Literatura

VHS: Verdadeira história de superação

O género horror tem sofrido várias mudanças com o passar dos séculos. Com origem em contos folclóricos, bruxas, vampiros… estas obras, além de aterrorizarem quem as lê, carregam uma missão mais profunda hoje em dia.

Cesar Bravo é um escritor brasileiro que possui o prestígio de ser um dos pioneiros do horror nacional. Para conhecer mais a fundo o seu percurso, a ESCS Magazine entrou em contacto com o “pai” do terror brasileiro para responder a algumas questões.

O gosto pela escrita revelou-se na adolescência. Cesar transpunha para o papel pequenos desabafos, letras musicais e prosas curtas. “Nessa fase a escrita estava mais para uma válvula de escape, ainda assim, confesso que sempre ambicionei (às vezes, inconscientemente) uma forma de ganhar a vida com alguma expressão artística”, relembra.

Apesar de ter feito formação em farmácia, experimentou diversas áreas, desde a música à construção civil. No entanto, e apenas aos 30 anos, Cesar acabou por se encontrar na escrita de romances longos.

Nascido em 1977, durante a sua infância Cesar teve a oportunidade de vivenciar em primeira mão o surgimento de fenómenos literários e cinematográficos de terror icónicos. Contrariamente à maioria das crianças, Cesar nunca viu o género do horror como algo angustiante: “Que eu me lembre, sempre me senti atraído por imagens e histórias que muitas pessoas considerariam horríveis e perturbadoras. Eu era uma criança que adorava correr e brincar durante o dia, mas que amava ficar em frente à TV até tarde, apreciando A Hora do Pesadelo, Sexta-Feira 13 e A Volta dos Mortos Vivos”, recorda.

Com a missão de aperfeiçoar a sua escrita, Cesar começou por publicar os seus trabalhos em grupos fechados do Facebook. Com o passar do tempo, a ambição por algo maior foi crescendo a par e a passo com a sua evolução na escrita. Foi então que decidiu arriscar. Publicou uma coletânea de contos para os leitores da Amazon, intitulada Além da Carne, que resultou em algo inesperado: “Para minha surpresa, meus livros chamaram a atenção de resenhistas especializados no género e esse pessoal me ajudou a compor minha primeira base de leitores”, afirma Cesar. Do Facebook expandiu-se para outras plataformas e redes sociais, até que conseguiu a atenção da editora DarkSide Books.

Apesar da sorte que teve em conseguir chegar ao radar de uma das editoras mais conceituadas do Brasil nesse género, Cesar reconhece que o facto de ter sido um pioneiro também tem o seu lado negativo: “No começo da carreira era tudo muito novo para mim, principalmente porque não tínhamos uma tradição de horror no Brasil; eu fui realmente um dos primeiros a se dedicar exclusivamente ao tema. O preconceito com o género ainda é muito forte no Brasil, mas isso é uma bagagem social que leva tempo até ser completamente desmistificada.” Contudo, o estigma que se faz sentir mostra-se seletivo: “Nosso problema não é a falta de procura pelo género, mas a falta de interesse pelos autores brasileiros. Essa espécie de repugnância gratuita ainda me parece o principal entrave que enfrentamos, precisamos aniquilar esse complexo estranho e reconhecer que existem obras absurdamente originais, chocantes e transgressoras por aqui”, esclarece. No entanto, Cesar ressalta: “Como nem tudo são más notícias, não posso deixar de dizer que o género cresceu muito na literatura, de 2012 até os dias de hoje.

Quando questionado relativamente ao preconceito sentido pelos escritores de horror, Cesar clarifica: “A nossa diferença para os demais é que permitimos que nossas ideias mais perturbadoras sejam conhecidas pelo mundo através dos livros. Todo mundo tem uma vontade louca de cometer alguma maldadezinha de vez em quando – é parte da energia humana. O caso é que nós escritores fazemos isso no papel. O que eu diria a alguém que sofre com esse estigma é: ninguém é na verdade o que aparenta ser, então, siga sendo quem você realmente é.”

Além dos calafrios causados pelas suas obras, Cesar imprime todo um significado entre as linhas dos seus escritos: “Nos meus livros, muitas vezes eu procuro propor um senso de justiça, acredito que seja algo comum entre os escritores de terror. Nos livros eu também posso dizer coisas que soariam agressivas demais no mundo real, críticas pesadas que na ficção são bem melhor recebidas. O mundo real às vezes é muito entediante, nos livros ganhamos asas e infinitas possibilidades”, expõe.

Na nota de introdução da obra Ouça o que Eu Digo, Cesar escreve: “Pelo teor das páginas seguintes, pode ser que você se pergunte se eu não acredito na raça humana. Bem, digamos que eu acredito em algumas facetas. Acredito no amor, na paixão e nas longas horas dedicadas a um propósito. Se eu acredito que somos bons por essência? Realmente não.” Será que passados sete anos após ter escrito a citação anterior o seu pensamento mudou? “Na época que escrevi Ouça o que Eu Digo, havia muito pouco da raça humana que eu conseguisse gostar ou admirar – até mesmo confiar. Quando minha menina veio ao mundo, eu percebi que somos bons na essência e que o mundo acaba por nos corromper. Então, hoje eu acredito que o problema maior seja a sociedade e não unicamente o ser humano. Se eu precisasse escrever essa mesma linha, trocaria o “Realmente não” pelo “Talvez”.

No seguimento da pergunta anterior, Cesar prossegue: “Eu acredito que o ser humano tenha uma predisposição absurda para se adaptar ao meio em que se situa. Se pensarmos sob essa visão, se um ser humano precisar ser mau para sobreviver, ele o será, se ele precisar conspirar contra outros, ferir e matar, ele também o fará, porque essa me parece ser a essência humana, esse é o segredo que nos tornou dominantes nesse planeta. A grande questão é que essa nossa espécie assim determinada, está confinada a uma sociedade, de um modo geral, muito hostil, o que nos impele a agir da mesma forma, por mero mecanismo de adaptação. Esse é o meu pensamento hoje em dia.”

Depois de lançamentos como Ultra Carnem, Caverna de Ossos, VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue, entre outros lançamentos, eis que é publicada 1618 – a mais recente criação do autor brasileiro. O enredo, de uma forma geral, gira em torno de uma anomalia tecnológica que envia mensagens anónimas perturbadoras para os telemóveis da população de uma pequena cidade, revelando segredos e crimes obscuros praticados pelos seus habitantes.“1618 é algo bastante novo para o mercado brasileiro, mas estou confiante que os leitores vão apreciar e respirar bem fundo ao final do livro.”, comenta o autor.

Fonte da capa: César Bravo

Artigo revisto por Madalena Ribeiro

AUTORIA

Um misto de curiosidade, de muito trabalho e determinação é o de que é feito Tomás Delfim. Gosta de desporto, ciência e, principalmente, de se comunicar e fazer ouvir. A falta da sua visão nunca foi um obstáculo no seu caminho, o que apenas o tornou mais determinado.