguais também. Assim vistos, parecem um exército cujas caras são iluminadas por pequenos retângulos que, quem não soubesse, se podia dizer serem uma espécie de guia. Uma bússola. Tu, que és o único com o barrete vermelho na cabeça, vês isto porque não vais com o telemóvel na mão.

Chegados à beira da rua, todos ao mesmo tempo, uma fila, um batalhão de pessoas que se perfila ao longo do passeio esperando pela ordem do sinal, aguardam que o rio de automóveis pare e, guiados por um Moisés menos bíblico, atravessam, com passos que parecem marcha, para o outro lado. A meio do caminho, ali entre um lado e o outro, uma chuva de tiros mata um a um e a todos. Na verdade, mata só um porque os outros são todos iguais.

De repente, só tu, só o teu carapuço vermelho se ergue. Só tu estás de pé e à tua volta cadáveres e mais cadáveres cobrem a estrada. Olhas à volta e já lá não estão carros. Olhas mais atentamente e nem vês a estação do metro que era o teu objetivo. Num repente, estás no meio de um silêncio ruidoso. Não ouves nada. A certa altura, nem sabes se estás no meio da estrada ou no meio de um sonho. Olhas em frente. Olhas para a montra e lá te vez refletido. Distingues-te pelo garruço vermelho. Ao teu lado, de cada lado, chegados à beira da rua, todos ao mesmo tempo, uma fila, um batalhão de pessoas que se perfila ao longo do passeio esperando pela ordem do sinal, aguardam que o rio de automóveis pare e, guiados por um Moisés menos bíblico, atravessam, com passos que parecem marcha, para o outro lado.

O sinal fica verde e, com eles todos, atravessas a rua e desces para o metro como água que flui para um sumidoiro.

Na Síria, todos os dias, centenas (milhares?) de vidas são atravessadas por uma bala. Snippers, escondidos por entre ruínas de um quotidiano jamais vivido, brincam com as tentativas de viver de um povo jamais perdido. Eles não morrem, mas também não vivem.

Estão no limbo. Aquelas pessoas, aquelas crianças que com sete anos já carregam armas para poderem comer. Aqueles casais que se abraçam e se beijam só para poderem atravessar a rua de um lado para o outro – pois não sabem se pelo caminho, se pelo meio das riscas da passadeira, não estão já inscritas as suas lápides. Se sobreviverem, se pelo caminho nenhuma bala, se nenhuma “força libertadora” patrocinada pelo Ocidente os forçar a um destino diferente daquele que lhes estava passando pela mente antes de chegarem ali, àquela encruzilhada que, dois anos antes, não mais era que um cruzamento entre ruas.

O Estado Islâmico, o Daesh, chegou à Síria e criou uma sociedade à parte. Nos seus territórios, «o [Daesh] estabeleceu regras rígidas, inspiradas na Sharia, a lei islâmica.» Escrevia, em Junho passado, Nuno Tiago Pinto, na revista ‘Sábado’. E prossegue «Quem beber álcool recebe 80 chicotadas, quem roubar fica sem a mão direita, quem cometer adultério é morto por apedrejamento, os homossexuais são executados (atirados de edifícios), as mulheres que não se vestirem de acordo com as regras são chicoteadas e quem blasfemar contra Alá é decapitado». Parece uma coisa digna da Idade Média, contudo, não se podem esquecer as comparações.

No mundo “civilizado” do Ocidente, em fevereiro deste ano, Deven Guilford, 17 anos, era só um adolescente que vinha de um treino de basquetebol na igreja. Foi morto a tiro, no Michigan, por um polícia depois de lhe ter feito sinais de luzes porque o carro daquele sargento estar com as luzes desajustadas, encadeando o trânsito que vinha em sentido contrário.

Com a conivência deste mundo “superior” e fora da Idade Média, ativistas são torturados por distribuir folhetos e ler livros.

Também neste lugar sagrado da liberdade, as fronteiras vão-se fechando, o medo aumentando. Os civis abdicam dos seus direitos, as câmaras multiplicam-se e apontam a cada passo de cada um. O cidadão comum abre as suas portas e grita à polícia por proteção. «Entrem por aqui a dentro e salvem-me deles!», dizem. Quem entra? Quem são eles?

Na Síria, o Daesh, que luta contra a tirania de Bashar Al-Assad, prossegue Nuno Tiago Pinto, «assumiu as funções de um Estado: cobrou impostos, reparou estradas e linhas eléctricas, providenciou cuidados de saúde, estabeleceu tribunais com base na lei islâmica, criou uma polícia – a hisba –, emitiu documentos, começou a cunhar a própria moeda […] e incentivou o ensino baseado na Sharia.»

Que mal tem o Estado Islâmico? Aquilo que salta à vista é apenas a diferença. Pensam de forma distinta da maneira ocidental. Têm prioridades diferentes. Se aqui o deus é de cifras, lá tem uma outra figura e chama-se Alá. São só diferentes de nós. Todavia, têm o mesmo objetivo que o ocidente: manter e expandir.

Daí que haja confronto. Com justificações diferentes, duas fações da mesma humanidade procuram crescer. Incutir nos outros aquela que é a sua visão de mundo, de comunidade, de sociedade. Nós já fomos como eles. E eles já foram como nós. Entretanto, a metamorfose ocorreu e agora somos nós a saltar para cima deles e a ignorar o que aqui temos dentro.

Os regimes fascistas dos anos 30 na Europa uniam a sociedade apelando ao confronto entre o «nós» e o «eles». Habilmente, os estrategas pegavam nos estereótipos e na generalização, agarravam nos incidentes que iam acontecendo ou sendo encenados e usavam-nos como provas da necessidade crescente de uma maior “segurança”. Os grupos agrupam-se, os medos amedrontam-se. A exclusão é automática. A união une-se cada vez mais.

E dela nasce a força. A força que facilmente move massas, move multidões. Todos, debaixo do mesmo fáscio, gritam e imploram para que os «outros» sejam expulsos da sua comunidade de «nós», para que a sua entrada na vida do «nós» seja impedida, custe o que custar. «Temos medo de sair de casa, temos medo de ir para a escola! Tirem os outros daqui e nós votamos em vocês». E “eles”, com os votos, os dinheiros e as confianças na mão, lá os tiram, lá os eliminam, lá neutralizam a ameaça que os «outros» representam para «nós».

Os refugiados hoje são «outros». Como sempre o foram. Sempre foram estranhos. Têm manias esquisitas. Olhem para eles… Olhem para aquilo! Olhem só… Vejam, a recusar ajuda. Vejam, a pedir auxílio. Vejam, a morrer no nosso mar. «Resolvam isto!», pedem.

Os atores políticos capitalizam. As suas ideias são perfeitas para esta situação. «Nós sempre tivemos razão, povo! Vejam agora o estado em que se meteram!», diz o político. E o povo responde: «É verdade! Salva-nos agora, político!». E o político salva-os.

«Olhos que não vêem, coração que não sente». Mata-os ali ao canto, porque aqui o povo vê e essas «imagens podem impressionar os espetadores mais sensíveis». E as balas rompem o ar. E os mísseis franceses, americanos, russos, humanos, continuam a cair na casa do sírio, do iraquiano, do líbio, do francês, do americano, do russo, do humano. Isto é como um espelho: se matas o teu reflexo, matas-te a ti.

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