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The Big Short

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O mundo financeiro e o mundo cinematográfico voltam a encontrar-se, graças a Adam McKay, no filme biográfico The Big Short (A Queda de Wall Street, em português), uma adaptação do livro escrito por Michael Lewis em 2010. A história desenrola-se em torno de três narrativas distintas, protagonizadas por Michael Burry (Christian Bale), Mark Baum (Steve Carell), Jared Vennett (Ryan Gosling) e Ben Rickert (Brad Pitt) e interligadas pelo mercado imobiliário e pelas transações de crédito que originaram uma bolha especulativa que despoletou a crise financeira de 2008.

Por vezes, filmes sobre economia e finanças acabam por nos encurralar numa complexa teia de termos técnicos que dificultam a clareza da narrativa, principalmente no meu caso, cuja área de estudo não é especializada em tais assuntos. Contudo, Adam McKay, à semelhança de Martin Scorsese em O Lobo de Wall Street, introduz um cunho pessoal no guião, ao proporcionar momentos de pura diversão e absurdo de modo a facilitar a compreensão das especificidades anatómicas da economia. Certas vezes perdi-me entre os termos citados pelos protagonistas quando se referiam a CDO’s, AAA ratings, entre outros. Podem consultar a Wikipedia para saber o que significam estas siglas e acrónimos, mas aconselho-vos a ver o filme, onde serão esclarecidos por Margot Robbie dentro de uma banheira cheia de espuma ou por Selena Gomez sentada numa mesa de póquer.

São estes pequenos momentos que distinguem The Big Short dos típicos filmes biográficos. A presença de cutaways, como se de Family Guy se tratasse, e a interação com o público que assiste ao filme trazem dinamismo e fluidez entre os planos, enquanto a descaracterização das personagens reais que serviram de base para os protagonistas desta trama oferece um tom divertido e satírico ao filme. Graças a estes elementos, o drama e stress comum do mundo financeiro conseguem coexistir com o lado mais cómico desta vertente económica.

As várias nomeações da Academia, principalmente para Melhor Filme e Melhor Argumento Adaptado, são sem sombra de dúvida merecidas e premeiam esta rutura com os clichés das biografias cinéfilas. Mesmo que não arrecade as estatuetas, fica registada uma menção muito honrosa por parte do painel de Hollywood e também do resto do mundo – o filme foi nomeado para vários prémios BAFTA e Golden Globes e já conquistou vários Critic’s Choice Movie Awards.

Quem também contribuiu muito para o sucesso do filme foram Christian Bale e Steve Carell (não descurando o restante elenco, mas estes dois “partiram tudo”). Este último não está entre os nomeados para Melhor Ator Secundário nos prémios da Academia, mas mereceu nomeações noutros prémios, que, apesar de não ter vencido, são o reconhecimento de um trabalho bem feito. Carell volta a demonstrar a sua genialidade humorística, a que nos tem habituado desde os tempos de The Daily Show e The Office, e prova novamente a sua versatilidade enquanto ator ao desempenhar um homem frustrado e mal-humorado cujas teimosias o levam a deparar-se com situações algo embaraçosas, que asseguram boa disposição à audiência.

O mesmo sucede com Bale: este representa Michael Burry, um investidor com Síndrome de Asperger, que toca bateria sempre que pode e que adora ouvir hard rock e heavy metal aos altos berros no escritório do seu local de trabalho. Este teve um desempenho de encher o olho, logrando assim uma nomeação para o Óscar de Melhor Ator Secundário, que juntou às nomeações que obteve dos BAFTA, Golden Globes e Critic’s Choice Movie Awards (este último acabou mesmo por arrecadar, na categoria de Melhor Ator numa Comédia). O antigo Batman foi, para mim, o melhor em todo o filme, conseguindo captar a essência excêntrica, inábil e peculiar de um homem possuidor de um olho de vidro e com dificuldades acentuadas em interagir com terceiros, que, por vezes, o levam a tomar comportamentos inimagináveis. Apesar de não ter sido a personagem principal de The Big Short (dos protagonistas, foi possivelmente quem esteve menos tempo em cena), Burry serve de elemento conetor a todas as cenas, ao inteirar-se da queda do mercado imobiliário, que desabrochou as trocas de crédito que, por sua vez, levaram ao clímax da narrativa.

The Big Short é um dos filmes do ano e não só expande os horizontes do nosso conhecimento financeiro, mas também proporciona uma bela tarde de entretenimento com excelentes atuações e um brilhante sentido de humor e sarcasmo, pelo que recomendo a visualização deste filme, mesmo que não tenham interesse nem perícia na área da finança. É uma sessão de duas horas que vale a pena, nem que seja para ouvir When the Levee Breaks dos Led Zeppelin durante os créditos finais.

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