Literatura

“Eu até costurei as páginas à base de agulha e linha.” – A história de Tess Gerritsen

Mais de 20 milhões de cópias vendidas, obras traduzidas para cerca de 40 idiomas, um nome de peso no mundo dos thrillers médicos e a “mãe” de uma das séries de livros policiais mais queridas de sempre: Tess Gerritsen. Para conhecermos melhor a sua história e o seu percurso de vida, entrámos em contacto com a escritora para que nos respondesse a algumas questões.

Tess Gerritsen, nascida Terry Tom, em 1953, é uma escritora best-seller sino-americana mundialmente conhecida pela sua série de livros Rizzoli & Isles, que ganhou uma adaptação para a televisão em 2010.

Desde muito cedo que Tess mostrou indícios daquilo que se viria a tornar um dia: “Eu tinha sete anos e já era uma ávida leitora. Foi então que decidi que queria ser escritora”. “Na verdade, eu escrevi o meu primeiro livro nessa época, sobre o meu gato que tinha acabado de falecer. Eu até costurei as páginas à base de agulha e linha”, relembra.

Mais tarde, a autora veio a formar-se em antropologia na Universidade de Stanford e em medicina na Universidade da Califórnia. 

A escrita sempre foi algo presente ao longo da sua vida e após  o nascimento dos filhos, Gerritsen foi tentando conciliar a sua vida como podia. Entre cuidar dos filhos, trabalhar como médica e continuar a dar azo à sua paixão pela escrita, o tempo de Tess parecia infinito. Até que, em 1987, a sua primeira obra (Call after midnight) saltou diretamente da sua secretária para as prateleiras das livrarias americanas: “Eu adorei escrever este primeiro livro, pois estava o tempo todo a querer terminá-lo. Sem deadlines, sem expectativas… isso ajudou a libertar-me mais para que pudesse contar a história que eu queria.”

Viu no sucesso que o seu primeiro livro obteve uma oportunidade para se dedicar aos seus filhos e à escrita a tempo inteiro, abdicando do trabalho no hospital: “Realmente ajudou ter os meus filhos como desculpa para me demitir do meu trabalho”, ironiza a autora.

Jane e Maura foram as personagens responsáveis pela expansão da fama de Tess Gerritsen. A arrojada e irreverente detetive do departamento de homicídios Jane Rizzoli, em conjunto com a enigmática e metódica médica legista Maura Isles formam uma dupla implacável. Quando questionada relativamente a como esta série de livros nasceu, Tess explica:

 “Eu andava a escrever thrillers médicos e escrevi um intitulado The Surgeon (2001). Apresentei uma personagem menor chamada Detetive Jane Rizzoli. Ela era apenas uma personagem secundária, tanto é que eu até planeei matá-la perto do final do livro, mas, enquanto eu escrevia, passei a gostar tanto da Jane que não consegui fazê-lo. No final de The Surgeon, decidi usar a Jane como personagem principal no livro que viria em sequência, The Apprentice (2002). Neste livro, apresentei a Dra. Maura Isles, que era também apenas uma personagem menor. Mais uma vez, fiquei tão interessada nessa personagem que fiz dela uma personagem principal no terceiro livro, The Sinner (2003). Eu não planeava escrever uma série – eu simplesmente apaixonei-me pelas personagens e não pude deixá-las ir.”

Com o universo Rizzoli & Isles consolidado, surge então a oportunidade de dar uma voz e uma vida às duas personagens através de uma série de televisão: “Isso trouxe-me muito mais leitores. Eles estão ligados a essas duas mulheres e querem saber o que acontece a Jane e Maura. Então, com a série de televisão, o público cresceu ainda mais”, realça Tess.

Contudo, como é comum, a adaptação televisiva apresentou algumas discrepâncias relativamente às obras: “Houve algumas diferenças entre os meus romances e a adaptação, mas isso acontece muito frequentemente. Na TV, Jane e Maura eram muito mais glamourosas e bonitas. A Maura da série, era bem diferente da sombria Maura dos livros. O relacionamento delas na TV era muito mais próximo. Nos livros, as duas mulheres têm uma relação cheia de altos e baixos, devido às suas personalidades tão diferentes”, distingue.

A inspiração é um ponto chave na vida de um escritor, seja ele um novato ou um veterano, cada qual com os seus métodos para a encontrar. Tess Gerritsen não é exceção: “Eu presto atenção às conversas ao meu redor. Mais importante, eu presto sempre atenção às minhas reações emocionais às situações. Algo que eu veja ou ouça que me deixa chateada, assustada ou com raiva? Então isso provavelmente é um bom ponto de partida para começar uma história”, expõe.

Fora do mundo literário, uma das grandes paixões da escritora é viajar pelo mundo. É, também, dessas mesmas viagens que surgem várias ideias para as suas obras: “Viajar é uma grande parte da minha inspiração. É uma parte muito importante para encontrar ideias para histórias”.

Interrogada sobre exemplos de viagens que contribuíram com ideias para os seus livros, Gerritsen recorda:

 “Quando eu fui a Itália, inspirei-me na sua arte religiosa para escrever I know a secret.

Harvest foi inspirado numa conversa de jantar que tive com um detetive, enquanto estava em viagem pela Rússia. As suas histórias de crianças que eram sequestradas nas ruas deram-me a inspiração de que precisava para a obra.

Quando eu e o meu marido fomos para a África do Sul numa turnê de um livro, acabámos por fazer um safári. Enquanto estávamos na savana, estivemos cara a cara com um leopardo, mas o nosso ótimo guia protegeu-nos. Foi uma experiência assustadora, e fez-me pensar sobre como tivemos sorte em ter alguém para nos proteger. Então eu pensei (como eu escrevo livros assustadores): e se estivéssemos na savana com um guia que NÃO ESTIVESSE lá para nos proteger? E se ele estivesse lá para nos ferir? Foi assim que tive a ideia para escrever Die Again.

Para o meu livro Gravity, eu precisava de aprender sobre o programa espacial e a Estação Espacial Internacional. Então viajei para a NASA, no Texas, e passei lá uma semana a entrevistar pessoas. Para escrever esta história, precisava de saber como tudo deveria funcionar no espaço. Falei com engenheiros, médicos de aviação, especialistas em voos espaciais e diretores de voo. Quando terminei de escrever Gravity, estava tão imersa nos detalhes que sonhava em gravidade zero todas as noites”.

Com mais de 30 anos de carreira literária, deparar-se com aspirantes a escritores tornou-se algo recorrente. Para todos aqueles que anseiam escrever o seu próprio manuscrito, Gerritsen aconselha: “Não te distraias nem desanimes. Não te preocupes se o primeiro rascunho parecer mau, sempre podes consertar tudo no segundo. Se ficares bloqueado, faz uma pausa e dá um tempo. O enredo acabará por revelar-se. Por fim, o mais importante, começa com uma personagem que tenha uma voz forte, alguém que fale contigo pessoalmente.”

As novidades não ficam por aqui, a autora de 68 anos continua com vários projetos em mãos neste preciso momento: “Estou a escrever roteiros para uma próxima série de televisão chamada Survivors e estou a meio de um romance sobre espiões aposentados”, anuncia.

Além disso, o 13.º livro da série Rizzoli & Isles será publicado em julho (Listen to me) e contará com um forte envolvimento de Ângela, mãe de Jane.

Fonte da capa: NotaTerapia

Artigo revisto por Carolina Rodrigues

AUTORIA

Um misto de curiosidade, de muito trabalho e determinação é o de que é feito Tomás Delfim. Gosta de desporto, ciência e, principalmente, de se comunicar e fazer ouvir. A falta da sua visão nunca foi um obstáculo no seu caminho, o que apenas o tornou mais determinado.